A queda de Muammar Khadafi, decretada no dia 20 de outubro de 2011, quando o ditador líbio foi brutalmente assassinado por opositores rebeldes, foi um divisor de águas para o país do norte africano. A Guerra Civil deflagrada após a Primavera Árabe no início da década retalhou o território líbio, disputado por diversas forças divergentes, do governo oficial, instaurado com o apoio das Nações Unidas e da OTAN, passando por forças rebeldes leais ou contrárias aos ideais de Kadhafi, até grupos jihadistas. O país vive em constante alerta, mas nos últimos dois anos havia encontrado um pouco de tranquilidade, ao menos nas principais cidades. Pelo menos até o último dia 8 de abril, quando tropas lideradas pelo general Khalifa Haftar, uma controversa figura que participou de todos os momentos políticos da história líbia recente em lados diferentes, iniciaram uma ofensiva partindo de Benghazi, histórico pólo de oposição a Kadhafi e agora do atual governo central, para Trípoli, capital do país.

No meio do caminho, entre Benghazi e Trípoli, está a cidade de Misurata, terceira maior do país. Nela, quatro brasileiros estão presos na Líbia por conta do conflito: o treinador Fernando Dourado, os jogadores de futebol Matheus Henrique e Autemar Evangelista, e o jogador de vôlei Sérgio Félix. Todos estavam a serviço do Asswehly Sports Club. A interferência sofrida por eles é apenas mais um capítulo da relação do esporte com a política local, especialmente o futebol. Na época de Kadhafi, o futebol foi controlado por um de seus filhos, Al Saadi Kadhafi, que inclusive foi campeão pelos principais clubes do país como jogador e dirigiu a federação. Não faltaram acusações de manipulação de resultados e de perseguição a atletas e comentaristas. Agora, o principal problema é a impossibilidade de praticar futebol com mais uma paralisação, algo corriqueiro na rotina esportiva da Líbia. Desde a retomada dos conflitos, já são contabilizados mais de 200 mortos e 900 feridos. E é nesse clima de medo que Fernando Dourado, com vasta experiência no futebol das divisões inferiores do Brasil e no exterior, aguarda uma resolução para sua situação. Preso em um hotel, o treinador conversou com exclusividade com a Trivela sobre a situação atual.

À esquerda, Autemar e Matheus Henrique comemoram gol pela equipe de futebol; à direita, Sérgio Félix, durante comemoração de título da liga local de vôlei.

Fernando chegou ao país ainda em 2018 para assumir o comando do Asswehly. A equipe de Misurata foi fundada em 1944, e tem este nome desde 1972. Embora tradicional, seus principais títulos são da segunda divisão. O objetivo para a temporada era, enfim, conquistar o inédito título da elite. “Antes do início dos conflitos, a rotina de treinamentos e jogos seguia da melhor forma possível. Eu já sabia que o país é, infelizmente, um “barril de pólvora” desde a revolução de 2011”, explica Dourado. O Asswehly estava em segundo lugar no grupo 2 da liga, com 18 pontos contra 22 do Al Ittihad, de Trípoli, mas com duas partidas a menos. O brasileiro Autemar era o artilheiro da competição até então, com quatro gols. E a equipe já havia conquistado um título de uma taça menor. “A liga vem se reestruturando de forma gradativa, vivendo sempre as ‘sequelas’ no calendário, devido a iminência constante de conflitos. Fico muito triste, estávamos realizando um excelente trabalho no futebol da Líbia, liderando a competição junto com as duas forças de Trípoli. Apliquei conceitos novos e mudei a organização do futebol do clube em todos os aspectos. Pois, além de ser treinador, tenho também a função de organizar e planejar todas as divisões do clube”, explica. Além dos resultados em campo, a equipe teve pela primeira vez dois jogadores convocados pela seleção da Líbia.

Mas as conquistas que Dourado vinha obtendo e almejando para o futuro foram interrompidas assim que o primeiro ataque aéreo foi realizado na capital. Imediatamente, todas as atividades no Asswehly foram encerradas por questão de segurança e suspensas por tempo indeterminado, medida que afetou todo o desporto local. Com o aeroporto de Trípoli bombardeado, a saída do país se tornou impossível momentaneamente. “Nos sentimos apreensivos e assustados. Dormimos muito pouco com esta situação e ficamos sempre juntos aqui no hotel”, diz o treinador.

Sem perspectivas de uma solução breve para o conflito, Dourado e os demais brasileiros buscam alternativas para sair do país, e têm recebido apoio da Embaixada do Brasil na Líbia. “Estamos querendo sair imediatamente. Estamos preocupados e os nossos familiares no Brasil também. Estamos tendo todo amparo e carinho da embaixada brasileira em Trípoli, que vem intermediando as nossas saídas. Estamos aguardando nossos bilhetes de volta pela Tunísia ou Turquia e a permissão de voos domésticos saindo do aeroporto de Misurata”, disse Dourado, que fez questão de salientar o trabalho de um casal de funcionários da embaixada, a brasileira Rosimeri Souza Manhus e o líbio Abusaa Mohamed Manhus. “Somos muito gratos pelo carinho e apoio deles. Eles até já passaram o nosso caso para o ministério do exterior em Brasília e em último caso, o governo diz que fará de tudo para nos tirar da tensão que estamos vivenciando”.

O contrato de Fernando com o clube teria duração até agosto de 2019, e a renovação já vinha sendo discutida. Mas com uma nova guerra no meio do caminho do país, os planos futuros se esvaíram. “É muito triste vivenciar este momento”, lamenta o treinador, que agora só pensa em estar em total segurança o mais rápido possível. “Tudo que quero agora é voltar ao meu querido país e reencontrar os meus familiares e amigos e dar uma sequência na minha profissão no Brasil e, quem sabe, futuramente, retornar e encontrar uma Líbia livre”.