O nome de Dragoslav Sekularac pode não ser reconhecido por tanta gente nos dias atuais, mas ele figurou entre os melhores jogadores da Europa entre as décadas de 1950 e 1960. Lenda da seleção iugoslava e considerado um dos maiores ídolos do Estrela Vermelha, o meia fez por merecer o sugestivo apelido de “Rei do Drible”. E sua fama poderia ser diferente, não fosse a interferência do próprio regime iugoslavo em sua carreira. Quando tinha 24 anos, em 1962, Sekularac esteve a ponto de fechar com a Juventus. Não pôde porque o Ministério do Interior barrou. E torna-se simbólico que, quase 60 anos depois, o sobrenome volte a aparecer na Velha Senhora. Aos 16 anos, o sobrinho-neto Kristian Sekularac foi contratado pela base bianconera.

Quando a Juventus tentou levar Dragoslav Sekularac, em 1962, ele já aparecia entre os principais jogadores do futebol europeu. O camisa 10 tinha sido tetracampeão nacional com o Estrela Vermelha, bem como liderou o clube até semifinais de Champions e ao título da Copa Mitropa. Já pela seleção, ficou com a prata olímpica em 1956 e participou da Copa do Mundo de 1958, a primeira de sua carreira. Também brilhou na Euro 1960, quando foi um dos protagonistas na campanha iugoslava até a decisão e terminou eleito à equipe ideal do torneio.

O primeiro contato de Sekularac com a Juventus aconteceu às vésperas da Copa do Mundo de 1958. Durante a preparação ao Mundial da Suécia, a Iugoslávia enfrentou a Velha Senhora durante um amistoso e venceu o timaço bianconero por 2 a 1. Sekularac fez o primeiro gol e depois recebeu os elogios de Omar Sívori, uma de suas referências no futebol. Já em 1962, às portas de mais uma Copa do Mundo, a seleção iugoslava voltou à Itália. Sekularac arrebentou durante uma partida no San Siro, quando sua equipe venceu um combinado entre Milan e Sampdoria. Dono da Fiat e presidente da Juventus, Gianni Agnelli se convenceu que deveria contratar aquele rapaz tão habilidoso.

Sekularac confirmou sua ótima fase durante a Copa de 1962. O atacante brilhou na campanha da Iugoslávia até as semifinais do Mundial. Sua atuação contra o Uruguai na fase de grupos foi tão impactante que os próprios sul-americanos o aplaudiram na saída de campo. Segundo a revista France Football, o craque mereceu “nota 11” pela partida que fez. Os iugoslavos passariam pela Alemanha Ocidental nas quartas de final, antes da eliminação para a Tchecoslováquia. De qualquer maneira, Sekularac saía em alta da competição, recebendo elogios até de Pelé. O Rei chegou a brincar se o colega tinha alguma raiz brasileira, por toda a sua facilidade nos dribles, e disse que o meia poderia jogar na própria Canarinho.

Gianni Agnelli procuraria o Estrela Vermelha depois da Copa. O encontro do dirigente italiano com Sekularac foi mediado por Aca Obradovic, então diretor técnico dos alvirrubros.  “O dinheiro que ofereceram era maravilhoso. Sabia que, se o Dr. Obradovic tinha me dito que o clube aceitou, o clube aceitou. Mas a minha transferência, de repente, se transformou em assunto de estado”, relembrou o veterano, em sua autobiografia. Caberia aos altos funcionários do regime de Josip Broz Tito definirem o que ocorreria com o camisa 10. E isso porque, entre os países comunistas da época, a Iugoslávia adotava uma política mais aberta em relação às transferências para os clubes do lado capitalista.

Oficialmente, o ministro do interior Aleksandar Rankovic foi o responsável por barrar a venda de Sekularac à Juventus. Contudo, o próprio veterano questionava essa versão. “A resposta viria de cima. Os italianos esperavam e eu não podia fazer nada. Depois me disseram que a Fiat tinha rejeitado a Iugoslávia de alguma forma um ano antes, em algum tipo de colaboração na indústria automotiva. Isso irritou as autoridades e eles viram como uma oportunidade de vingança”, recontou. “Acho que alguém se escondeu por trás de Rankovic, ele me adorava. Só sei que eu senti muito. Nunca mais fui o mesmo. Se eu fosse para a Juventus, talvez eu ganhasse a Bola de Ouro, milhões falariam sobre mim, talvez eu ganhasse um filme…”.

Dias depois, o Estrela Vermelha receberia um telegrama do Ministério do Interior: “Sekularac precisa ficar e entreter a classe trabalhadora”. O Rei do Drible seguiu no país, mas sua carreira logo entrou em declínio. No segundo semestre, o meia agrediu um árbitro durante jogo pelo Campeonato Iugoslavo e pegou um gancho de 18 meses. Isso afetou completamente sua imagem e gerou críticas sobre o seu rendimento, em tempos nos quais o Partizan Belgrado dominava a liga nacional.

Sekularac até alcançou a quarta colocação na disputa pela Bola de Ouro em 1962. Depois disso, nunca mais seria votado na premiação. Suas convocações à seleção também se tornariam mais raras e cessariam em 1966. Naquele mesmo ano, finalmente ele deixaria Belgrado. Rodou por Alemanha, França, Colômbia, Estados Unidos e Canadá, como um pouco mais de sucesso na América do Sul, onde foi campeão. Todavia, distante do que era até 1962. “Ninguém sabe o quanto eu realmente sofri por causa da transferência à Juventus”, concluiria.

Uma pena que Sekularac não poderá ver o seu sobrinho-neto reescrevendo a história na Juve. O veterano faleceu em janeiro de 2019, aos 81 anos. Durante o funeral, o irmão mais novo, Mirko (que também foi jogador), revelou à imprensa sérvia o talento de Kristian, seu neto. Se o garoto herdou ao menos uma parcela da habilidade da família, dá para imaginá-lo fazendo estrago nas defesas adversárias.

Nascido em Londres e também com nacionalidade suíça, Kristian costuma jogar na ponta esquerda ou centralizado no ataque. Segundo o site do jornalista Gianluca Di Marzio, a velocidade e os dribles são os pontos fortes do garoto de 16 anos. Além disso, ele costuma anotar muitos gols: foram 51 nas últimas duas temporadas e meia, passando pelas equipes sub-15, sub-17 e sub-18 do Servette. A Juve se antecipou e o levou para o seu time sub-17. Seria ainda mais legal se, seis décadas depois, o sobrenome de Sekularac finalmente despontasse em Turim.