A Fifa anunciou nesta quarta-feira uma punição à federação de Hong Kong por causa da postura de seus torcedores. A repreensão ao território semiautônomo, porém, não acontece por atos discriminatórios ou por qualquer outro tipo de violência. Os honcongueses foram multados em US$15 mil por protestarem contra a China. O hino chinês costuma ser tocado antes das partidas internacionais da seleção de Hong Kong e as vaias à canção acabaram enquadradas pela Fifa.

Segundo a entidade, a punição a Hong Kong se deu pelos “distúrbios durante o hino nacional e o uso de objetos para transmitir uma mensagem que não é apropriada a um evento esportivo”. Durante a última Data Fifa, antes da partida contra o Irã pelas Eliminatórias da Copa de 2022, os torcedores honcongueses vaiaram o hino chinês, cantaram outra canção-símbolo local no momento e viraram às costas ao campo enquanto a execução acontecia. Além disso, realizaram outras manifestações contra o governo local e a administração chinesa.

As ações durante o jogo de Hong Kong se inserem num contexto muito maior, diante das revoltas da população do território contra propostas de seu governo. Desde março, os honcongueses se posicionam contra a lei de extradição, que prejudicaria a autonomia local e aumentaria a interferência chinesa. Durante o mês de junho, o projeto foi suspenso pelo governo de Hong Kong, mas os protestos massivos nas ruas seguiriam em frente – exigindo a retirada completa da proposta, além de outras reivindicações. A repressão da polícia intensificou as ações populares, pedindo também a libertação dos presos.

Além do mais, o contexto atual faz parte de um histórico de relações tensas entre a população de Hong Kong e a China. Desde que a cidade retornou à administração chinesa, em 1997, após um século e meio de soberania junto aos britânicos, os honcongueses questionam a maneira como o sistema econômico influencia seu território. Há também uma série de incidentes ocorridos ao longo das duas últimas décadas e atritos que se notam entre as duas populações. Por uma sensação de ameaça, o nacionalismo honconguês ganha força.

As vaias ao hino chinês sequer são inéditas. Em 2014, antes do duelo pelas Eliminatórias da Copa de 2018, a própria federação chinesa produziu um pôster considerado discriminatório pela seleção de Hong Kong. Na ocasião, as manifestações dos honcongueses contra a canção chinesa geraram duas multas da Fifa. A população do território também declarava seu sentimento de pertencimento, gritando que “Hong Kong não é China”. Vaias posteriores dos honcongueses ao hino chinês em partidas contra outras seleções fizeram com que o governo da China criasse uma lei ameaçando de prisão aqueles que desrespeitassem a música. Nada que iniba os protestos.

A postura da Fifa nesta semana soa sob uma pretensa “neutralidade” do futebol diante da política – uma visão totalmente alheia à realidade. Na rodada de multas desta quarta-feira, a entidade também puniu a violência de torcedores da Indonésia e da Malásia, além dos distúrbios ocorridos na Serra Leoa após a eliminação para a Libéria nas Eliminatórias.