Nenhum outro jogo das Eliminatórias para 2018, até o momento, teve tanto clima de Copa do Mundo quanto o ocorrido neste sábado, em Wellington. Nova Zelândia e Peru trataram o jogo válido pela repescagem já como parte do Mundial. O Estádio Westpac, tradicional casa do rúgbi, se transformou em um “anel de fogo” também para o futebol. E o público que encheu as arquibancadas não deixou de ver um duelo com todos os contornos de uma verdadeira decisão. Foi uma partida tensa, bastante pegada, em que as chances de gol apareceram em determinados momentos – o suficiente para deixar o grito de gol entalado na garganta. Ao final, o empate por 0 a 0 amplia as expectativas sobre o que acontecerá na próxima quarta-feira, no Estádio Nacional de Lima. Certamente será uma noite para ficar gravada na memória das duas seleções.

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A maneira como os dois países encararam este primeiro jogo ajudou a engrandecer a ocasião. Sedentos por retornar à Copa do Mundo após 36 anos, os peruanos invadiram Wellington. Milhares de torcedores cruzaram o Oceano Pacífico para fazer o time de Ricardo Gareca se sentir em casa. Receberam os jogadores no aeroporto, apoiaram nos treinamentos, tomaram as ruas da capital neozelandesa. Já nas arquibancadas do Westpac, embora a maioria ainda fosse composta pelos locais, havia um número considerável de Incas pintando a atmosfera de vermelho. Cantando, exibindo bandeiras e acreditando que a façanha já começaria a se desenhar neste sábado.

Contudo, enquanto os peruanos se agarram às esperanças, os neozelandeses não deixaram de exibir a devida seriedade. Por vezes, até mesmo com um clima exageradamente hostil, pelas provocações que aconteceram ao longo das últimas semanas. Se os All Whites estão acostumados a jogar quase sempre nos acanhados estádios da OFC, o gigantismo do Westpac escancarava a importância do que viria pela frente. E os torcedores vinham junto, com os gritos incessantes de All Whites. Antes que os times entrassem no gramado, aguardando no túnel, houve até mesmo uma exibição de Haka feita por representantes da cultura Maori. Depois, nos hinos, muita emoção e força para cantar. Era hora da guerra.

Quando a bola rolou, o Peru logo mostrou quem é o favorito. Substituto de Paolo Guerrero, atuando como homem de referência, Jefferson Farfán brigou na linha de frente, apesar do excesso de erros. Os Incas se impunham no campo de ataque e fizeram bons 20 minutos. Demonstraram mais segurança do que em toda a partida contra a Colômbia, pela rodada final das Eliminatórias Sul-Americanas, por exemplo. Mantinham a posse de bola e, quando a Nova Zelândia a recuperava, sofria a pressão da marcação. Faltava apenas um pouco mais de capricho na conclusão das jogadas, tanto no último passe quanto nas finalizações. Cristian Cueva era um dos que mais aparecia.

A melhor oportunidade veio aos seis minutos, em um lance que contou com a colaboração dos adversários. Após um lançamento longo de Yoshimar Yotún, a bola parecia sob controle dos All Whites, com dois defensores fazendo a proteção para a saída do goleiro Stefan Marinovic. Entretanto, Farfán se enfiou entre eles e conseguiu desviar a bola, pegando o goleiro desprevenido. Milagrosamente, o camisa 1 se recuperou a tempo e tirou em cima da linha.

A Nova Zelândia começou a aparecer mais ao ataque na metade final do primeiro tempo. Os All Whites também sofriam com o desfalque de seu protagonista. Sem estar nas melhores condições físicas, por um problema muscular, Chris Wood começou no banco e o time perdeu em presença de área. Só começou a se soltar um pouco mais através das jogadas pelos lados do campo. Ainda assim, os anfitriões não capricharam quando conseguiram se aproximar da meta de Pedro Gallese. O Peru diminuiu o ritmo, mas ainda era superior. E deu uma dose de sorte ao não ficar com dez homens desde os 23 minutos, em cotovelada de Yotún que poderia resultar no cartão vermelho, mas só rendeu o amarelo.

Custando a ameaçar nos instantes anteriores ao intervalo, os peruanos voltaram ao segundo tempo mais elétricos. Edison Flores poderia ter gerado o primeiro gol ao receber livre na área, aos 13 minutos, mas demorou bastante para decidir o que fazer. O lado esquerdo, aliás, era o caminho por onde os Incas encontravam mais espaço. Por ali, arranjaram um escanteio aos 16. Foi quando tiveram a melhor oportunidade de marcar, em cabeçada potente de Aldo Corzo, que Marinovic espalmou com a ponta dos dedos. Destaque também na Copa das Confederações, o goleiro é uma das principais esperanças dos All Whites nesta repescagem.

Seguindo mais ativo, o Peru só voltou a ser incomodado depois dos 28. Enfim, Wood entrava em campo, apto ao menos para atuar durante os minutos finais. E a Nova Zelândia cresceu com seu astro. O time adotou outra postura com a presença do centroavante do Burnley, arriscando mais no ataque. Foram duas finalizações perigosas de fora da área, que passaram próximas da meta sul-americana. Aos 42, a Blanquirroja ainda teria seu último suspiro, mas Pedro Aquino errou o alvo quando Marinovic estava fora do arco. Com o placar zerado, a definição fica para Lima.

Por mais que tenha deixado claro que possui um elenco superior, o Peru precisa aproveitar melhor as suas chances, especialmente porque há um grande goleiro do outro lado. E a Nova Zelândia, que não é tão privilegiada assim tecnicamente, confia na disciplina tática e na recuperação de Wood para aprontar no Estádio Nacional. Um empate com gols, neste momento, já valerá aos All Whites. Será um jogo interessantíssimo de se acompanhar, sobretudo pela maneira como os dois times e as torcidas tratarão a decisão. A Copa do Mundo já começou, mesmo que uma das duas seleções não possa ir à Rússia. A gana que tiveram no confronto é o que se pede a qualquer mundialista.


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