Depois das últimas semanas carregadas, era necessário que o capitão do Barcelona falasse – e como ele falou. Lionel Messi concedeu uma longa entrevista ao jornal catalão Mundo Deportivo, tratando dos mais diversos assuntos – do Barçagate, escândalo sobre a suposta contratação de perfis para difamar figuras do clube, incluindo ele, Messi, à sua permanência no clube e a relação com o novo técnico Quique Setién e o atacante Antoine Griezmann.

Você pode conferir aqui a entrevista completa, em espanhol, mas abordamos abaixo o que consideramos os pontos principais da conversa de Messi com o diário catalão.

Especialmente com o ambiente conturbado nesta temporada e o desempenho relativamente decepcionante do time em campo, cada vez mais a informação de que o argentino tem em seu contrato uma cláusula que lhe permite deixar o clube é relembrada na imprensa. De sua parte, no entanto, Messi quis mais uma vez reforçar que, enquanto o quiserem por lá, ele irá querer permanecer no Camp Nou.

“Já disse muitas vezes que essa é a minha ideia, e enquanto o clube e as pessoas continuarem a querer isso de mim, nunca haverá qualquer problema. Muitas vezes eu também disse que gostaria de estar e que todos estejamos bem no clube, que as pessoas estejam felizes com a equipe, que haja um projeto vencedor e que continuemos a lutar por todos os títulos, como sempre fizemos neste clube. Essa é a minha ideia, continuar neste clube. Eu quero ganhar outra Champions League, quero continuar ganhando Ligas e sempre aspiro a isso”, afirmou.

Messi reconhece que já teve diversas oportunidades de deixar os blaugranas, com muitos clubes interessados, mas nunca lhe ocorreu sair, “tampouco agora”. “Vou dizer novamente. Se o clube quiser (que eu fique), não há problema”, reforçou.

Barçagate

A polêmica mais recente – e também a mais pesada – da temporada veio com uma reportagem da rádio Cadena SER, mais tarde reiterada por veículos de comunicação como o Sport e o Marca, de que o Barcelona teria contratado uma empresa de Big Data para conduzir uma campanha de difamação de figuras do Barça nas redes sociais, entre elas Messi, Piqué, um candidato à presidência do clube e mesmo Pep Guardiola.

Depois de afirmar publicamente que havia encerrado o vínculo com a companhia, chamada I3 Ventures, por descobrir ligação entre ela e contas falsas que estavam veiculando os ataques, Josep Maria Bartomeu, presidente do Barcelona, disse que a empresa havia sido contratada apenas para monitoramento de redes sociais, atribuindo apenas à companhia a culpa pelas postagens.

Mais tarde, Bartomeu se reuniu também com os capitães do Barça, entre eles Messi e Piqué, para um controle de danos e para lhes dar sua versão. O camisa 10 disse ter se surpreendido com a bomba e que o presidente contou aos jogadores a mesma coisa que disse à imprensa, afirmando ter provas de sua versão.

“Na verdade, fiquei um pouco surpreso, porque não estava aqui e estava viajando. Quando cheguei, me inteirei um pouco de tudo. O presidente nos disse o mesmo que divulgou publicamente, o mesmo que disse na coletiva de imprensa, qual era a situação, o que tinha acontecido, e eu não posso dizer muito mais. A mesma coisa que vocês sabem foi o que nos contou aos capitães, em privado. A verdade é que eu acho estranho que tal coisa aconteça. Mas eles também disseram que haveria provas. Vamos ter de esperar para ver se é verdade ou não”, explicou.

Tensão com Abidal: “Ele atacou o vestiário”

Em outro assunto do qual foi uma das figuras centrais, Messi se desentendeu com o diretor de futebol do Barça, Eric Abidal, depois de o francês afirmar que alguns jogadores do elenco estavam insatisfeitos com o ex-técnico Ernesto Valverde e se dedicando pouco nos treinos. Em gesto que lhe é raro, Messi foi às redes sociais responder ao dirigente – e aqui explicou por que sentiu que precisava tomar esta atitude.

“Eu não sei o que passou pela cabeça dele para dizer isso, mas acho que respondi porque me senti atacado. Senti como se estivesse atacando os jogadores. E há muitas coisas sendo ditas sobre o vestiário, como se ele controlasse tudo, decidisse quais treinadores entram e saem, quais jogadores trazer, e especialmente eu. Como se eu tivesse muito poder e tomasse decisões. E me incomodou que uma pessoa do clube dissesse isso.”

Messi afirmou que as palavras de Abidal lhe doeram tanto pessoalmente quanto como capitão da equipe: “Primeiro porque ele atacou o vestiário. Por isso eu disse que se ele atacasse o vestiário, que desse nomes e dissesse quem era essa pessoa em vez de generalizar. E também a nível pessoal, por causa do que eu disse antes, porque já se disse muito que eu tomo decisões e comando, o que não é verdade”.

Buscando entender por que isso acontece, Messi pensa que talvez seja por estar há muito tempo no clube, mesmo cenário que vive na seleção. “Não sei, também me aconteceu na seleção argentina, onde disseram que jogavam quem eu queria que jogasse, que eu escolhia treinadores, que os meus amigos jogavam… Não sei, o fato de eu estar no mesmo lugar há tanto tempo e saber muito sobre a casa, tanto aqui como na seleção, talvez seja por isso.”

Quique Setién e Antoine Griezmann

Quem está há pouquíssimo tempo no clube, por outro lado, é Quique Setién, que não tem tido o começo dos mais simples ao tentar mudar o jeito da equipe de jogar. Messi aponta que o time está em um processo que, naturalmente, é custoso de se assimilar, com mudanças tão grandes.

“Tem muitas coisas. A que você mais vê é essa (saída de bola com o goleiro), porque é uma grande mudança, o fato de arriscar na saída, que Marc (Ter Stegen) saia da área às vezes um pouco mais para tentar sair com a bola. Mas tudo é para sair bem, para começar bem e tentar atacar bem novamente. Há também outras coisas, outros movimentos. A pressão, tentando pressionar depois de perder a bola, empurrando para cima. Coisas que tínhamos perdido um pouco, e tudo isso também requer um processo, e nós estamos assimilando.”

Quanto ao que Setién tem pedido dele, Messi, o argentino não tem do que reclamar. Como os técnicos anteriores, entende o tamanho do talento que tem em mãos e lhe dá “muita liberdade”, como definiu o camisa 10: “Às vezes, como na partida da Copa do Rei, contra o Bilbao, eu tive que jogar como um falso nove, para tentar ter superioridade, às vezes arrancando de fora. Mas, como todos os outros (treinadores), ele me dá liberdade suficiente para criar superioridade e para poder atacar bem”.

Outro que tem tido sua própria parcela de dificuldade em seu início no Barcelona é Griezmann, com relatos inclusive de adversidades para se integrar ao elenco. Messi negou que tenha algum problema de relacionamento com o francês, apontando ainda que aos poucos os dois têm se entendido melhor dentro de campo.

“Temos uma boa relação, assim como com todos os companheiros. Fora do campo também. Obviamente, era normal que fosse ser difícil no começo para nos conhecer, conhecer os movimentos. Ele vem de um jogo diferente, costumava jogar de uma forma diferente, e ainda jogou do lado esquerdo, que talvez não seja onde ele se sinta melhor, mas hoje, nas últimas partidas em que tem atuado como centroavante, temos mais possibilidades de combinação, estamos mais próximos, mais juntos. Isso não acontece porque não nos damos bem, mas por causa de situações no jogo, na partida e nos damos muito bem.”

Irregularidade dentro de campo

O momento difícil, irregular, do Barcelona na temporada é algo natural ao craque argentino. “Estamos passando por um processo de mudança de treinador. Cada um tem as suas ideias, outra forma de ver os jogos, de jogar, e pouco a pouco estamos nos adaptando ao que ele quer.”

Ele reconhece, no entanto, que ainda há muito a melhorar, o que não é fácil, justamente pela transição de estilos. E tem sua própria receita para a equipe se encontrar nos trilhos e disputar, por exemplo, o título da Champions League, sua grande vontade.

“Acho que (falta) ser mais regular no jogo, assimilar todas essas coisas novas que estamos fazendo o mais rápido possível, sermos mais confiáveis, não cometer erros bobos que cometemos e temos cometido o ano todo, não fazer o que aconteceu conosco em Roma ou em Liverpool, onde deixamos o jogo e parecemos nos desconectar, e aí acontece o que aconteceu… Manejar todos os detalhes, porque na Champions qualquer detalhe mínimo o condena, e temos de tentar chegar aos 100% em tudo para tentar ganhar.”