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A Bundesliga já atravessou metade do caminho desde seu recomeço em maio. No último final de semana, a quinta rodada das nove que restavam foi disputada. A retomada não manteve a possível competitividade pelo título, com o Bayern de Munique sustentando a excelente fase vivida desde o início do ano e disparando rumo ao octacampeonato. Algumas tendências na tabela seguiram, com poucos clubes sofrendo uma reviravolta. E das grandes certezas confirmadas nestas semanas, talvez uma ainda maior que o domínio bávaro seja a draga do Schalke 04. A equipe de David Wagner conquistou um mísero ponto nos últimos cinco compromissos – e em empate pouco merecido contra o também cambaleante Union Berlim.

O Schalke representa um anticlímax tremendo nesta temporada. Existiam expectativas justificadas antes do início da campanha, especialmente pela contratação de David Wagner. O treinador vinha de um bom trabalho na Inglaterra, possuía uma mentalidade de jogo agressiva e tinha suas próprias raízes em Gelsenkirchen, campeão com o clube em seus tempos de jogador. Que os Azuis Reais não tenham feito muitas contratações, mantinham um elenco de razoável qualidade, para não passar aperto como na liga passada. E o início da empreitada parecia motivar certa empolgação, com a Champions League na mira.

Até o final do primeiro turno, o Schalke se manteve na briga pelas copas europeias. Alternou momentos no campeonato, mas chegou a emendar sequências consistentes e conquistou alguns bons resultados. A vitória por 3 a 1 sobre o RB Leipzig na Red Bull Arena foi o ponto alto da equipe, que chegou a ocupar a terceira posição no início de dezembro. O segundo turno até começou auspicioso, com uma vitória sobre o Borussia Mönchengladbach – que não recolocou os Azuis Reais no G-4, mas os preservava no pelotão de frente, abaixo do Borussia Dortmund apenas pelo saldo de gols. A esperança, todavia, não passou de uma doce ilusão.

A série ruim se iniciou com a goleada do Bayern por 5 a 0 na Allianz Arena. Desde então, o Schalke não sabe mais o que é vencer. A sequência negativa acumula 12 rodadas em jejum – igualando a pior série da história do clube na liga. Antes da pandemia, vieram alguns resultados péssimos, como o empate em casa com o lanterna Paderborn, ou os sopapos levados de Leipzig (5 a 0) e Colônia (3 a 0). A parada poderia oferecer um respiro e daria tempo para David Wagner retraçar a rota. Entretanto, os 4 a 0 para o Dortmund no clássico da retomada conservaram os Azuis Reais grogues. Foram presas fáceis a Augsburg, Fortuna Düsseldorf e Werder Bremen, todos ameaçados pelo rebaixamento. Roubar um pontinho do Union Berlim pareceu lucro. Foram 11 gols sofridos nestes cinco compromissos e só dois anotados.

A falta de torcida, que a muitos significa um prejuízo notável, ao Schalke 04 nem é tão problema assim. Sim, foram duas derrotas com as arquibancadas vazias nesta volta, mas não que o desempenho na Veltins Arena fosse tão bom antes, com os supracitados vexames contra RB Leipzig e Paderborn. Foram cinco triunfos nos 15 compromissos como mandantes nesta Bundesliga, até uma evolução em relação às míseras quatro vitórias em Gelsenkirchen no campeonato de 2018/19. Assim, a impaciência da torcida pesa mais contra que a favor.

Vale ponderar, por outro lado, que as lesões prejudicam o Schalke. Que o departamento médico não esteja tão cheio assim, os quatro lesionados do momento são importantes à equipe. Suat Serdar vinha tomando conta do meio-campo e manteve um nível de desempenho excelente durante o primeiro turno, também por sua contribuição ofensiva. Só volta em setembro. Amine Harit, por sua vez, era o toque de qualidade na armação e teve atuações decisivas em importantes vitórias. Machucou os ligamentos do joelho e nem sabe quando retorna. Somam-se a eles o zagueiro Benjamin Stambouli e o atacante Guido Burgstaller. Considerando que Harit e Serdar são as duas melhores peças ofensivas do elenco, principais responsáveis pelos gols, dá para entender um pouco o impacto.

Entretanto, dizer que o Schalke 04 vem tão mal por causa de apenas dois ou quatro jogadores parece um contrassenso. Não deveria ser assim, a um clube que sonhou com a Champions e deveria pelo menos arrancar um lugar na Liga Europa. É um sinal do apequenamento que os Azuis Reais vivem, entre a dificuldade para montar um time que amadureça, a perda de talentos a preços baixíssimos e a falta de jogadores mais rodados que agreguem experiência. O Schalke hoje em dia não passa de um clube médio na Alemanha e perde terreno, como ocorreu com Hamburgo ou Werder Bremen. É pouco a quem, dez anos atrás, estava numa semifinal de Champions. E, tendo em mente os exemplos próximos, a derrocada é perigosa.

A novela envolvendo o titular de seu gol é exemplar sobre os problemas vividos dentro do clube. Alexander Nübel foi barrado ao não voltar bem da parada de inverno, e também por sua polêmica assinatura com o Bayern para a próxima temporada. Sem o promissor goleiro, que perdeu a braçadeira de capitão, Markus Schubert tomou a posição. Porém, ainda mais jovem, o novo dono do posto falhou sucessivamente e não transmitiu confiança. Era preciso repensar e, então, Nübel voltou nas rodadas mais recentes.

David Wagner montou durante o primeiro turno uma equipe eficaz em sua proposta de jogo. O Schalke 04 costumava marcar agressivamente e atacar com verticalidade, buscando o gol sem precisar de muitos passes. Assim conquistou suas principais vitórias. Neste segundo turno, o sistema defensivo dos Azuis Reais ruiu. A zaga se mostra bastante vulnerável, mesmo contra os adversários mais fracos da tabela. Já são 26 tentos sofridos no returno, contra 21 no primeiro turno inteiro. Como se não bastasse, a produção ofensiva caiu drasticamente, com pouquíssimas ocasiões criadas e sem força nos contragolpes. Qualquer oponente se sente confiante ao controlar a posse de bola e partir para cima do time de Gelsenkirchen.

Quando foi contratado, David Wagner parecia um projeto de longo prazo do Schalke. Neste momento, há sérias interrogações se ele realmente poderá elevar as aspirações do clube, como se pretendia. Esta temporada já está praticamente perdida, ainda que sem riscos. A equipe ocupa a décima colocação, com 38 pontos, mais distante da zona de classificação à Liga Europa, mas ao menos sem temer o rebaixamento. A questão é pensar no quanto vale confiar no comandante para mais uma campanha, trabalhando com o mesmo elenco, sem muitas perspectivas de investimento. Quando se empolgou com Domenico Tedesco após um surpreendente vice-campeonato, o Schalke quebrou a cara e precisou recorrer a Huub Stevens para evitar o rebaixamento.

O reflexo da crise do Schalke, contudo, está longe de se limitar ao que acontece dentro de campo. A direção dos Azuis Reais acumula problemas nesta temporada, indo além de sua reconhecida má gestão do elenco e da falta de habilidade para renovar os contratos de seus principais jogadores. O presidente se envolveu em episódio lamentável de racismo fora do clube e a torcida protestou por sua saída, mas o restante da diretoria passou o pano e ele retornou ao cargo após um afastamento voluntário de algumas semanas. Clemens Tönnies, no comando dos Azuis Reais desde 2001, foi também um dos mais apressados em retomar a Bundesliga durante a pandemia.

Embora o Schalke seja um dos clubes mais ricos do mundo, o cenário era preocupante a curto prazo, se o futebol não fosse reiniciado em maio. Os Azuis Reais ocupam o 15° lugar no relatório Football Money League, da Deloitte, ganhando até a posição da Roma na última temporada. A força econômica da Alemanha e a vasta torcida permitem que a agremiação possua um significativo faturamento comercial. Ainda assim, a dependência dos direitos de transmissão é maior que a média, correspondendo a 50% da receita. Com a torneira das bilheterias fechada, a menor possibilidade de patrocínios e o risco de perder de uma parcela da televisão, somando tudo isso às dívidas na casa dos €100 milhões, os dirigentes do clube previam um impacto grande nas contas e queriam logo a volta da Bundesliga.

Até certa mesquinharia prevaleceu no Schalke 04. Com os portões fechados nestas nove rodadas finais, os clubes tinham por obrigação devolver o dinheiro dos ingressos relativos aos jogos em casa no período, aos torcedores que compraram o carnê de temporada. Alguns times pela Europa até fizeram solicitações com apelo emocional para que a torcida não pedisse a devolução e, assim, diminuísse o rombo nos cofres. O Schalke não. O clube exigiu uma justificativa (!) para devolver o dinheiro às pessoas, inclusive para torcedores que já tinham adquirido bilhetes por antecipação até 2022. Obviamente, pegou mal e a diretoria voltou atrás, num pedido de desculpas que não conteve o estrago já feito.

Um sinal de mudanças mais profundas veio nesta semana, com a saída de Peter Peters, principal encarregado pelas finanças do Schalke. O executivo foi um dos grandes responsáveis pela construção da Veltins Arena e possui muita influência nos bastidores do futebol alemão, ocupando o posto de vice-presidente tanto na liga quanto na federação. Porém, Peters vinha sendo criticado pela instabilidade financeira do clube, com déficit estimado de €26 milhões ao final desta temporada. Sua saída não surpreende e indica uma mudança de postura na agremiação, por mais que ele siga em postos menores da diretoria. Tönnies já havia trazido novos nomes ao alto escalão nos últimos meses.

O Schalke 04 tende a apertar os cintos na próxima janela de transferência e confiar na manutenção de seus jogadores. O elenco é jovem e, dentro desta perspectiva, até se compreende a oscilação recente. Há bons nomes para crescer, como Ozan Kabak, Suat Serdar, Weston McKennie, Amine Harit, Benito Raman e Rabbi Matondo, enquanto outros podem ajudar mais se mantiverem saudáveis – a exemplo de Salif Sané. Resta saber se David Wagner será mesmo o cara para encabeçar essa maturação. Especulações envolvendo o antigo ídolo Raúl, atualmente à frente do Real Madrid Castilla, surgiram na imprensa alemã. As últimas rodadas podem não significar tanto ao clube na tabela, mas novas pancadas refletirão nos próximos passos para 2020/21. E a sequência contra Leverkusen, Frankfurt, Wolfsburg e Freiburg não indica facilidades.