Michael Owen deu uma agitada no futebol inglês nesta semana de pausa para o futebol internacional com o lançamento de sua nova autobiografia. Sem poupar palavras para relatar o que sentiu e pensou ao longo dos momentos mais importantes de sua carreira como jogador, o ex-atacante inglês mirou o canhão a antigos companheiros e chefes e um dos mais criticados foi o italiano Fabio Capello, comandante da seleção inglesa entre 2008 e 2012.

Owen contou, em trechos publicados pelo Daily Mirror, que Capello causou uma péssima impressão assim que chegou, por não conseguir falar uma palavra em inglês, e que logo percebeu que sua carreira internacional chegaria ao fim sob o comando dele.

Nota do editor: caso você leia inglês, e tenha Kindle, pode comprar a autobiografia explosiva de Michael Owen clicando abaixo. 

Michael Owen: Reboot

A Trivela pode ganhar comissão sobre a venda.

“Fabio Capello encerrou minha carreira com a Inglaterra, mas não é essa a razão que me faz achar que ele foi uma merda. Quando ele juntou a equipe para a primeira sessão, a primeira coisa que notamos é que ele era muito rígido em relação a comida e a segunda é que não falava nada de inglês. Nós nos olhamos. E eu pensei: ‘Como esse cara vai nos dizer alguma coisa?’. Eu não faço ideia por que a federação nomeou alguém que não sabia falar inglês”, disse.

Owen foi colocado no banco de reservas nos dois primeiros jogos, contra Suíça e França. Atuou apenas 45 minutos no segundo tempo contra os franceses e fez questão de deixar clara sua insatisfação à imprensa. “Àquela altura, a relutância de Fabio de me colocar como titular era uma história quente. A imprensa estava ávida, me perguntando se ele havia explicado sua decisão e, se sim, o que havia dito. Eles perceberam que eu não estava feliz”, afirmou.

“Essa era minha intenção. Minha implicação era que o motivo que ele não havia me dado nenhuma direção era muito clara: ele não poderia porque ele não falava inglês. Eu estava realmente de mau humor. Obviamente, você não precisa ser um gênio para saber que as manchetes foram bem duras contra um treinador que estava no trabalho há apenas dois jogos. E provavelmente não foi coincidência que Capello nunca mais me convocou”.

“Eu sentia que, tendo chegado como um novo treinador, Fabio sentiu que precisava mudar alguma coisa. E essa alguma coisa acabou sendo o Michael Owen. Para mim, pareceu uma tentativa de se afirmar. Não será uma surpresa se eu disser que, olhando para a passagem dele, eu faço isso com muito ressentimento. Não apenas ele interrompeu minha merecida carreira internacional sem nenhuma explicação, mas acabou sendo um dos menos eficientes treinadores ingleses. Ele foi uma merda. Na minha opinião, Fabio Capello causou danos catastróficos para a minha carreira e para o futebol inglês no geral e foi muito bem pago para fazer isso”, encerrou.

Ele não queria jogar no Newcastle

Owen é apresentado pelo Newcastle (Foto: Getty Images)

Quando estava de saída do Real Madrid, Michael Owen esperava uma proposta do Liverpool. No entanto, o Newcastle apareceu com uma proposta que agradou Florentino Pérez. O presidente merengue lhe informou que o retorno ao clube que o havia revelado seria possível somente se os Reds cobrissem aquele valor. Isso nunca aconteceu. Restaram duas opções a Owen: ficar no Santiago Bernabéu ou acertar com o Newcastle. Acabou escolhendo o segundo cenário, mas, na última hora, quase voltou atrás.

“Naquele momento, a declaração (de Pérez) foi uma adaga no coração. Eu fui apresentado a duas opções, nenhuma das quais eu particularmente gostava. Eu estava ficando cada vez mais nervoso com toda a ideia. Quando eles chegaram na minha casa, eu estava resignado com o fato de que aconteceria. O Liverpool não podia igualar a proposta do Newcastle. Do ponto de vista da minha carreira, não havia dúvidas de que uma mudança para o Nordeste era um passo para trás. Isso não era um reflexo do Newcastle especificamente. Eu teria encontrado um motivo para não acertar com qualquer clube que não fosse o Liverpool”, escreveu.

Owen contou que seu contrato continha um cláusula que o permitiria sair para o Liverpool ao fim de cada temporada. O retorno, porém, nunca se concretizou. Ele acabou atuando 79 vezes pelo Newcastle e em pouco tempo rompeu com os torcedores. Dois anos depois de assinar, saiu com uma concussão de um jogo contra o Watford, aos cantos de “que desperdício de dinheiro” das arquibancadas.

“Não nego que suas ações naquele dia mudaram as coisas para mim. Eu não estava mais nem tentando me integrar com os torcedores. Em vez disso, eu cai em uma postura mais ressentida, pensando que eu não precisava me justificar com porra de torcedores do Newcastle. E eu tenho uma memória longa. Por mais que eu tenha tido alguns bons momentos no St. James Park depois daquilo, minha relação com os torcedores foi irreparavelmente prejudicado por aquele dia no Vicarage Road. A paixão, se você pudesse chamar disso, havia quase acabado”.

Owen também afirmou que os torcedores do Newcastle são iludidos com o tamanho do seu clube. “Esse tipo de ilusão cega é especialmente verdadeira no Newcastle. É apenas um grande clube no sentido de ter muitos torcedores e um estádio grande. São historicamente não muito bem sucedidos fora de campo, o contrário na verdade, e nunca realmente ganharam muita coisa nos últimos anos”, encerrou.

Expulsão de Beckham na França foi uma decepção para todos

Beckham e Owen na Copa do Mundo de 1998 (Foto: Getty Images)

Owen compartilhou bastidores de um dos momentos mais importantes da seleção inglesa nos últimos 20 anos. Ao ser expulso contra a Argentina durante a Copa do Mundo da França de 1998, David Beckham passou de herói nacional a vilão, e abriu espaço para que o atacante se tornasse o novo queridinho da seleção inglesa.

“Começarei dizendo que David e eu sempre nos demos bem em um nível pessoal. Ele era obviamente um jogador muito talentoso. Eu sempre o admirei muito porque eu sentia que ninguém, repito, ninguém trabalhava mais duro do que David para maximizar o talento que ele tinha. Mas, depois da Copa do Mundo da França, poucos podem discordar que os nossos caminhos foram diferentes”, disse.

“O sentimento no vestiário imediatamente depois da partida foi que não havia nada a ser dito sobre sua expulsão. O que nós poderíamos dizer que mudaria alguma coisa? O dano estava feito. No entanto, algum tempo depois, descobri que Victoria (esposa de Beckham) estava decepcionada comigo. Ela sentia, me disseram, que enquanto todos os holofotes estavam em mim na Copa do Mundo, eu deveria ter publica e voluntariamente apoiado David”.

“Eu não me considerava sênior suficiente para dar um tapinha nas costas de David Beckham – vinte vezes mais famoso que eu naquele momento – e dizer: ‘levanta a cabeça, cara’. Se eu achava que as ações dele nos haviam feito perder o jogo não importava. Para mim, naquele momento, era sobre hierarquia. Eu era um dos membros mais jovens da equipe. Eu era uma criança”.

“Mas agora, com o benefício de olhar para trás, eu sinto que o que David fez provavelmente não foi para cartão vermelho. Embora tenha sido claramente premeditado, foi mais imaturo e petulante do que violento. Mas, para mim, isso quase torna as coisas piores. Tudo que posso dizer, escrevendo este livro agora, sabendo quanta sorte um jogador tem de jogar uma Copa do Mundo, sem nem falar em mais de uma, eu estaria mentindo se não dissesse que o que David fez naquele dia foi uma decepção para cada jogador do time inglês”.

“Ele mereceu o abuso que recebeu depois? Claro que não. Que ser humano precisa ver sua imagem sendo queimada? Mas David nos decepcionou e eu ainda guardo ressentimento sobre aquilo atualmente”, encerrou.

Ascensão de Rooney na seleção acabou com sua confiança

Owen com Rooney em 2004 (Foto: Getty Images)

Após a expulsão de Beckham, Owen tornou-se o principal nome da seleção inglesa, responsável pela maioria dos gols, até a chegada de Wayne Rooney. A explosão do jogador na Eurocopa de 2004 prejudicou bastante a sua confiança.

“A ascensão de Wayne Rooney como uma estrela da Inglaterra me atirou em uma crise pessoal. Desde o primeiro minuto que ele esteve com os Three Lions, ficou bem claro para todos que o garoto era um gênio. Mas, enquanto as ações de Rooney cresceram com cada gol e cada manchete, minha auto-confiança, que sempre foi sólida, pouco a pouco desapareceu. Era tão enervante. Eu sempre pensei que eu era mentalmente invencível”.

“A Eurocopa de 2004 em Portugal foi um torneio muito estranho para mim, pessoalmente. Refletindo sobre ele, foi o mais próximo de uma crise pessoal que eu tive em minha carreira como jogador. Não era inveja que eu sentia. Talvez apenas a primeira percepção de que estava acontecendo uma troca de guarda. Para mim, com 20 e poucos anos, eu senti que era uma mudança muito prematura”.

“Portugal foi onde um jovem Wayne Rooney colocou a cabeça acima do parapeito. Antes do torneio, ele havia jogado duas ou três vezes e havia rapidamente se tornado o novo queridinho do futebol inglês no processo. Tudo começou bem. Antes do torneio, fomos ao Vale do Lobo, em Algarve. Levamos nossas companheiras, ficamos em vilas nos arredores de um dos principais hotéis, e a equipe teve uma semana relaxante antes de viajarmos à nossa base em Lisboa”.

“Entre nós, Wayne era um scouser (apelido de quem nasce em Liverpool) bem atrevido que não queria aceitar as regras de hierarquia. Mesmo criança, em meus primeiros dias com a seleção inglesa, eu nunca teria dado rolinho em alguém no treino ou tentado encobrir o goleiro – mesmo que fosse a coisa certa a ser feita. Wayne não dava a mínima. Eu me lembro de um dos primeiros treinos de finalização quando ele encobriu David James com o primeiro toque na bola. Eu pensava: ‘Meu Deus, ele acabou de chegar…'”

“Wayne era tão bom que quando você o enfrentava no treino, você tinha certeza que ele era o melhor jogador que tínhamos. Quando ele fazia as coisas dele, as pessoas honestamente não sabiam se riam ou se pensavam que era brilhante. Por mais que eu pessoalmente nunca fizesse as coisas que ele fazia, Wayne era um jogador com aquela inteligência das ruas, que jogava por instinto, e a visão geral era que a criança era simplesmente um gênio. E ele provou isso no torneio.

“Eu estava em um momento muito bom quando cheguei a Portugal. Wayne entrou direto no time ao meu lado, o principal atacante naquela época. No primeiro jogo, a França marcou duas vezes no último minuto e nos venceu por 2 a 1. Quando ganhamos confortavelmente da Suíça, por 3 x 0, Wayne marcou duas vezes e eu dei assistência para ambos”.

“Depois do jogo, a atmosfera mudou. Por mais que eu ainda me sentisse o principal artilheiro, o principal jogador, a histeria em torno de Wayne era incrível. Por mais que eu me sentisse confiante na minha habilidade e estivesse jogando muito bem, comecei a duvidar do meu status. De repente, Wayne era o principal atacante e era entre eu e Darius Vassell pelo papel de coadjuvante.”

“Eu realmente duvido que Wayne tivesse qualquer ideia do que eu estava passando. Eu via nele um reflexo de quem eu era em 1998: um jovem que ignorava o mundo em torno dele. Além disso, ele tinha um espírito extremamente livre e não se preocupava com muita coisa. Pouco sabíamos, naquele momento, que aqueles quatro jogos em Portugal seriam o auge da sua carreira internacional”.

“Por mais que ele tenha tido uma grande carreira e tenha quebrado recordes, mas, se você criticar o legado de Wayne, seria por que ele nunca realmente pegou foto em grandes torneios depois disso. Eu comecei o último jogo do grupo contra a Croácia em Lisboa. Vencemos por 4 a 2 e Wayne marcou mais duas vezes. Eu não fiz gol novamente, mas dei assistências, como o suposto principal atacante, para um cara que estava essencialmente jogando atrás de mim, no papel de camisa 10”.

“Eu estava sofrendo com o fato de que – por mais que acreditasse que eu ainda representava a principal chance de gol da Inglaterra – eu não conseguia colocar a bola na rede. Depois do jogo da Croácia, pela primeira vez eu senti que perdi meu senso de propósito. Eu estava me sentindo muito mal comigo mesmo. Eu estava acostumado a sair do ônibus e ouvir os torcedores gritando: ‘Vamos, Michael, faça um gol hoje’. Eu sentia que dependiam de mim, responsável.”

“Agora, sempre que eu saia do ônibus, tudo que ouvia era ‘Rooney, Rooney’. Eu pensei, Deus, para todo mundo, ele agora é nossa melhor chance de fazer gol”.

 

Confira abaixo o vídeo mais recente de nosso canal no YouTube – aproveita e se inscreva no canal!