O Flamengo quase não entrou em campo nesta terça-feira. Numa Libertadores em que as autoridades relativizam a pandemia, em diferentes esferas, os sete testes positivos para COVID-19 entre jogadores rubro-negros não seriam suficientes para adiar o embate contra o Barcelona de Guayaquil – embora isso tenha ficado a ponto de acontecer, apesar dos desmentidos e do jogo de bastidores. Mesmo com as ausências, o Fla entrou em campo com uma equipe suficientemente forte. E, depois de um bom primeiro tempo, sofreu para segurar a vitória, mas voltou para casa com o importante triunfo por 2 a 1 no Estádio Monumental Isidro Romero Carbo. Dentro de um futebol que deixa margem ao questionamento se deveria estar acontecendo, e que acaba encoberto pelos imbróglios extracampo, os flamenguistas ao menos reduzem a pressão após a acachapante goleada sofrida ante o Independiente del Valle.

A vitória do Flamengo em Guayaquil foi antecedida por um dos maiores circos recentes da Conmebol. O recomeço da Libertadores sem um protocolo bem definido pela confederação e com a pandemia afetando de maneira distinta as várias regiões do continente deixava uma porta escancarada aos problemas. E eles ocorreram com os rubro-negros no Equador. Sete jogadores do elenco, mais dois membros da comissão técnica, testaram positivo para a COVID-19. O entrave era óbvio, assim como a sugestão de que as medidas protetivas vinham sendo insuficientes.

A posição da Conmebol sempre foi a de levar o torneio em frente, independentemente dos riscos. A entidade aumentou o número de inscritos no torneio para 50 jogadores e não pretendia abrir precedentes para que os jogos fossem adiados. Se não houvesse o mínimo de sete atletas disponíveis, só então seria determinado o W.O. – sem planos a remarcações. Os dirigentes preferiram rodar máquina e manter o seu negócio. A questão sanitária, todavia, era uma pertinente preocupação das autoridades em Guayaquil – ainda mais numa região que teve altos índices de contaminados pela COVID-19 há algumas semanas. Em certo momento desta terça-feira, a posição era a de adiar o jogo e evitar os riscos, contrariando a Conmebol.

Funcionários da prefeitura de Guayaquil informaram no hotel do Flamengo que o Estádio Monumental estaria interditado. O impasse perdurou e os rubro-negros pareciam preparados a voltar ao Brasil. Caso o local não estivesse disponível, o regulamento da Libertadores abria a possibilidade até mesmo para o W.O. do Barcelona. No fim das contas, segundo informações do jornalista Marcel Rizzo, a Conmebol interveio e entrou em contato com o governo do Equador, forçando que a bola rolasse. Garantiu que os jogadores infectados estariam isolados e que os protocolos seriam cumpridos – mesmo que isso não excluísse totalmente os riscos.

O Barcelona recebeu a notificação das autoridades, inclusive do Ministério da Saúde, para que o jogo fosse realizado. O clube informou que em nenhum momento houve uma ordem para que o Estádio Monumental fosse interditado e a própria prefeitura desmentiu o ocorrido. Assim, no meio de tanto ruído e de relativização da questão, o duelo aconteceria no horário marcado em Guayaquil. O Flamengo, sem sete jogadores com COVID-19, outros três lesionados e um suspenso, também preferiu não escalar os atletas que chegaram nesta tarde no Equador, trazidos às pressas em voo que cheio de percalços. Mas, apesar dos desfalques, a escalação de Domènec Torrent estava recheada de estrelas.

Apenas a improvisação de Thuler na lateral direita parecia ser realmente uma preocupação. O Flamengo escalou um meio-campo de mais pegada, com William Arão, Thiago Maia e Gérson – que ganhava mais liberdade para apoiar o ataque. Everton Ribeiro e Arrascaeta eram pontas que centralizavam para construir o jogo, enquanto Pedro facilitava por sua mobilidade na frente.

Barcelona x Flamengo (Fonte: Soccerway)

Assim, o Flamengo precisou de minutos para apresentar um futebol mais consistente do que o visto na última semana, na goleada sofrida contra o Independiente del Valle, e construir o caminho à vitória. Aos cinco, o placar estava aberto. Gérson avançou pela esquerda e deixou dois marcadores comendo poeira. O meio-campista deu o passe cruzado e encontrou Pedro livre na área. O centroavante dominou e bateu na saída do goleiro, garantindo tranquilidade aos rubro-negros. Já não tinham mais motivos para se sentirem tão pressionados.

O Barcelona chegou a dar uma cabeçada perigosa pouco depois, mas o Flamengo tocava a bola com muita qualidade e precisão. O time funcionava do meio para frente, com movimentação, e as chances surgiam contra uma defesa fragilizada. Arrascaeta e Everton Ribeiro chegaram a parar no goleiro Javier Burrai, até que os dois construíssem em conjunto o segundo tento do Fla, aos 26. Depois do pivô de Pedro, Everton partiu sozinho pela direita e cruzou a Arrascaeta, que dominou e fuzilou diante do arqueiro. Prêmio ao uruguaio, que dava show em suas jogadas de efeito.

A fluidez do Flamengo impressionava, numa atuação em que os jogadores pouco erravam, mesmo que não finalizassem aos montes. O controle do jogo é que provava a superioridade dos rubro-negros, sem que o Barcelona conseguisse se aproximar da área de César. Somente por volta dos 40 minutos é que os equatorianos se soltaram mais e incomodaram no ataque. Michael Arroyo finalizou com perigo para fora e a primeira defesa de César ocorreria em chute cruzado de Byron Castillo. Cristian Colmán também isolou uma bola livre dentro da área, em contra-ataque. Mas a impressão era de que, se o Fla tivesse mais velocidade para atacar as costas da zaga amarela, poderia provocar um estrago maior.

O jogo mudou de figura durante o segundo tempo. O Barcelona descontou logo aos três minutos, numa desatenção do Flamengo. Após bola longa, ficaram dois do ataque contra dois defensores. Colmán atraiu os marcadores e rolou para Leandro Martínez definir. Os rubro-negros tentaram responder com alguns lances travados, com direito a uma ótima defesa de Burrai em chute de Pedro, mas cairiam de rendimento durante o segundo tempo. O time se mostrava menos organizado e mais cansado. Não conseguia segurar a bola e os Canários vinham com ímpeto. Não havia proteção na cabeça de área e os equatorianos arriscavam sem medo, mas também sem precisão.

A grande chance de empate do Barcelona veio aos 16. Num lance brigado, Colmán recebeu com enorme liberdade dentro da área, mas se enroscou com a bola, mesmo com o goleiro César já batido. O atacante finalizou fraco e, na pequena área, Rodrigo Caio conseguiu afastar. Os rubro-negros viviam de espasmos e tinham dificuldades para esfriar a partida. A sorte é que seu adversário era fraco, sem grande qualidade para tramar as jogadas. A bola queimava entre os equatorianos e, quando Castillo tentou bater cruzado, César defendeu.

Com cãibras, Pedro precisou ser substituído e o Flamengo perdeu força no ataque com Lincoln. Não era uma boa atuação defensiva dos rubro-negros, mas os espaços não eram devidamente aproveitados pelo Barcelona. O jogo era bastante tenso, considerando a maneira como os dois times atuavam no limite do deslize. E, na base da qualidade individual, quase deu para o Fla matar o jogo aos 41 minutos. Em mais um bom lance de Gérson, Arrascaeta buscaria a brecha na área, mas terminou desarmado. Seria o último suspiro do Fla, antes do final sufocante em que o Barcelona muito tentou, mas não passaria de um chute para fora de Adonis Preciado.

O Flamengo conquista uma vitória essencial para sua classificação na Libertadores. Dadas as circunstâncias, apesar dos temores no segundo tempo, foi um bom resultado. Os rubro-negros fizeram 30 minutos muito ligados e isso bastou para encaminhar a vitória. Pedro se destaca pela participação em ambos os gols, mas Arrascaeta e Gérson também merecem elogios pelo que fizeram. O time se iguala aos nove pontos do Independiente del Valle, enquanto o Barcelona acaba eliminado, ainda sem pontuar nesta Libertadores.

Resta saber o que será do Flamengo na sequência de seus compromissos. O desgaste é óbvio e há desfalques importantes para a volta no Brasileirão. Não à toa, surge a informação de que o clube pediu o adiamento do jogo contra o Palmeiras – num privilégio que nem todos os concorrentes tiveram, embora a CBF tenha dado o precedente com o Goiás x São Paulo da primeira rodada. O entrave extracampo seguirá e todos correm risco de perder – inclusive a saúde de quem estará exposto. Num momento em que os dirigentes sequer conseguem cuidar dos atletas, ainda forçam a barra para reabrir as arquibancadas. E os números do coronavírus permanecem sem controle.