Por mais que as campanhas de inclusão e respeito sejam cada vez mais constantes, especialmente no exterior, o tema diversidade sexual ainda é um grande tabu no futebol, independentemente do país. E é por isso que a notícia de que a Austrália tem agora seu primeiro jogador profissional declaradamente gay, segundo a própria A-League, é tão importante.

O atacante Andy Brennan, de 26 anos, revelou ser homossexual nesta terça-feira (14), por meio de um post no Instagram. Nele, Brenner afirma que levou anos para que ele ficasse confortável em dizer isso, pelo medo que tinha de como a revelação poderia afetar suas amizades, a família e os colegas de time. Porém, “o apoio das pessoas ao meu redor tem sido ótimo e me ajudou a dar o último passo: ser completamente declarado”, escreveu.

Mais tarde, em entrevista ao jornal australiano Herald-Sun, o jogador disse que já lidava com a questão desde que defendia o Newcastle Jets, clube de expressão da elite australiana e que ficou em segundo lugar na A-League de 2017/18, mas que, à época, lidando com problemas de lesão, estava tão focado que acabou deixando a questão um pouco de lado.

“(Em meu tempo no Newcastle Jets) Estava focado em jogar, mesmo que estivesse contundido por vezes e colocasse todo meu foco nisso. Talvez isso, de alguma maneira, criou uma cortina de fumaça e me ajudou a deixar de lado”, afirmou.

Atualmente defendendo o Green Gully Cavaliers, time de Melbourne que disputa o equivalente à segunda divisão australiana, Brennan disse que a sobrecarga mental de ficar imaginando quem no clube saberia ou não de sua orientação sexual era muito grande.

“Seis meses atrás, pensei muito nisso, tentei esconder e deixar de lado por causa da maneira como achei que seria percebido por muitos. Chegou ao ponto em que eu não podia mais desperdiçar tempo estando em relações em que não estava confortável e que não iriam dar em nada.”

“Haverá pessoas pensando: ele tinha mesmo que expressar seus assuntos pessoais para o mundo? A razão pela qual eu queria fazer isso em primeiro lugar era para me sentir confortável. É um peso enorme tirado dos meus ombros, e agora posso só focar em jogar futebol”, respirou aliviado.

A homofobia é tão pesada no futebol que é difícil até mesmo ouvir jogadores falando mais abertamente sobre o preconceito em si. E, nos poucos casos de entrevistas que abordam mais a fundo o assunto, a unanimidade é de que o esporte não está pronto para isso.

Em novembro do ano passado, Olivier Giroud, do Chelsea, disse ao jornal francês Le Figaro que percebeu que era “impossível” para um jogador profissional (de grande expressão) revelar sua homossexualidade ao futebol. “No vestiário há muita testosterona, todos juntos, chuveiros coletivos… É difícil, mas é assim. Entendo a dor e a dificuldade dos garotos que saem do armário, é um verdadeiro teste depois de anos de trabalho em si mesmo.”

Héctor Bellerín, lateral direito do Arsenal, contou em entrevista ao jornal inglês Times em setembro de 2018 que era alvo de insultos homofóbicos tanto nas redes sociais quanto no estádio por causa de seu cabelo.

“O problema é que as pessoas têm uma ideia de como um jogador de futebol deve se parecer, como ele deve se comportar, sobre o que ele deve falar. Você age um pouco diferente e se torna um alvo. Existe uma pressão para se conformar (aos padrões). Na vida, você deveria poder se expressar. As pessoas são mais felizes assim”, opinou Bellerín.

É justamente este o motivo pelo qual, depois de anos, Brennan dá seu passo derradeiro e estabelece um caminho na Austrália: “É preciso perceber que isso é quem você é, e você simplesmente precisa ser quem é, seja gay ou qualquer outra coisa, quem quer que você seja.”