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Durante muito tempo, ninguém acreditou que aconteceria. Parecia impossível, uma miragem, uma lenda. Mas o futebol inglês finalmente aceitou que precisa parar um pouquinho para respirar no meio da sua temporada. Estamos em meio à tão aclamada pausa de inverno da Premier League, que, na verdade, é uma semi-pausa, com uma rodada desmembrada entre dois fins de semana porque ninguém quer saber o que acontecerá se os ingleses não tiverem um jogo para passar na televisão.

De qualquer forma, os 20 clubes da elite inglesa terão duas semanas de descanso para recuperar as energias e se preparar para o restante da temporada. As férias vieram logo após a 25ª rodada, o que significa que resta aproximadamente um terço de Premier League e, embora o título esteja praticamente definido, ainda há muito em jogo, inclusive para o Liverpool, pensando nos livros de história.

Em um momento que os times se permitem respirar um pouquinho, nós fazemos o mesmo e aproveitamos a pausa de inverno para destacar sete histórias para serem acompanhadas até 17 de maio, quando termina a Premier League 2019/20.

O Liverpool será campeão invicto?

Wijnaldum e Oxlade-Chamberlain rindo à toa (Foto: Getty Images)

A espera terminará. A não ser que uma catástrofe de proporções bíblicas aconteça, o Liverpool será campeão inglês pela primeira vez desde 1990. O que ainda está em aberto é em qual lugar na história este time de Jürgen Klopp ficará. Alguns recordes são acessíveis. Por exemplo, faltam apenas 28 pontos em 39 possíveis para passar os 100 pontos do Manchester City. Oito vitórias em 13 rodadas são suficientes para superar os 32 triunfos daquela equipe de Guardiola, e, caso os Reds ganhem as próximas três partidas, contra Norwich, West Ham e Watford, chegarão a 19 vitórias seguidas, uma a mais do que a maior sequência registrada na liga inglesa – também pelos Citizens do careca catalão.

O maior feito seria o título invicto. Apenas o Preston North End, em uma tabela reduzida de 22 rodadas no século 19, e o Arsenal de Arsène Wenger conseguiram. O desafio aqui é um pouco maior porque o Liverpool ainda tem jogos difíceis pela frente, como o dérbi contra o ascendente Everton no Goodison Park, o próprio Manchester City fora de casa, o Arsenal e o Chelsea, e segue vivo em outras duas competições. Dependerá muito da motivação dos jogadores para fazer história e, principalmente, das escalações que Klopp escolherá uma vez que o título estiver garantido.

Vale lembrar que o imbatível Arsenal foi eliminado da Champions League e da Copa da Inglaterra em um intervalo de quatro dias no começo de abril de 2004 e pode se concentrar exclusivamente na campanha invicta nas oito rodadas finais daquela Premier League – e fechou o feito com quatro empates e quatro vitórias.

Eles precisam mostrar serviço

Lampard e Mourinho, estágios diferentes da carreira, mesmos objetivos (Foto: Getty Images)

O Big Six está encrencado. Para começar, metade dele não está nem entre os quatro primeiros neste momento e, entre os que estão, o Chelsea parece tremendamente disposto a não continuar por lá. Em comum entre os Blues, o Tottenham, o Manchester United e o Arsenal é que todos são comandados por treinadores que precisam destas últimas 13 rodadas para se firmar e garantir seus empregos para a próxima temporada, e o resultado concreto desse processo seria uma vaga na Champions League.

Frank Lampard começou bem o seu trabalho em Stamford Bridge. As condições eram longe das ideais, com o embargo de transferência impedindo-o de, entre outras coisas, repor a saída de Eden Hazard. A sua falta de experiência em alto nível como treinador era comparável à de alguns dos jovens jogadores que ele precisou lançar no Chelsea. Em certo momento, a vaga na Champions League parecia assegurada, mas uma brusca queda de rendimento a partir do fim de novembro deixou tudo em aberto.

São apenas três vitórias nas últimas 13 rodadas, e a falta de contratações na janela de janeiro, com o Chelsea liberado para fazer negócios, aumentou a frustração de Lampard. Ele queria um atacante para diminuir o fardo sobre Tammy Abraham e aumentar o seu poder de fogo porque um dos principais problemas do time tem sido justamente transformar o volume de jogo em gols.

Ninguém chegou, e Giroud e Batshuayi seguem como as únicas opções para o comando de ataque, com o francês praticamente exilado dos gramados (fez apenas 282 minutos nesta temporada). Com os rivais se reforçando, Lampard chegou a dizer que o Chelsea agora é a zebra para ficar com a quarta vaga, uma maneira de diminuir a pressão sobre os seus ombros. Mas precisará apresentar respostas para não ser vítima do seu próprio sucesso no começo da campanha caso acabe longe do quarto lugar.

Caberá a José Mourinho evitar que a sequência de quatro temporadas do Tottenham na Champions Legue chegue ao fim. Ele assumiu o Tottenham disposto a provar que ainda pode treinar no mais alto nível, depois de uma passagem ruim pelo Manchester United, e parecia até relativamente mais simpático em suas primeiras semanas. Colocou o time para frente, conseguiu alguns bons resultados, teve uma fase ruim e agora parece estar mais ou menos estável, embora alguns resultados mais recentes, como as vitórias contra Manchester City e Southampton, pela Copa da Inglaterra, não reflitam o desempenho ruim que os Spurs tiveram em campo.

Parece possível conseguir a vaga na Champions League. O Chelsea está a quatro pontos de distância e há o Sheffield United entre os dois que, por mais que faça uma excelente temporada, não tem o mesmo número de garrafas vazias para vender do que o Tottenham. Mas o desafio principal de Mourinho nessas 13 rodadas será mostrar que ele consegue fazer os Spurs jogarem bem com consistência, como Mauricio Pochettino em seus momentos mais áureos, mais do que apenas arrancar resultados na raça. É o que se espera de um treinador do calibre que o português já teve e um ponto chave para reabilitá-lo.

Sempre que o fim da linha parece próximo, o Manchester United dá sinal de vida, e Ole Gunnar Solskjaer vai se segurando, apesar de todas as críticas ao seu trabalho. Entre os citados neste sub-título, é o que está há mais tempo no cargo e a falta de evolução no funcionamento coletivo dos Red Devils é muito preocupante. Segue sendo uma equipe irregular, cujo rápido contra-ataque encaixa bem com a parte de cima da tabela, mas sofre contra equipes mais fechadas.

Isso naturalmente se reflete em uma campanha que alterna sequências ruins e boas. A atual está entre as ruins: apenas uma uma vitória nas últimas cinco rodadas, com três derrotas e um empate. Solskjaer espera que a chegada de Bruno Fernandes ajude a melhorar a produção ofensiva da sua equipe e que Ighalo, contratação de emergência no fim da janela para acrescentar mais um corpo ao ataque, quebre o galho enquanto Marcus Rashford se recupera.

Entre todos esses, o que parece mais seguro no cargo é Mikel Arteta. Quando ele assumiu o Arsenal, a temporada estava mais ou menos perdida. Foi uma escolha a dedo para não apenas melhorar os resultados como implementar um estilo de jogo, como se espera de qualquer profissional que apertou a mão de Guardiola nos últimos dez anos – ele, como auxiliar do catalão, fez um pouco mais do que isso. E essa nova maneira de jogar já aparece em campo, mas os resultados são muito preocupantes.

O Arsenal ganhou apenas duas partidas pela Premier League desde o começo de outubro, com incríveis dez empates e, se não se cobra de Arteta uma recuperação que chegue ao quarto lugar, e ele ainda tem a Liga Europa para tentar uma vaga na Champions League, também é bom ficar esperto porque, neste momento, a zona de rebaixamento está mais próxima (sete pontos) do que o grupo de elite. Uma boa reta final, especialmente em termos de resultados, será essencial para fundamentar o trabalho da próxima temporada.

Até onde vai o efeito Ancelotti?

Ancelotti dá aquele abraço em Richarlison, que anotou um golaço contra o Palace (Foto: Getty Images)

Escrevi no começo de outubro, quando ficou claro que o trabalho de Marco Silva estava chegando ao fim, que o maior desespero do torcedor do Everton era mais uma temporada que, na melhor das hipóteses, terminaria ali na região do sétimo lugar, carinhosamente batizado na Inglaterra de Everton Cup. Desde o investimento de Farhad Moshiri, o clube espera o momento em que voltará a ser uma das grandes forças da Inglaterra e o início ruim dava todos os sinais de que seria necessário esperar pelo menos mais um ano.

E aí, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: o meio da tabela seguiu terrivelmente irregular e um dos maiores campeões da história do futebol foi convocado para substituir Marco Silva e, agora, se ainda não parece uma potência, o Everton tem chance pequena, mas real, de pelo menos roubar o quarto lugar do Chelsea.

Difícil não creditá-la a Carlo Ancelotti. O italiano ainda está no começo de seu trabalho, mas já causa efeitos positivos ao Everton. Desde que estreou, no Boxing Day contra o Burnley, perdeu apenas do Manchester City, pela Premier League, e do Liverpool, na Copa da Inglaterra – derrota muito, muito dolorosa contra uma escalação muito reserva do seu maior rival. De qualquer maneira, contando a interinidade de Duncan Ferguson, o Everton tem apenas uma derrota nas últimas 11 rodadas, o que o torna um dos times da Premier League em melhor forma no momento.

Nesse processo, ocorreram alguns milagres. O Everton ganhou do Watford de virada, a primeira pela liga inglesa desde 2017, ainda com Sam Allardyce, e Dominic Calvert-Lewin descobriu onde fica o gol, com seis tentos em oito rodadas – um quinto do seu total pelo clube de Liverpool. A situação poderia ser ainda melhor se não tivesse acontecido aquele desastre contra o Newcastle, quando os Toffees venciam por 2 a 0 até os 49 minutos do segundo tempo e levaram o empate.

De qualquer maneira, a recuperação que continuou com a vitória sobre o Crystal Palace no último sábado, na primeira leva de jogos da rodada desmembrada para a pausa de inverno, levou o Everton a 36 pontos, apenas cinco de distância para o Chelsea, que tem um jogo a menos – mas contra o Manchester United. Se ainda parece difícil chegar lá, o clube está na briga e, com nenhum adversário voando no momento, pode sonhar com a vaga na Champions. Dependerá do quanto os efeitos iniciais da chegada de Ancelotti continuarão causando impacto ao time, antes de o italiano ter a chance de montar um time mais à sua imagem a partir da próxima temporada.

A briga pela Champions League

Billy Sharp marcou na vitória contra o Bournemouth, no fim de semana (Foto: Getty Images)

Isso tudo posto, a briga pela Champions League deve ser o grande atrativo do último terço da Premier League. Liverpool, Manchester City e Leiscester estão muito bem aconchegados na zona de classificação, o que deixa sobrando uma vaga, atualmente ocupada, como citado, pelo Chelsea, com 41 pontos. Em seguida, aparece a sensação Sheffield United, com 39. Um pouco atrás, o Tottenham tem 37, e o Everton, 36. Manchester United e Wolverhampton somam 35 cada, e depois aparece a turma dos 31 pontos – Arsenal, Burnley, Newcastle e Southampton – cujos integrantes precisariam de um milagre para entrar na briga.

Dos principais candidatos, apenas o Everton e o Sheffield United disputaram sua 26ª rodada. Os homens de Chris Wilder derrotaram o Bournemouth, por 2 a 1, com o segundo gol marcado a seis minutos do fim e, mais notável ainda, apenas pela segunda vez nesta Premier League venceram duas rodadas seguidas, o que é bem estranho para um time em quinto lugar e também um testamento do nível da competição.

Com baixo orçamento, embora tenha trazido jogadores interessantes em janeiro como Sander Berge, Richairo Zivkovic e Panagiotis Retsos, o Sheffield United ainda surpreenderia se conseguisse manter o fôlego para brigar pelo quarto lugar até o fim. Se conseguir, seria um feito inacreditável. A outra equipe que está na briga é o Wolverhampton, cujo desempenho desde dezembro o afastou um pouco da disputa. Apenas três vitórias nas últimas 10 rodadas.

A pausa veio em boa hora

Zaha não tem conseguido carregar mais o Crystal Palace nas costas (Foto: Getty Images)

Algumas equipes não viam a hora de poder respirar, nenhuma mais do que o Crystal Palace. O time londrino, inclusive, adoraria não ter entrado em campo contra o Everton, no último sábado, quando chegou à sua sétima rodada seguida sem vitória. Apenas um triunfo em 11, o que é uma espécie de correção de curso para uma equipe que começou muito bem a Premier League, chegando a brigar no topo da tabela. Preocupam especialmente a fase ruim de Wilfried Zaha e a alta idade do time que Roy Hodgson tem colocado em campo. O martinense, aos 27 anos, foi o mais novo da equipe titular com média de 30 anos que perdeu por 3 a 1 do Everton. Esta é a sétima temporada consecutiva do Palace na elite do futebol inglês e uma oitava dependerá de um desempenho muito melhor daqui para a frente.

O Brighton é um caso curioso porque costuma fazer bons jogos e terminá-los sem nada para mostrar. Normal para um time de baixo orçamento que tenta desenvolver um estilo de mais posse de bola, em claro contraste ao que fazia com Chris Hughton. Só que também ganhou apenas um jogo nos últimos 11 e precisa de uma reação, embora sua realidade sempre fosse brigar contra o rebaixamento. Empatou no último sábado contra o Watford que, depois de uma ótima recuperação inicial com Nigel Pearson, não ganha há quatro rodadas e aproveitará as próximas duas semanas para organizar os seus pensamentos.

West Ham precisa evitar o desastre

“É isto que eu faço: eu venço”, profetizou, equivocadamente, David Moyes ao chegar ao West Ham (Foto: Getty Images)

E tem o West Ham. Ainda não está claro o que exatamente a diretoria esperava de David Moyes, mas, independentemente de problemas na supervisão tática, o elenco tem jogadores bons o bastante para não ser rebaixado, o que aconteceria se a Premier League terminasse agora. Foram gastos mais de € 300 milhões em reforços nas últimas quatro temporadas e a queda seria catastrófica para as contas dos Hammers, que inclusive registraram prejuízo em 2018/19. Ainda há esperança, claro, porque o West Ham está a apenas um ponto da salvação, faltam 13 rodadas pela frente e conta com mais recursos do que os seus adversários. Mas precisa melhorar significativamente da forma que o levou a vencer apenas três partidas das últimas 19 que realizou pela Premier League. A curva está voltada para baixo.

Quem briga contra o rebaixamento?

O objetivo (target, hehe), do Aston Villa: escapar do rebaixamento (Foto: Getty Images)

O Norwich dificilmente escapará. Está a sete pontos de sair da zona de rebaixamento e não dá sinais de que, em campo, conseguirá cobrir essa distância. É um time frágil defensivamente, que sofreu uma crise de lesões muito séria e não tem muito de onde tirar. À sua frente, aparecem empatados com 24 pontos, West Ham, com time bom o bastante para sair dessa, e o Watford, que se deu uma chance de se manter na primeira divisão com a recuperação comandada por Nigel Pearson.

O Aston Villa tem apenas um ponto de folga para a zona da degola, também teve alguns desfalques, mas vem de apenas duas derrotas nas últimas cinco rodadas, uma delas para o Manchester City, e tem de onde tirar desempenho para se salvar. À sua frente, está o Bournemouth, que estancou a sangria com triunfos no confronto direto contra Brighton e Villa e tem um time muito experiente neste tipo de disputa. Está em sua quinta temporada seguida na Premier League e, em três delas, ficou na parte de baixo da tabela.

O Palace, com 30, está teoricamente no limiar da briga contra o rebaixamento. Dista apenas seis pontos da zona e está em tendência de baixa muito grande para se sentir seguro. O problema é que, se o Palace ainda corre perigo, a turma que tem 31 pontos deveria correr também. Mas, com tantos times no meio do caminho, Arsenal, Burnley, Newcastle e Southampton podem ficar mais ou menos tranquilos, até porque todos vem tendo apresentações bem razoáveis. Mas que não vacilem demais porque não há muita coisa separando o 10º do 18º lugar.