Em Madri, Lucas Silva terá os melhores exemplos para crescer, e já deve ser útil a Ancelotti

Revelação do Cruzeiro deve encontrar pressão em Madri, mas tem qualidade e boas oportunidades para vingar no Real

Tumulto no aeroporto, aperto de mão com Florentino Pérez, terno e gravata na apresentação. Lucas Silva chegou ao Real Madrid como um verdadeiro reforço de peso. Fez por merecer, diante do desempenho nos últimos meses com o Cruzeiro. Os merengues pagaram uma quantia até módica pelo prodígio de 22 anos, que se tornou realidade jogando em alto nível no Brasileirão e tem capacidade de desenvolver ainda mais. Para o estilo de jogo da equipe de Carlo Ancelotti, o novato tende a cair como uma luva e ser a peça ideal para a rotação. Por “apenas” € 15 milhões, vale a aposta no aprendiz de Toni Kroos e Luka Modric.

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Em um futebol brasileiro que nem sempre acompanha as últimas inovações táticas, Lucas Silva se firmou como um volante moderno. O meio-campista que domina a faixa central do campo, passa com exímia qualidade e aparece para arriscar chutes de fora da área. No Cruzeiro de Marcelo Oliveira, de jogo extremamente vertical a partir da velocidade de seus pontas, os lançamentos saídos dos pés do garoto eram importantíssimos. De certa forma, se assemelha às exigências que terá em Madri. Algo que Xabi Alonso fazia a maestria durante o seu reinado no Bernabéu, e que segue em alta com Kroos e Modric, ainda que cada um a seu estilo. De certa maneira, também um pouco do que o próprio Ancelotti fazia no Milan de Arrigo Sacchi, ao qual chegou justamente para ser o organizador em um time de craques.

E, por mais que Lucas Silva chegue como opção para o elenco, tende a ser importante nesta segunda metade de temporada. Não apenas pela exigência de jogos entre o Campeonato Espanhol e a Liga dos Campeões, mas pelas próprias necessidades do Real Madrid. Enquanto Kroos segue na ponta dos cascos, Modric se recupera de lesão e tem o retorno previsto para a terceira semana de fevereiro. Isco vinha atuando muito bem na função do croata, mas também enfrenta problemas físicos. E as outras duas opções para o setor parecem com os dias contados em Bernabéu: Khedira sofre com a irregularidade e as contusões, sem que o seu estilo mais físico funcione no meio-campo, e também está em fim de contratato; já Illarramendi nunca cumpriu as expectativas de ser o “novo Xabi Alonso” e, apesar da qualidade técnica, se coloca a caminho do Athletic Bilbao.

Isco pode até ser a terceira via para o jogo no meio-campo, com Kroos e Modric em forma. No entanto, também é a melhor opção se qualquer um dos quatro homens de frente precisar se ausentar. Jesé ainda se readapta após os graves problemas no joelho e Chicharito não vem sendo levado tão a sério em Madri. O elenco é estrelado, mas o cobertor é um pouco curto na quantidade. Assim, Lucas Silva chega principalmente por permitir mais variações a Ancelotti, sem que o time perca as suas características.

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O próprio discurso de Lucas Silva se mostra consciente do que encontrará em Madri: “Não sei se preciso mudar ou ajustar algo do meu jogo para me adaptar ao futebol europeu, mas creio que não sejam muitas coisas. Eu venho com o meu futebol de sempre: jogar o melhor possível. Estou com 80% de meu potencial físico e quero estar com os companheiros o mais rápido. Ser titular é um dos objetivos, mas tenho que ir passo a passo. Chego aqui também para aprender. Chego para buscar o meu lugar. Quero seguir os passos de Kroos”.

Obviamente, é preciso dar tempo ao novato. Por mais que tenha feito um grande Campeonato Brasileiro e tenha muita qualidade técnica, o volante ainda precisa amadurecer em alguns aspectos. A exigência de nível do futebol brasileiro não é tão grande quanto na Europa, onde há menos tempo para pensar e menos espaço para jogar. E, em algumas partidas, as atuações menos intensas do garoto atrapalharam um pouco o Cruzeiro.

Em Madri, Lucas Silva terá dois dos melhores espelhos para a função que desempenha, assim como dois dos melhores mestres – além de Ancelotti, poderá aprender um bocado com Zidane se quiser melhorar um pouco mais na saída de jogo. A ida para o Real, apesar da pressão de jogar em um clube tão grande, parece mesmo o mais acertado para o desenvolvimento do meio-campista. Para se firmar em uma função na qual a Seleção não possui nomes similares, apesar da oferta de bons volantes de força, e mostrar como o futebol brasileiro pode seguir formando jogadores de ponta, como as vendas de Everton Ribeiro e Ricardo Goulart colocaram um pouco em xeque.