Em maio de 1992, a Guerra da Iugoslávia atravessava um momento crítico. Por mais que a Croácia fosse reconhecida como um estado independente e as batalhas no país se tornassem intermitentes, as tensões na Bósnia estouravam. No início daquele mês, os sérvios conseguiram bloquear Sarajevo e passaram a atacar de maneira mais intensa a cidade. E foi exatamente neste contexto insustentável que, no dia 21, foi concluída a última edição da Copa da Iugoslávia durante a desintegração total do país.

Aquela competição ainda contou com a “participação” de todas as repúblicas que compunham a Iugoslávia. Contudo, diante da declaração de independência de seus países, os clubes da Croácia e da Eslovênia sequer entraram na primeira fase. O início da copa foi recheado de W.O.’s e classificações automáticas. Times macedônios e bósnios, em contrapartida, seguiram no certame – assim como no Campeonato Iugoslavo, também sem croatas e eslovenos.

Principais forças sérvias, Estrela Vermelha e Partizan Belgrado dominaram aquela Copa da Iugoslávia. E a interferência da guerra seria determinante ao clássico na decisão. Enquanto os alvirrubros derrotaram o sérvio Napredak Kruševac na semifinal, os alvinegros deveriam encarar o bósnio Željezničar Sarajevo do outro lado do chaveamento. O Partizan até venceu a partida de ida por 2 a 0. Mas a volta, marcada inicialmente para 6 de maio, terminou cancelada exatamente pelo cerco a Sarajevo.

As finais aconteceram em dois jogos. As duas equipes ainda não haviam sofrido a debandada massiva causada pela guerra. O Estrela Vermelha contava com parte da base que conquistara a Champions em 1991 – incluindo Sinisa Mihajlovic, Dejan Savicevic, Darko Pancev e Vladimir Jugovic, todos vendidos na sequência do ano. Já entre os principais nomes do Partizan estavam Budimir Vujacic, Slavisa Jokanovic, Branko Brnovic e Predrag Mijatovic. O técnico era Ivica Osim, que conciliava o clube com a seleção iugoslava, a qual havia levado até as quartas de final da Copa do Mundo de 1990.

Diante de 33 mil torcedores, o Partizan saiu em vantagem, ao ganhar a ida dentro do Marakana. Não se intimidou com o ambiente criado pela torcida alvirrubra e venceu por 1 a 0, graças a um gol de Vujacic. Uma semana depois, em 21 de maio, a volta aconteceu no Estádio JNA. Quase 40 mil torcedores foram apoiar o Partizan. E, num verdadeiro caldeirão, os alvinegros seguraram o empate por 2 a 2, suficiente ao título. Mihajlovic deixou o Estrela Vermelha em vantagem no primeiro tempo, com uma bela cobrança de falta. Durante a segunda etapa, Mijatovic empatou num lance de oportunismo. Pancev até retomou a dianteira aos visitantes a 20 minutos do fim, mas, logo depois, Jokanovic terminou como herói do título dos anfitriões.

O ambiente festivo em Belgrado não indicava em nada o terror que se vivia em Sarajevo. Dando o troco sobre os rivais após o vice no Campeonato Iugoslavo, o Partizan ergueu a taça e comemorou com sua torcida. O técnico Ivica Osim, porém, não tinha muitos motivos para celebrar. Dois dias depois, ele pediu demissão do clube e também da seleção. Nascido em Sarajevo, o veterano possuía familiares em meio ao cerco na Bósnia e declarou que não conseguiria conduzir os trabalhos diante do sofrimento que ocorria em sua nação.

O Partizan era historicamente administrado pelo JNA, o Exército Popular da Iugoslávia, que atacava Sarajevo. Já a seleção da Iugoslávia, classificada à Euro 1992, seria banida dias depois, por conta das sanções impostas pela ONU. Os clubes sérvios também se ausentariam das competições continentais pelas três temporadas seguintes, embora o futebol iugoslavo (restrito a sérvios e montenegrinos) tenha seguido em frente.

Aproveitando o clássico deste domingo, no próprio Estádio JNA, ficam as imagens daquela partida histórica de 1992: