Em Seul-88, Taffarel pede passagem e mostra ao mundo seu talento

Foi na Olimpíada de 1988 que o "Diabo Loiro" conquistou definitivamente o seu espaço na Seleção, que manteria até a Copa de 1998

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Naquela noite de 27 de setembro, o Estádio Olímpico de Seul tinha dado folga às competições de atletismo dos Jogos Olímpicos. O palco que dias antes havia apresentado ao mundo a vitória trapaceira de Ben Johnson nos 100 metros rasos recebia uma das semifinais do futebol, com um duelo de gigantes: Alemanha Ocidental e Brasil, que até então nunca haviam se enfrentado numa Copa do Mundo, lutavam por uma vaga na final.

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Os alemães saíram na frente com um gol de Fach, de cabeça, ainda no início do segundo tempo, numa cochilada da defesa brasileira após cobrança de falta. O Brasil pressionou e conseguiu o empate aos 35 minutos, numa cabeçada de Romário após boa individual de Careca – não o centroavante famoso, então no Napoli, mas um meia comprido e habilidoso que então jogava no Cruzeiro. Mas, apenas dois minutos depois, Klinsmann puxou um contra-ataque, venceu o zagueiro Aloisio na corrida e, ao entrar na área, foi calçado pelo meia Geovani. Pênalti claro.

Parecia uma tragédia para Geovani, habilidoso meia do Vasco que tinha sido o herói do Brasil nas quartas de final, definindo a vitória por 1 a 0 com um gol de fora da área, com direito a uma ajudinha do goleiro Islas. E era um dos líderes do elenco, formado em sua maioria por jovens talentos que ainda não haviam sido negociados com o futebol europeu e buscavam, com o técnico Carlos Alberto Silva, uma vaga na próxima Copa do Mundo – afinal, só estavam na Olimpíada atletas que não tivessem jogado o Mundial, Eliminatórias incluídas, como previa o regulamento que valeu apenas para esta edição e a anterior, em Los Angeles-1984.

Mas Geovani foi salvo pelo goleiro do Brasil, um sujeito loiro que, visto com roupa comum na Vila Olímpica, talvez fosse confundido com os adversários alemães: Claudio Taffarel. Com toda a calma do mundo, aos 39 minutos do segundo tempo, ele esperou o chute do zagueiro Wolfgang Funkel, que bateu com o pé direito, fraco. Bastou cair para o lado esquerdo para Taffarel defender- e ainda teve tempo de se levantar e agarrar a bola.

O jogo foi para os pênaltis. E Taffarel se destacou, pegando mais dois, cobrados pelo volante Jansen e pelo Wuttke – Klinsmann ainda chutou o seu na trave. O Brasil venceu por 3 a 2 e o mundo foi definitivamente apresentado àquele goleiro que já não era uma novidade para os torcedores brasileiros. Para quem quiser encarar, neste link tem a íntegra da partida – o vídeo abaixo apresenta os gols e os pênaltis defendidos por Taffarel.

Taffarel já havia brilhando com a camisa 1 brasileira na conquista do Mundial Sub-20 de 1985, na União Soviética, abrindo uma escalação que tinha nomes como Muller e Silas. E logo firmou-se como titular do Internacional após a saída de Gilmar, goleiro do time prata em Los Angeles-1984, para o São Paulo. Suas defesas lhe renderam a alcunha de “Diabo Loiro”.

Mas ele ficou longe de ser a primeira escolha de Carlos Alberto Silva, contratado para renovar a Seleção Brasileira depois da eliminação na Copa do Mundo do México – em tempos sem data Fifa, a equipe passou quase um ano sem jogar. A primeira missão de Carlos era justamente o Pré-Olímpico, disputado na Bolívia, em março de 1987. E ele foi na segurança: levou Paulo Vitor, do Fluminense, que tinha sido um dos reservas de Carlos no México, o que era permitido pelo regulamento olímpico – desde que não tivesse entrado em campo. Mas o goleiro não satisfez o técnico, que o trocou ainda durante o torneio por Zé Carlos, que vinha se firmando no Flamengo.

Conquistada a vaga, ainda que com atuações longe de serem muito convincentes, Carlos Alberto teve de mudar o foco e pensar na Copa América, que depois de três edições disputadas em formato de ida e volta voltava a ter uma sede fixa, na Argentina. Então, para uma excursão à Europa, teve de lidar com protestos de cartolas que não queriam ver seus times desfalcados durante os Estaduais, optando por chamar o experiente Carlos, do Corinthians, titular de Telê no México (e que perderia a posição depois no time para outro veterano, Waldir Peres), e o novato Régis, que era reserva de Acácio no Vasco, mas tinha feito boas passagens pelas seleções de base.

O futebol na excursão não encantou muito: um empate por 1 a 1 com a Inglaterra (bem verdade que rendeu a Mirandinha uma chance no Newcastle), derrota por 1 a 0 para a Irlanda e vitórias sobre Escócia (2 a 0), Finlândia (3 a 2) e Israel (4 a 0). Na Copa América, um fiasco: depois de estrear com vitória por 5 a 0 sobre a Venezuela, o time levou 4 a 0 do Chile, sendo eliminado na fase inicial. Carlos Alberto Silva balançou, mas não caiu porque o Brasil tinha outra tarefa logo em seguida, os Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, e a CBF estava ocupada demais brigando com os clubes sobre o futuro do Campeonato Brasileiro.

Sim, foi no meio da confusão que resultou na criação do Clube dos 13 e da Copa União que o técnico convocou 18 jogadores para o Pan, respeitando a regra olímpica. Entre eles, os dois goleiros de times cariocas que já havia testado: o vascaíno Regis e o flamenguista Zé Carlos. Só que os cartolas dos dois clubes não gostaram dos desfalques em plena reta final do Carioca – o laterais Jorginho, do Flamengo, e Mazinho, do Vasco, e o atacante vascaíno Romário, também estavam na lista, No dia do embarque, dirigentes foram até o aeroporto para evitar que seus atletas viajassem e a seleção chegou aos Estados Unidos, dias antes da estreia, sem goleiros.

Às pressas, Carlos Alberto então chamou Taffarel e Pereira, que, insatisfeito com a reserva de João Leite, trocara o Atlético-MG pelo rival Cruzeiro. O gaúcho ficou com a camisa 12, mas levou a vaga de titular, e foi decisivo para a conquista do ouro, com vitórias sobre o México, nas semifinais, e o Chile, na decisão, ambas na prorrogação.

A partir dali, Taffarel tornou-se o goleiro de confiança de Carlos Alberto Silva. Só não esteve nos últimos jogos da Seleção do ano porque estava disputando a final da Copa União com o Internacional – e perdeu a chance de disputar a única partida na história em que o Brasil usou patrocínio na camisa de jogo. Mas, em 1988, foi titular em todos os jogos do ano, inclusive na Seleção principal – que só foi usada mesmo para a formação do time olímpico e ainda assim faturou o Torneio do Bicentenário da Austrália, com apenas um “reforço” fora das regras, Müller.

Na Coreia, Taffarel mostrou segurança e só seria vazado uma vez na primeira fase – após vitórias por 4 a 0 sobre a Nigéria e 3 a 0 sobre a Austrália, o Brasil fez 2 a 1 nos eslavos, que tinham nomes que ficariam famosos, como Katanec e Stojkovic, além de dois campeões mundiais sub-20 no ano anterior, o goleiro Lekovic e o centroavante Suker. Depois do tenso jogo com os argentinos, decidido por Geovani, e da vitória sobre os alemães, os jogadores ainda tiveram que enfrentar um desentendimento com a CBF por causa de premiação antes da decisão da medalha de ouro, história contada nos minutos finais do resumo abaixo produzido após os Jogos pela TV Bandeirantes.

Como se sabe, o ouro não veio. O Brasil acabou derrotado na final pela União Soviética, 2 a 1, na prorrogação, depois de abrir o placar com Romário no primeiro tempo e de levar um gol de pênalti que Taffarel não conseguiu defender. Carlos Alberto Silva deixou a Seleção meses depois, substituído por Sebastiao Lazaroni, após a posse de Ricardo Teixeira na presidência da CBF, em janeiro de 1989.

O goleiro, porém, seguiu firme com a camisa 1 do Brasil pelos dez anos seguintes, com direito a três Copas do Mundo com três técnicos diferentes, um título e mais alguns pênaltis decisivos defendidos. Hoje, aos 54 anos, há muito tempo já sem os cabelos loiros, Taffarel segue vinculado à Seleção, como treinador de goleiros. Uma história que, apesar de um ou outro percalço, colecionou um punhado de finais felizes.

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