É possível contar uma mesma história de diferentes maneiras. Os detalhes fazem toda a diferença, conforme as visões. Por exemplo, o Santos x Independiente pelas semifinais da Copa Libertadores de 1964 pode ter diferentes nuances. Aos argentinos, aquele confronto é uma passagem de bastão. O Rojo derrotou os bicampeões do mundo com duas vitórias, de maneira inapelável, iniciando a façanha em pleno Maracanã. O resultado referendou o clube de Avellaneda para conquistar o bicampeonato da Libertadores até 1965, iniciando sua trajetória dominante no continente. Ao lado brasileiro, porém, aquele jogo deixou um gosto bastante amargo – e não apenas pela decepção. Logicamente, o Peixe ficou devendo futebol e sucumbiu a um adversário forte. Contudo, o duelo é cercado de suspeitas quanto ao favorecimento dos oponentes. Denúncias feitas já na época e que se reforçaram cinco décadas depois, com áudios de Julio Grondona admitindo a tramoia. E a história volta com força, antes de outro Santos x Independiente tumultuado nos corredores da Conmebol.

Por ser o atual bicampeão da Libertadores, o Santos entrou diretamente nas semifinais durante aquela edição de 1964. Enfrentaria o Independiente, campeão argentino no ano anterior e que havia passado por Millonarios e Alianza Lima na fase de grupos. Diante de 23 mil torcedores no Maracanã, o Santos precisou lidar com os desfalques – em lista recheada que continha Pelé, Coutinho, Mengálvio e Mauro, todos lesionados. Ainda assim, o time de Lula começou dominando a partida. Abriu dois gols de vantagem, graças a uma cobrança de falta violenta de Pepe e de um tento de Peixinho. Entretanto, o Rojo empatou ainda na primeira etapa. Por mais que Gylmar adiasse o resultado com boas defesas, Rodríguez e Bernao balançaram as redes, em noite desencontrada do capitão Zito, fora da melhor forma física. Já no segundo tempo, a pressão dos alvinegros não frutificou e os argentinos buscaram a virada por 3 a 2 no apagar das luzes, com Suárez aproveitando cruzamento de Savoy.

O segundo jogo imprimia uma pressão maior ao Santos. Ainda sem Pelé e os outros três contundidos, o time treinado por Lula teve que aturar o calor imposto por 70 mil nas arquibancadas em Avellaneda. Os santistas até começaram dominando a partida, mas logo a contenda se equilibrou e Mori abriu o placar aos 36 minutos, pouco antes de Toninho deixar tudo igual. Já no segundo tempo, Gylmar voltou a se agigantar na meta santista. Só não teve o que fazer aos 23 do segundo tempo, quando Rodriguez anotou o gol da vitória por 2 a 1. Ao final, prevaleceu a cera e a violência, com Guzman e Toninho sendo expulsos por trocarem agressões. Na decisão, o Independiente derrotou o Nacional para conquistar a taça. Eternizou o time treinado por Manuel Ernesto Giúdice e capitaneado por Jorge Alberto Maldonado.

Detalhe importante, as duas partidas foram apitadas pelo mesmo árbitro, o inglês Arthur Holland. Responsável pelo apito na final da Copa dos Campeões da Europa de 1963 e da Eurocopa de 1964, ele desembarcou na América do Sul reconhecido como um dos melhores juízes do mundo. O que não se provou em campo. No Jornal dos Sports publicado um dia depois do primeiro jogo, o renomado jornalista Geraldo Romualdo da Silva avaliou: “O juiz Mr. Arthur Holland, da Liga Inglesa, foi muito ruim: uma estrela [em tradicional avaliação de um a cinco]. Aquele pênalti que ele não deu contra o Santos desclassifica qualquer árbitro de primeira categoria”. Já na partida de volta, o problema se concentrou na atitude dos argentinos, abusando da violência e da cera. Os paulistas ainda reclamavam dos impedimentos, quase nunca marcados durante os ataques do Rojo.

“O Independiente sempre foi difícil, mas nesse jogo foi incrível. Fazia tempo que não sofríamos assim. O tempo inteiro marcaram faltas para eles. Ficamos nervosos. A bola ia e voltava para eles. Sem tirar o mérito deles, eram os melhores da Argentina. Mas a arbitragem foi tendenciosa. Reclamamos com o bandeirinha o tempo todo, principalmente no ataque, porque marcaram impedimento o tempo todo e teve muito lance duvidoso”, relembrou Lima, em entrevista ao Lance, em 2014. Já segundo Zito, os jogadores do Santos chegaram a receber golpes de cassetetes nas pernas durante a caminhada pelo túnel de acesso em Avellaneda. À Folha de S. Paulo, na última semana, Pepe apontou que “o árbitro não marcava impedimento deles e, com um time veloz, o Independiente se aproveitou bem disso”.

Na época, o Santos protestou contra a Conmebol. Foi o que evidenciou Pelé, em entrevista dias depois do jogo, quando perguntado se o clube tinha a chance de reconquistar a Libertadores em 1965: “Penso que mesmo que venhamos a ser campeões da Taça Brasil, não disputaremos a Libertadores. Pelo menos, acho que é esta a decisão que tomou a diretoria depois de saber das manobras articuladas, segundo me contaram, pelo presidente da Conmebol, Raul Colombo, visando prejudicar o time”. Apesar da ameaça, o Santos disputou a Libertadores de 1965 e caiu novamente nas semifinais, desta vez ao Peñarol.

Se Colombo participou do esquema ou não, dificilmente será provado. Entretanto, em gravação telefônica obtida em 2014, Julio Grondona admitiu ter agido nos bastidores. O antigo presidente da Associação Argentina de Futebol, na época, comandava o próprio Independiente. O sucesso do clube acabou se tornando fundamental para que o cartola se tornasse um dos homens mais poderosos do futebol mundial. Durante conversa com Abel Gnecco (diretor da Escola de Árbitros da AFA e representante argentino no Comitê de Arbitragem da Conmebol), ocorrida em maio de 2013, o mandatário apontou que “bateu o árbitro do jogo contra o Santos, juntamente com os dois bandeirinhas”.

Grondona apenas confundiu os nomes: em vez de citar Arthur Holland, fala em Leo Horn. O holandês também era um árbitro referendado na Europa e, meses antes da Libertadores, foi qualificado como o pior apitador da Taça das Nações realizada no Brasil, com inúmeras críticas na imprensa nacional. Ainda assim, comandou o jogo de ida da final continental de 1964, em Montevidéu. Foram anulados dois gols que o Nacional ainda hoje reclama terem sido legítimos. O empate sem gols abriu caminho à festa do Independiente em Avellaneda.

Mais de 54 anos depois, os entraves voltam a pairar no duelo importante pela Libertadores. Tal qual em 1964, o Santos também tem sua parcela de culpa – se naquela vez foi em campo, até o momento prevalece na organização, com o erro na escalação de Carlos Sánchez. De qualquer forma, a força do Independiente nos bastidores é assunto, desta vez com Hugo Moyano e seu canal direto com o cunhado Chiqui Tapia, atual presidente da AFA. Ligações entre passado e presente além do que o futebol pode sugerir.


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