A Segunda Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945 e deixou um rastro de destruição por toda a Europa e por outras regiões do planeta, contou com a participação direta ou indireta de mais de 150 países, entre eles o Brasil. O conflito gerou inúmeras consequências em todos os setores, e obviamente atingiu o futebol. Campos foram destruídos, torneios foram paralisados e inúmeros jogadores e treinadores morreram, como vítimas civis ou no front de batalha. E na discreta e importante participação brasileira através da Força Expedicionária Brasileira, diversos jogadores, alguns importantes na história do nosso futebol, estiveram em solo europeu servindo ao exército.

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O Brasil demorou para entrar em guerra oficialmente. Sob o comando de Getúlio Vargas, o país se manteve neutro até 1942, e depois de se juntar aos Aliados, serviu inicialmente como base de apoio, e só em julho de 1944 que o primeiro contingente militar foi enviado para os campos de batalha em território europeu. A Força Expedicionária Brasileira enviou uma totalidade de mais de 25 mil soldados para a campanha italiana, incluindo vários jogadores profissionais: o atacante Perácio, tricampeão carioca com o Flamengo e que havia disputado a Copa de 38, o meia Geninho e o zagueiro Walter Fazzoni, ambos do Botafogo, o goleiro Bráulio, do Fluminense, o atacante Bidon, do Madureira, entre muitos outros.

O futebol foi um importante escape para militares de todas as nacionalidades. E não seria diferente para os brasileiros. Desde a chegada, sempre que possível, eram organizados treinos e jogos, principalmente entre os diversos quadros de militares brasileiros e contra combinados de soldados italianos ou ingleses. Além disso, em abril de 1945, a Guerra já caminhava para um desfecho favorável aos Aliados. Em 12 de abril de 1945, o jornal Sport Ilustrado, do Rio de Janeiro, publicou uma resenha sobre um jogo entre brasileiros da FEB contra um selecionado britânico, lotado na cidade de Florença. Os brasileiros venceram por 6 a 2 diante de um público de mais de dois mil oficiais e soldados. O time brasileiro foi formado por: Bráulio, Mato Grosso, Henrique Torquato “Dunga”, Labatut Silva (Dairla entrou no decorrer do jogo), Juvencio de Souza, Angelo Pesqueira, Walter Guimarães, Geninho, Bidon, Perácio e Walter Fazzoni. Bidon (quatro  vezes), Perácio e Walter Guimarães fizeram os gols da vitória.

Desta partida, se formou a equipe do 5º Exército, com brasileiros e ingleses, que disputaria o Campeonato do Mediterrâneo, uma competição entre diversos pelotões que serviam na região. Antes do torneio, foram disputados mais dois amistosos: em 21 de abril, contra o 1º Distrito, vitória por 2 a 1, com gols de Perácio e Walter Guimarães, e no dia 28, contra a Sub Área 60, e nova vitória foi conquistada, dessa vez por 5 a 3. Bidon (3 gols), Perácio e Walter Guimarães novamente foram os destaques. No mesmo dia, a cerca de 40 km de distância, Benito Mussolini era executado. Dois dias depois, Hitler cometeu suicídio em Berlim.

No Campeonato, com início em 2 de maio, em Arezzo, o 5º Exército venceu os ingleses do 2º Distrito por 4 a 0, com mais uma tripleta de Bidon e um gol de Geninho. Em 9 de maio, os alemães se renderam aos soviéticos, e em Ancona, Bidon e Geninho marcaram os gols brasileiros na semifinal, contra um time de ingleses que serviram na Grécia. O jogo terminou em 2 a 2, mesmo após trinta minutos de prorrogação. O jogo-desempate aconteceu no dia seguinte e o 5º Exército venceu por 4 a 1.

No dia 13 de maio, já após a rendição completa da Alemanha Nazista, a final do torneio foi disputada entre os brasileiros e ingleses do 5º Exército contra os britânicos do 3º Distrito. O jogo aconteceu no Stadio Comunale, o atual Artemio Franchi, em Florença, e teve a presença de aproximadamente 20 mil espectadores. Entre os soldados do 3º Distrito estava Bryn Jones, internacional galês e então jogador do Arsenal. O time dos brasileiros até abriu o placar com Geninho, mas sofreu a virada ainda no primeiro tempo e o placar de 2 a 1 para os britânicos permaneceu até o fim do jogo, ficando o título com os ingleses. Naquele momento, o placar era o que menos importava.

Os primeiros brasileiros a retornarem ao Brasil desembarcaram em 18 de julho no Rio de Janeiro, doze dias após o encerramento oficial da Força Expedicionária, decisão de Gaspar Dutra, então Ministro da Guerra do governo Getúlio Vargas. Com isso, os “pracinhas” voltaram ao país sem qualquer ação governamental de reintegração ou de assistência social, erro reparado apenas na Constituinte de 88, quando muitos soldados, inclusive muitos dos vice-campeões do Mediterrâneo, já não estavam mais entre nós.