A torcida do Athletico Paranaense amanheceu comemorando mais um título. Campeão da Copa Sul-Americana, o Furacão viajou ao Japão para enfrentar o Shonan Bellmare, vencedor da Copa da J-League. E os rubro-negros não deram qualquer trégua aos nipônicos, goleando por 4 a 0 – gols de Marcelo Cirino, Rony, Thonny Anderson e Braian Romero. O resultado garantiu o troféu da Copa Conmebol/J-League (a antiga Copa Suruga), bem como R$3,5 milhões de premiação. Dia de festa, que seria complementado com a melhor notícia possível horas depois: também nesta quarta, a diretoria atleticana resolveu suspender a sua ideia de “Torcida Humana”, levada em frente ao lado da Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor de Curitiba.

Foram 15 meses em que o Athletico se dedicou ao projeto estapafúrdio. A partir de maio de 2018, o Furacão passou a aplicar o conceito de torcida única a todos os seus jogos. Não tinha setor separado aos torcedores visitantes, assim como estavam proibidas as camisas e os materiais alusivos aos times visitantes. A iniciativa gerou problemas e, sobretudo, a insatisfação com o banimento. Não à toa, diferentes clubes pressionaram os atleticanos para o final da medida. Ela só não era aplicada nas partidas da Conmebol, nas quais são obrigatórios os 10% de ingressos destinados aos oponentes.

A queda de braço era ampliada pelo conflito do Athletico com sua principal torcida organizada, Os Fanáticos, e também se notava com o esvaziamento do estádio. O imbróglio se estendia desde 2016, inclusive com a proibição de materiais alusivos ao grupo. Assim, outro passo importante desta quarta foi o acordo com a uniformizada. A reaproximação aconteceu nas últimas semanas, quando o Furacão permitiu a entrada dos organizados com faixas e instrumentos para a partida de ida contra o Boca Juniors pelas oitavas de final da Libertadores – o que ocorrera já na decisão da Copa Sul-Americana. Agora, por fim, chegou-se a um acordo. Os Fanáticos ficarão no setor inferior da Rua Coronel Dulcídio – não na parte superior das tribunas, como a diretoria tentava impor.

Em sua nota oficial sobre a suspensão da “Torcida Humana”, o Athletico até diz que o saldo foi “positivo” e apresenta números favoráveis – que, entretanto, dão margem à dúvida em uma comparação quantitativa mais efetiva. Além disso, segundo o 13° Batalhão da PM, que cuida da área do estádio, o projeto permitiu “aplicar o efetivo de forma mais eficiente tanto no evento quanto em outros ambientes públicos, ampliando assim os serviços prestados pela Polícia Militar, bem como dando maior sensação de segurança à população local”.

Todavia, as afirmações da nota oficial não parecem ser suficientes para convencer que há apenas reflexos positivos, depois dos diferentes desgastes ocorridos na Arena da Baixada por causa da iniciativa – que, afinal, não encerrou as brigas. O desmantelamento do setor visitante, no fim das contas, resultou em outros tipos de problemas e negou um espaço que deveria ser de direito às demais torcidas. Principalmente em partidas de maior proporção, terminou por resultar numa organização improvisada, seja pela polícia ou pelos próprios torcedores atleticanos. Isso sem contar as perdas financeiras, que tendem a ser bem mais consideráveis que o impacto divulgado pelo clube em seus números.

A Delegacia de Atendimento Móvel a Futebol e Eventos, responsável pelo atendimento no estádio, passou a registrar média de uma briga por jogo e se manifestou contra a medida ainda em 2018. Da mesma maneira, o Tribunal de Justiça Desportiva tentou derrubar o projeto e a própria torcida do Athletico realizou um abaixo-assinado. Mário Celso Petraglia, contudo, demorou a admitir o fracasso. Depois de longa espera, enfim, resolveu voltar atrás nesta semana. E mesmo assim gera desconfianças, com parte da torcida vendo a suspensão como uma possível medida eleitoreira, diante da aproximação do pleito rubro-negro no fim do ano.

Se há um saldo positivo ao Athletico Paranaense, está justamente em mostrar que a tal “Torcida Humana” não deve ser levada em frente nesses moldes por outros clubes. Se fosse tão positivo assim, dificilmente o Furacão voltaria atrás. Que exista muito a se melhorar dentro dos estádios, a diretoria atleticana encontrou uma das “soluções” mais questionáveis, como se notou pelos desdobramentos. Não à toa, muitos rubro-negros comemoraram o fim do projeto. Esperam que seja definitivo e não conte com uma recaída após as eleições.