Em mais um exemplo do quão engajada é a jovem geração de jogadores ingleses, Marcus Rashford, do Manchester United, publicou nesta segunda-feira (15) uma carta aberta a parlamentares do Reino Unido, cobrando a manutenção do auxílio alimentício a crianças britânicas que dependem de refeições gratuitas da escola para terem o que comer. No plano atual, a ajuda será interrompida durante o verão europeu, nas férias escolares.

Rashford, de apenas 22 anos, tem cada vez mais se posicionado e tomado ações diretas para contribuir para sua comunidade. Tomando como referência a sua própria infância como um de cinco filhos criados apenas pela mãe, Rashford dependia das refeições gratuitas que recebia na escola. Logo no início do isolamento social na Inglaterra devido ao Coronavírus, o atacante se juntou a uma instituição de caridade e, a partir de sua movimentação nas redes sociais, ajudou a arrecadar fundos suficientes para a distribuição de três milhões de refeições semanais para crianças vulneráveis na Inglaterra. No entanto, como escreve em sua carta nesta segunda-feira, “isso não é o bastante”.

Para basear seu argumento, Rashford traz, além de sua experiência pessoal, números atuais preocupantes na Inglaterra. No momento, 1,3 milhão de crianças estão cadastradas para receber refeições gratuitas da escola, e um quarto delas não recebeu apoio algum durante a crise sanitária do Coronavírus. O número de crianças em uma sala de aula em situação de pobreza também é alarmantemente alto: 9 a cada 30. E os valores pioram quando levamos em conta apenas crianças negras ou de minorias étnicas: 45% delas estão em situação de pobreza. “Essa é a Inglaterra em 2020”, lamenta Rashford.

É neste cenário, piorado diante da crise econômica consequente da crise sanitária, que o governo britânico planeja suspender o plano de auxílio atual às crianças. Com as escolas fechadas, esses estudantes registrados no programa de refeições gratuitas vinham recebendo vouchers para supermercados, e é aí que está a principal demanda do atacante de 22 anos.

“O Governo assumiu uma abordagem de ‘o que for preciso’ para a economia. Peço a vocês, hoje, que estendam esse mesmo raciocínio à proteção de todas as crianças vulneráveis na Inglaterra. Eu os incentivo a ouvir suas súplicas e a encontrar sua humanidade. Por favor, reconsiderem sua decisão de cancelar o programa de voucher de alimentação durante as férias de verão e garantam sua extensão.”

Em sua carta, Rashford conta ter recebido um tuíte de um parlamentar que dizia que “era para isso que existe um sistema de benefícios”. De maneira direta, o atacante desarmou o argumento: “Estou plenamente ciente do programa de Crédito Universal e estou plenamente ciente de que a maioria das famílias que se inscrevem estão passando por atrasos de cinco semanas. O Crédito Universal simplesmente não é uma solução para o curto prazo. Eu também sei, de conversas que tenho com as pessoas, que existe um limite de duas crianças por família, o que significa que alguém com a minha mãe só poderia ter coberto o custo de dois de seus cinco filhos”.

Rashford lembra que, embora hoje seja conhecido por números como gols, assistências e convocações, se não tivesse tido uma rede de apoio tão firme de sua comunidade, faria parte de outras estatísticas hoje, como a de 200 mil crianças que deixaram de ter uma refeição durante a quarentena por falta de dinheiro. “Dez anos atrás, eu teria sido uma dessas crianças, e vocês nunca teria ouvido minha voz e visto minha determinação de me tornar parte da solução.”

“Como um homem negro de uma família de baixa renda de Wythenshawe, Manchester, eu poderia ter sido apenas mais uma estatística. Em vez disso, graças às ações altruístas de minha mãe, minha família, meus vizinhos e meus treinadores, as únicas estatísticas com que sou associado são gols, jogos e convocações. Eu estaria sendo injusto comigo mesmo, com minha família e minha comunidade se eu não me posicionasse hoje aqui com minha voz e minha plataforma, lhes pedindo por ajuda”, completou Rashford.

Para ler a carta na íntegra, em inglês, você pode conferir o texto original no tuíte abaixo do jogador. O perfil Marcus Rashford Brasil, no Twitter, traduziu a carta, e incluímos a publicação ao final desta nota.