Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho são unanimidades quando se faz a associação entre “craque brasileiro” e Barcelona. Em períodos diferentes, cada qual a sua maneira, marcaram época no Camp Nou. Contratado cheio de pompas, Neymar é colocado como herdeiro do quarteto, embora rejeite o rótulo e diga que pretenda fazer sua própria história no clube. A associação, no entanto, torna-se natural diante do desempenho dos “quatro erres” na Catalunha e na seleção brasileira.

Em comum, o quarteto ofensivo já tinha a experiência de ao menos uma temporada na Europa. Ronaldo e Romário estouraram no PSV, Ronaldinho progrediu no Paris Saint-Germain e Rivaldo fez escala no Deportivo de La Coruña. Enquanto isso, Neymar fará a ponte diretamente do futebol brasileiro, algo que nenhum deles experimentou antes de se firmar com a camisa blaugrana.

O negócio de € 57 milhões, valor confirmado pelos dirigentes do Barça, é o segundo maior já feito pelo clube e o oitavo maior da história do futebol. Um número que traduz as expectativas sobre o ex-santista. As condições para tomar a posição entre os titulares é favorável, diante da instabilidade de Alexis Sánchez, David Villa e Pedro na disputa por um lugar nas pontas da equipe. Contudo, as cobranças também prometem ser grandes.

Neymar chega ao Barça sem desfrutar do ápice de sua carreira, vivido principalmente nos meses seguintes à conquista da Copa Libertadores de 2011. Suas últimas atuações pela seleção contra adversários de peso foram abaixo da média e deixam uma interrogação sobre como lidará com a marcação na Europa. Em contrapartida, o atacante também pode se beneficiar com a transferência, dividindo responsabilidades com outros jogadores acima da média e ganhando a experiência necessária para fazer uma Copa em alto nível. Para tanto, terá que passar por um caminho que nem sempre significou sucesso no clube.

A conexão América do Sul – Camp Nou

evaristo barceloan

O histórico dos jogadores que saíram da América Latina e pintaram no elenco principal do Barcelona não é dos mais animadores. A partir de 1928, quando o Campeonato Espanhol foi criado, 21 contratados atravessaram o Atlântico antes de chegar a Barcelona – sem contar reforços da base, como Lionel Messi e Thiago Motta; que tiveram passagens anteriores pela Europa, como Juan Pablo Sorín; ou que sequer estrearam na Liga, como Keirrison.

Porém, poucos são os que tiveram carreira duradoura na Catalunha. Dos 21 jogadores importados, só sete fizeram 50 ou mais partidas por La Liga: Ramón Alberto Villaverde, Evaristo Macedo (foto), Eulogio Martínez, Hugo Sotil, Javier Saviola, Giovanni e Roberto Bonano. Os três primeiros, ainda na década de 1950, são os únicos que passaram de 100 partidas, ao lado de Javier Saviola, e foram nomes importantes no time que concorreu pelo domínio doméstico com o Real Madrid de Alfredo Di Stéfano.

Embora apresente razoável média de 0,39 gols por jogo na competição, não dá para dizer que Saviola foi um sucesso no clube. Revelação do River Plate e das seleções de base, o argentino foi contratado por € 36 milhões e, três temporadas depois, seria emprestado ao Monaco. Dos mais recentes, Giovanni também nunca cumpriu o que prometia e foi repassado ao Olympiacos três anos depois, enquanto Roberto Bonano foi mais um da série de goleiros não satisfizeram os culés entre a saída de Andoni Zubizarreta e a ascensão de Victor Valdés.

Entre os 14 nomes com 50 partidas ou menos, o único que pode ser realmente considerado um ídolo da torcida é Diego Maradona. O camisa 10 não conquistou tantos títulos com o clube e permaneceu por apenas duas temporadas, mas ficou marcado pelas boas atuações. Entretanto, os lances de genialidade se repetiram tanto quanto os problemas de indisciplina. E a agressão a Miguel Ángel Sola, do Athletic Bilbao, acelerou sua transferência ao Napoli.

Já as frustrações é encabeçada por Roberto Dinamite, que perdeu espaço com a troca no comando técnico e disputou apenas oito partidas por La Liga, com dois gols. Juan Román Riquelme não agradou Louis van Gaal e, improvisado em algumas ocasiões, não durou mais do que 30 jogos. Geovanni chegou por estrondosos € 21 milhões e não foi nada além de um erro de avaliação. Romerito, Luis Cubilla e Marinho Peres receberam raras oportunidades, enquanto Henrique e Keirrison não entraram em campo.

O preço pago pelo futebol de Neymar deve garantir que ele cumpra ao menos metade de seu contrato de cinco anos – algo que permitiria 50 partidas com certa facilidade. Resta esperar para ver se como será o desenvolvimento inicial do prodígio brasileiro, que será fundamental para aproximá-lo de Evaristo ou de Saviola.

Os jogadores da América do Sul contratados pelo Barça neste século:

2013/14 – Neymar – Santos-BRA – € 57 milhões
2009/10 – Keirrison – Palmeiras-BRA – € 14 milhões – 0 jogos, 0 gols por La Liga
2008/09 – Henrique – Palmeiras-BRA – € 8 milhões – 0 jogos, 0 gols por La Liga
2004/05 – Maxi López – River Plate-ARG – € 6,5 milhões – 14 jogos, 0 gols por La Liga
2002/03 – Juan Román Riquelme – Boca Juniors-ARG – € 10 milhões – 30 jogos, 3 gols por La Liga
2001/02 – Javier Saviola – River Plate-ARG – € 35,9 milhões – 123 jogos, 49 gols por La Liga
2001/02 – Geovanni – Cruzeiro-BRA –  € 21 milhões – 26 jogos, 1 gol por La Liga
2001/02 – Fabio Rochemback – Internacional-BRA – € 9 milhões – 45 jogos, 3 gols por La Liga
2001/02 – Roberto Bonano – River Plate-ARG – € 1,2 milhões – 51 jogos por La Liga