A Vila Belmiro recebeu nesta quarta um dos jogos mais intensos do futebol brasileiro em 2017. Que o Flamengo tivesse construído boa vantagem no Rio de Janeiro, com a vitória por 2 a 0 na primeira partida, não era por isso que o confronto pelas quartas de final da Copa do Brasil estava resolvido. Longe disso. E o Santos não deixou de lutar por um instante sequer pela virada, mesmo que os rubro-negros tenham ficado em vantagem por duas vezes no placar. Nem sempre o espírito aguerrido é premiado. Melhor para o Fla, que mesmo sem jogar um futebol brilhante, se agarrou à derrota por 4 a 2, já suficiente para assegurar a vaga nas semifinais, nas quais enfrentará o Botafogo. Ainda que a arbitragem tenha foco na noite, prevaleceu o futebol, em confronto de suor e sangue na Baixada Santista.

Precisando do resultado rapidamente, o Santos preferiu não esperar para ir ao ataque. Logo na saída de bola, tentou uma jogada ensaiada para surpreender o Flamengo. Encontrava, no entanto, um adversário que fechava bem o seu meio de campo, saindo rapidamente para o ataque. E esta foi a chave para que o Fla abrisse o placar logo nos primeiros minutos. Depois de duas tentativas, os rubro-negros contaram com o esforço e o brilhantismo de Diego, que roubou a bola na intermediária e já lançou Orlando Berrío. O colombiano, em boa fase nos últimos jogos, ficou na cara de Vanderlei e não perdoou, balançando as redes aos nove minutos. Na comemoração, dedicou o tento a Ederson, homenageado na camisa e com uma faixa na entrada em campo, após descobrir um tumor nos testículos.

A vantagem de três gols no placar agregado deixava o Flamengo mais tranquilo no duelo. E obrigava o Santos a se postar mais urgentemente ao ataque. A pressão do Peixe aumentou a partir dos 15 minutos, não economizando nos chutes e nas bolas alçadas à área. A defesa flamenguista não transmitia tanta segurança, mas conseguia se segurar. Enquanto isso, o ataque visitante também dava as suas escapadas, mas sem tanta competência. Até que o brilhantismo individual de Bruno Henrique abrisse de vez a partida. O ponta partiu para cima da marcação e, com espaço, soltou o balaço de fora da área. A bola foi certeira rumo ao ângulo de Alex Muralha, que substituiu Thiago desta vez, e não teve qualquer chance de defesa. Aos 32 minutos, os santistas voltavam ao páreo.

O Flamengo tentou responder imediatamente. Voltou a incomodar mais no campo de ataque e teve um gol anulado por falta de Guerrero sobre a defesa, em lance que também contou com um milagre de Vanderlei em cabeçada de Réver. De qualquer maneira, a bronca com a arbitragem seria maior do outro lado. O árbitro Leandro Vuaden assinalou pênalti de Réver em Bruno Henrique, mas voltou atrás cerca de um minuto depois, indicando que o zagueiro tocou na bola antes. De fato, o juiz acertou nesta segunda interpretação. O que deixa uma série de interrogações é a maneira como ele chegou a isso, avisado pelo quarto árbitro sobre a jogada. O Santos não baixou a guarda e terminou melhor a primeira etapa, mas saiu aos vestiários na bronca.

Já no segundo tempo, o Flamengo voltou a dar um passo à frente, graças a outro velho conhecido que vive momento excelente. Se as contratações pedem espaço na Gávea, Everton faz por merecer a confiança para seguir entre os titulares. O ponta fez ótima jogada individual, passando pela marcação e dando passe na medida para Guerrero. De frente para Vanderlei, o centroavante não perdoou. Com apenas um minuto da etapa complementar, os rubro-negros obrigavam o Santos a buscar quatro gols para concretizar a classificação.

Quando muitos times largariam mão do jogo, o Peixe cresceu. E a reação imediata contribuiu para que a emoção tomasse a atmosfera da Vila Belmiro. A defesa do Flamengo contribuiu negativamente pela enorme permissividade, sobretudo Rafael Vaz e Alex Muralha. De qualquer maneira, isso não tira os méritos dos alvinegros em buscarem a virada antes dos 10 minutos. Primeiro, após escanteio cedido por Vaz, Copete apareceu livre para cabecear firme ao gol, em tiro que Muralha não segurou. Logo na sequência, a bola pipocou dentro da área dos cariocas e Victor Ferraz arrematou com firmeza para dentro.

A partir de então, a tensão exalava entre os dois times. Os jogadores se estranhavam e entravam forte, enquanto muitos erros na construção das jogadas aconteciam. O Santos pressionava, mas esbarrava na marcação pesada do Flamengo. Já do outro lado, os rubro-negros até descolavam bons contra-ataques, mas falhavam na hora do passe final para concluir. Levir Culpi tentou melhorar a criação com suas alterações. Já Zé Ricardo trocava as armas ofensivas nas pontas por operários que ajudassem mais a marcação. Nada que tenha surtido tanto efeito.

O terceiro gol do Flamengo só não saiu por causa de Vanderlei, aos 46. Em cobrança de falta perigosíssima na entrada da área, Diego bateu colocado, mas o goleiro voou para buscar. Assinalou, mais uma vez, a excepcional fase técnica que vive. Já do outro lado, Alex Muralha não se ajudou. Jean Mota levantou a bola na área e, em sua falha mais constante, o arqueiro saiu socando o vento. Copete não tinha nada a ver com isso, cabeceou para dentro. Neste momento, o Santos precisava de apenas mais um gol para se classificar. Faltava tempo, com menos de um minuto restando nos acréscimos. O jeito seria se conformar com a eliminação.

Ao apito final, um misto de satisfação pela atuação, mas lamento pelo placar agregado, tomou a Vila Belmiro. Independentemente do questionamento ao árbitro, o Santos não se prendeu a isso e poderia muito bem ter buscado a classificação na bola. Faltaram detalhes, especialmente pela falta de contundência quando mais pressionou no segundo tempo. Sai de cabeça erguida. O Flamengo, por sua vez, tem méritos na conquista da classificação. Não se escondeu do jogo fora de casa e se empenhou bastante, apesar das falhas técnicas que se repetiram. O poder de fogo no começo de cada tempo acabou sendo determinante para o sucesso. Os rubro-negros avançam na competição que melhor souberam jogar nos últimos anos, buscando um título que referende o momento e o investimento.