Ídolo do futebol italiano e hoje treinador do Guangzhou Evergrande, da China, Fabio Cannavaro tem vivido a crise do coronavírus como poucos. Habitando o país em que a pandemia se iniciou, pôde ver de perto o erro da subestimação, mas presenciou também mais cedo as medidas para remediar a situação. Tudo para, no fim, ver seu próprio país cometer com mais gravidade os mesmos erros iniciais e pagar por isso. Nesta terça-feira (31), em carta aberta ao povo italiano publicada no Players’ Tribune, Cannavaro fez um apelo aos conterrâneos, acenando às grandes conquistas da Azzurra: “lutemos juntos”.

Cannavaro iniciou sua carta lamentando a situação em que a Itália se encontra e lembrando que “ninguém está imune ao vírus”. Em números oficiais, o país é o que mais teve vítimas fatais da Covid-19, 11.591, seguido por Espanha (8.269) e Estados Unidos (3.400). O ex-zagueiro pontuou que o caminho é o da união.

“O que está acontecendo com o nosso país no momento está me enchendo de ansiedade e dor. Não dá para descrever o quão horrível é ver a Itália sofrer assim, ver tantas vidas perdidas todos os dias. Meu coração está com todas as pessoas que foram afetadas, especialmente aquelas que perderam alguém de quem eram próximas.

Também quero saudar os funcionários médicos que estão trabalhando duro para salvar o máximo de vidas possível. Vocês são os verdadeiros heróis de que nosso país precisa agora.

Infelizmente, no entanto, a realidade é que nenhum de nós é o Super-Homem. Nenhum de nós está imune a este vírus. E, ainda assim, quando esta epidemia surgiu na China, senti que nós, italianos, ficaríamos bem. Como se todos estivéssemos pensando: bom, pelo menos não vai me afetar.

Como estávamos errados.

Mas agora que estamos no meio desta batalha, precisamos lutá-la juntos. E isso significa trazer a melhor versão de nós mesmos.”

Fazendo um paralelo com o futebol e as conquistas que ele pôde vivenciar, Cannavaro exaltou a união que o país é capaz de mostrar em Copas do Mundo e pediu que o mesmo aconteça neste momento em que tantas vidas estão em jogo.

“Claro, todos nós sabemos que a Itália é um país incrível. Temos uma costa deslumbrante e uma paisagem rural pitoresca. Temos um clima que nos permite passar muito tempo ao ar livre. Temos a moda, temos a comida. Mas a vida na Itália é tão boa que às vezes temos a tendência de repousar sobre os nossos louros. Às vezes cuidamos das nossas próprias coisas em vez de pensarmos no bem comum. E, quando fazemos isso, estamos desperdiçando nosso potencial.

Felizmente, porém, também há momentos em que realmente decidimos mostrar nosso orgulho — e esses momentos tendem a ser quando as coisas estão difíceis. Quando há algo importante em jogo.

Já vivi isso muitas vezes, e os melhores exemplos que me vêm à cabeça são quando a Itália disputou uma Copa do Mundo. Talvez isso pareça uma coisa estranha de se dizer em um momento em que o esporte parece mais trivial do que nunca. Mas, como todos sabemos, o futebol é mais do que apenas um esporte na Itália. Quando a seleção joga, todos se sentem parte dela. Todos se juntam.

E quando os italianos se juntam, tendemos a nos sair bem.

Neste momento, precisamos desse mesmo espírito de unidade indestrutível como país. Já vimos alguns grandes exemplos de solidariedade. A frase andrà tutto bene — tudo vai ficar bem — é uma mensagem de apoio àqueles que estão presos em casa, àqueles que estão assustados, solitários ou deprimidos. As pessoas saíram às suas varandas para aplaudir os nossos funcionários médicos. Vizinhos cantaram canções juntos. Este é o tipo de união de que precisamos.”

Por fim, Cannavaro encerrou sua mensagem com o lembrete sóbrio de que haverá uma batalha dura pela frente também quando o vírus for derrotado, mas que esta luta ainda está por vir, e muito ainda pode ser feito no momento. E este foi o gancho para o que motivou sua carta: ao lado de seus colegas campeões do mundo em 2006, o ex-zagueiro iniciou uma campanha de arrecadação de fundos para hospitais italianos em sua luta contra a Covid-19.

“Quando esta crise tiver acabado, a Itália será diferente. Muitos terão perdido seus empregos. Alguns terão perdido seus negócios. Haverá muito trabalho duro a ser feito. Só podemos torcer para que uma vacina seja disponibilizada o mais rápido possível, para que possamos colocar um fim a este pesadelo de uma vez por todas.

Até lá, precisamos simplesmente nos dedicar. Então, fiquemos em casa, passemos tempo com nossas famílias e vamos tentar ter contato direto com o mínimo de pessoas possível.

E tentemos fazer também o possível pelo bem comum. De minha parte, iniciei uma campanha de arrecadação de fundos com meus companheiros da Copa do Mundo de 2006. O dinheiro arrecadado irá para a Cruz Vermelha Italiana e será usado para abastecer hospitais na Itália com o que for preciso para derrotar o vírus. Espero que vocês se juntem a mim, fazendo uma doação.

E, se você não puder, um simples ato por seu vizinho também vale muito. Devemos todos nos lembrar que esta batalha é de equipe e que precisamos que todos se juntem.

Claro, nenhum de nós é o Super-Homem.

Porém, quando nos unimos, podemos conquistar qualquer coisa.

Mantenham-se fortes, meus irmãos e irmãs.”