A chuva impediu que Argentina e Brasil fizessem o grande clássico da rodada das Eliminatórias Sul-Americanas nesta quinta-feira. O temporal que castiga Buenos Aires deixou o campo do Monumental de Núñez parecendo um pântano e as duas seleções decidiram, em comum acordo, adiar o confronto. O jogo acabou remarcado para esta sexta, com a bola rolando a partir das 10 da noite – no Horário de Verão brasileiro.

Pois nem sempre um temporal foi empecilho suficiente para tirar brasileiros e argentinos de dentro do campo. E um dos episódios mais célebres dos 100 anos do clássico aconteceu justamente sob forte chuva, em fevereiro de 1940. Em alta desde a grande campanha na Copa do Mundo de 1938, o Brasil recebia a Argentina no Parque Antarctica, em jogo válido pela Copa Roca. E as poças d’água, que não atrapalharam as arquibancadas de lotarem com mais de 30 mil torcedores, ajudaram a Seleção a sair com empate.

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A chuva impediu o clássico de contar com um futebol vistoso. O primeiro tempo bastante pegado terminou sem gols e com muitas faltas. A bola só foi para as redes na volta do intervalo, em etapa complementar marcada ainda mais pelas confusões. Aos 26 minutos, os argentinos abriram o placar em lance contestado pelos brasileiros. Cassán acertou com o ombro o goleiro Aymoré Moreira e teria desviado a bola para dentro com o braço. Nada que o árbitro brasileiro José Ferreira Lemos, o Juca da Praia, tivesse visto no meio do aguaceiro.

Já nos minutos finais, o juizão causou a revolta na Albiceleste. Diante do lamaçal, as marcas do campo haviam sumido. E, depois que Salomón segurou Leônidas e Valussi acertou um pontapé na cabeça do atacante, o árbitro preferiu dar o pênalti, mesmo na dúvida sobre o local da falta. Os argentinos cercaram Ferreira Lemos, com Salomón bastante exaltado. Porém, o defensor acabou levando a pior. Quando estava com o dedo na cara do juiz, xingando por causa da marcação, ele tomou um soco do homem de preto. Depois disso, seus companheiros até queriam abandonar o jogo, mas foram impedidos pelos próprios cartolas argentinos. Tomaram o empate, em cobrança convertida por Leônidas, que se manteve firme em campo apesar do pontapé.

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“Eu apitava um jogo em São Paulo, entre brasileiros e argentinos, o campo com mais de um palmo d’água. De repente, apito uma falta contra os argentinos. A água tinha levado a risca da cal que demarcava a área. Não titubeei. Contei as jardas e apontei para a marca do pênalti. Salomón veio para cima de mim com seus dois metros de altura. Discretamente, dei-lhe um soco bem no meio da cara. Ele caiu duro, desmaiadinho”, contou Juca, em entrevista à revista Placar em 1972, em que relatou ainda outras vezes em que bateu em jogadores.

O jogo seguiu para prorrogação e Salomón até voltou para campo, calminho, sem causar mais problemas. Foram mais dois gols, um para cada lado. Leônidas fez mais um, enquanto Baldonedo aproveitou a jogada de Peucelle para deixar tudo igual. Em uma época na qual não existiam disputas por pênaltis, os dois times se reencontraram em partida de desempate uma semana depois, no mesmo Parque Antarctica, e a Argentina conquistou a Copa Roca graças à vitória por 3 a 0. Outra vez, o clássico foi apitado por Ferreira Lemos – que não precisou bater em ninguém.

Abaixo, o relato do Estado de S. Paulo sobre aquele jogo. O texto, no entanto, não traz detalhes da agressão do árbitro em Salomón:

bra argentina