Parma e Spal começaram sua partida no domingo (8) com 75 minutos de atraso, com os jogadores aguardando nos vestiários à espera de notícias sobre a suspensão ou não do futebol italiano diante do surto de coronavírus que lançou a Itália em quarentena na madrugada de sábado para domingo. E, à medida que o tempo passa, em vez de esclarecimentos, a Serie A se vê cercada de cada vez mais incertezas e brigas políticas. Afinal, a temporada irá parar?

Este foi o pedido de Damiano Tommasi, presidente da Associação Italiana de Jogadores. O dirigente publicou em suas redes sociais mensagens em que deixava aberta a possibilidade de uma greve por parte dos atletas. “Parar o futebol é a coisa mais útil que podemos fazer por nosso país agora. (…) Vamos parar a liga! Precisamos de mais alguma coisa? Parem o futebol! #saúdevemprimeiro.”

Vincenzo Spadafora, ministro do Esporte da Itália, reforçou o coro de Tommasi em sua conta oficial no Facebook, pedindo à Federação Italiana (FIGC) que considere parar imediatamente a Serie A.

“Não faz sentido neste momento, enquanto pedimos enormes sacrifícios aos cidadãos para impedir a propagação do contágio, colocar em risco a saúde dos jogadores, árbitros, técnicos e torcedores, que certamente se reunirão para ver os jogos, só para não suspender temporariamente o futebol e afetar os interesses que giram em torno dele”, dizia parte do comunicado de Spadafora.

Gabriele Gravina, presidente da FIGC, reconheceu, em entrevista à Rai Sport, que, “se um jogador da Serie A testasse positivo para o coronavírus, não descartaríamos suspender toda a temporada. Temos que ser realistas. Nessas circunstâncias, teríamos que adotar todos os procedimentos necessários para garantir, em primeiro lugar, a saúde de nossos atletas, e só então considerar o impacto que isso pode ter na competição esportiva”.

Da madrugada de sábado para domingo, a Itália, que já via sua vida social afetada por medidas para conter a propagação do coronavírus, anunciou decreto assinado pelo primeiro-ministro Giuseppe Conte que determinava a quarentena de toda a região da Lombardia, onde fica a capital econômica do país, Milão, além de 14 outras províncias, limitando o deslocamento de mais de 16 milhões de pessoas, ou um quarto da população nacional. Além disso, teatros, cinemas e museus tiveram fechamento ordenado em todo o país

Foi em meio a este cenário da noite para o dia que, na primeira partida de domingo, enquanto os jogadores de Parma e Spal preparavam-se para entrar em campo, o árbitro pediu que todos retornassem ao vestiário, diante de um pedido do ministro do Esporte da Itália pela suspensão da temporada. Por fim, 75 minutos depois do previsto, o confronto teve início, e todas as partidas do dia seguiram conforme programado: realizadas, mas de portões fechados.

Mais tarde, o ministro Spadafora criticou a realização dos jogos, chamando a liga organizadora da competição de “irresponsável”, assim como seu presidente, Paolo Dal Pino.

“O campeonato não parou hoje devido a um gesto irresponsável da Lega Serie A e do presidente Dal Pino. É verdade que o decreto da noite passada contém a medida dos portões fechados, mas também é verdade que estamos convidando o mundo do futebol, assim como os italianos em geral, a tomar decisões. Há um interesse econômico por trás do esporte, com a Série A em particular se sentindo imune ao vírus e especialmente aos sacrifícios que o país inteiro está fazendo. Eu tentei até o fim não pedir a suspensão do campeonato, eu sei como o jogo de domingo é importante em nível social, mas agora não podemos mais nos dar a esse luxo. Recebi ofensas, insultos e ameaças por isso, mas o que importa é a saúde pública”, afirmou o ministro.

Em declarações repercutidas pela Gazzetta dello Sport, Dal Pino, presidente da Lega Serie A, respondeu às críticas do ministro, afirmando que suas declarações eram “erradas em substância e conteúdo”.

“O ministro ignora as regras e recusa a responsabilidade pelo seu papel. Em vez de fazer demagogia, seja coerente com suas próprias ações governamentais e, se necessário, emita um decreto assumindo a responsabilidade que está passando para os outros”, disparou Dal Pino.

Por ora, a determinação oficial do governo é de que todos os eventos esportivos aconteçam com portões fechados até o dia 3 de abril, mas uma reunião deve acontecer nesta terça-feira (10) para se discutir a possibilidade de suspensão do campeonato.

Em meio a esse fogo cruzado, os jogadores esperam a definição, preocupados com sua saúde. Quem expressou de maneira mais vocal sua posição foi Mario Balotelli. O atacante deverá estar em campo nesta segunda-feira (9), com o Brescia enfrentando o Sassuolo justamente em uma das regiões mais afetadas, da Emília-Romanha.

“Amo futebol mais do que vocês… mas jogar significa viajar de ônibus, trem, avião, dormir em um hotel, ou seja, entrar em contato com outras pessoas fora do seu ambiente de trabalho. (…) Eu certamente não quero que minha mãe, com quem como quase todos os dias, pegue algo de mim. Ela não tem a minha idade e, por mais que eu ame o futebol (ao qual devo tudo), não vou arriscar vê-la doente. (…) E (tudo isso) por quê? Para divertir alguém? Ou para não perder dinheiro? Vamos lá, suspenda. Não brinque com a saúde”, publicou o jogador no Instagram.

A Itália viu seu número de vítimas fatais do coronavírus disparar em questão de apenas um dia, com um recorde de 133 mortos em 24 horas, elevando o número total a 366. O país é, depois da China, berço do novo coronavírus, o mais afetado com o surto, contabilizando 7.375 infectados.