Por Leandro Stein

O Estádio Santiago Bernabéu abrigou uma das partidas mais importantes de sua história justamente no Natal. Em 25 de dezembro de 1955, mais de 105 mil pessoas abarrotaram as arquibancadas para ver o esquadrão do Real Madrid jogar. Se um compromisso natalino é pouco usual no futebol, se torna ainda mais surpreendente que aquele confronto valia pela Copa dos Campeões. Os merengues recebiam o Partizan Belgrado, dono do título iugoslavo. E a vitória dos espanhóis por 4 a 0 abriu caminho à classificação para as semifinais, construindo o início da dinastia madridista na Europa. Afinal, não fosse o placar elástico daquela tarde em Madri, talvez a história da Champions fosse bastante diferente.

 

Aquela era a primeira edição da Champions. Não existiam datas fixas para os jogos, marcados a partir de um consenso entre os clubes. De início, a partida de ida em Madri deveria acontecer em 11 de dezembro. Contudo, os iugoslavos propuseram o confronto no Natal, algo incomum ao futebol espanhol. Apesar das festividades, a data parecia uma boa ao Real Madrid. O duelo ocorreria no domingo e, em tempos nos quais o estádio ainda não tinha refletores, o feriado poderia atrair uma multidão às arquibancadas. Assim, o então presidente Santiago Bernabéu aceitou a ideia e colheu os frutos. Pela primeira vez na Champions, o público superava os 100 mil pagantes. Um salto significativo em relação à estreia dos merengues em casa na competição. Nas oitavas de final, contra o Servette, pouco mais de 40 mil haviam assistido à goleada por 5 a 0 sobre os suíços.

Os atrativos ao público eram claros. O Real Madrid contava com um timaço, pronto a dominar a Europa. O técnico José Villalonga levava a campo estrelas do porte de Alfredo Di Stéfano, Paco Gento, Héctor Rial e Miguel Múñoz. Enquanto isso, existiam grandes expectativas para saber o que faria o Partizan. Em tempos nos quais a seleção iugoslava era uma das principais do continente, os alvinegros também possuíam seus craques – entre eles Branko Zebec, Stjepan Bobek e Milos Milutinovic. Além do mais, o contexto político da época provocava a curiosidade. O imaginário era alimentado pelos visitantes comunistas, que mediriam forças ante o representante franquista.

Em uma tarde ensolarada e com boa temperatura, o calor das arquibancadas animou ainda mais o duelo em Chamartín. Dono de uma equipe de bastante técnica, o Partizan dominou os primeiros minutos. Colocou o Real Madrid na roda e poderia ter construído a vitória naquele momento. O problema é que os dois gols anotados por Milos Milutinovic (irmão mais velho de Bora) foram anulados pela arbitragem. Assim, os merengues seguraram o baque, até imporem seu jogo de construções bem trabalhadas e capacidade para proteger a bola.

Aos 13 minutos, o Real Madrid saiu em vantagem graças a a um lance que contou com a participação de todos os seus homens de frente, até que Heliodoro Castaño chutasse quase sem ângulo. Nove minutos depois, o ponta ampliaria, numa bomba sem chances de defesa. Já aos 38, Gento assinalou o terceiro, batendo no canto. A velocidade dos merengues atordoou os visitantes. No segundo tempo, o Partizan até dominou a posse de bola, mas com dificuldades para furar a defesa espanhola. E, aos 25 minutos, Di Stéfano deixou o seu para aumentar a vantagem. Após uma rápida troca de passes de sua equipe, a Flecha Loira dominou de costas para o gol e girou para estufar as redes. A goleada se encerrava ali.

Curiosamente, o Real Madrid não foi o único gigante espanhol a entrar em campo no Natal de 1955. Na Catalunha, a primeira edição da Taça das Cidades com Feiras (precursora da atual Liga Europa) vivia sua abertura. O selecionado de Barcelona era composto por dez jogadores do Barça e por um do Espanyol. Encaravam o combinado de Copenhague. Ao final, a torcida em Les Corts pôde comemorar a goleada dos anfitriões. Os catalães atropelaram os visitantes por 6 a 2, com dois gols de Esteban Areta e dois de Justo Tejada, enquanto Ramón Villaverde e Ladislao Kubala também marcaram. A equipe espanhola terminaria com a taça da competição, encerrada somente em 1958.

Já o Real Madrid suaria frio no reencontro com o Partizan. A volta em Belgrado aconteceu em 29 de janeiro de 1956, sob rigoroso inverno. Cerca de 40 centímetros de neve cobriam o gramado em Belgrado, com os termômetros registrando dez graus negativos. Para não adiar o duelo, Santiago Bernabéu bateu boca com Di Stéfano e botou o seu time em campo. Era a primeira viagem de uma delegação espanhola à Cortina de Ferro, o que gerava entraves geopolíticos. Além disso, temia-se que o cancelamento pudesse afetar a reputação da incipiente Champions.

A derrota do Real Madrid por 3 a 0 é considerada um milagre, tamanho foi o domínio do Partizan. Milos Milutinovic, duas vezes, e Prvoslav Mihajlovic anotaram os gols dos alvinegros. Além disso, o goleiro Juanito Alonso acumulou grandes defesas – além de ver, segundo suas próprias palavras ao jornal El País, a bola bater nas traves nada menos que 12 vezes. “A história poderia ter sido escrita de outra maneira com uma derrota. Não teríamos sido os primeiros campeões, nem pentacampeões, nem colocado a primeira pedra para que o clube fosse eleito o melhor do século”, opinou Paco Gento, anos depois, ao AS. Depois deste jogo, o respeito pelos merengues ecoou na Europa. Começava-se a construir uma lenda. E o Natal faria parte deste cenário.


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