“Estou indescritivelmente orgulhoso, ao ver como Dennis Bergkamp, Frank de Boer, Wim Jonk e Marc Overmars, entre outros, estão ocupados para fazer o Ajax retornar ao topo. Eles ainda têm um longo e tortuoso caminho a seguir, mas gostaria que eles não só atingissem seus objetivos, mas também possam dar um importante sinal para o resto do esporte holandês. O sinal de que o esporte só será bem dirigido quando os atletas se envolvem diretamente nele.”

Receber elogios dessa natureza já é bem difícil. Mais difícil ainda, quando vêm de um cidadão reconhecidamente lendário em seu país. Mas quando eles são expressos na Holanda, em praça pública, por Johan Cruyff, reconhecido por sua tendência extremada a achar chifres em cabeça de cavalo, tornam-se elogios para serem ostentados como prêmio. Pois o “Nummer 14” falou as palavras deste primeiro parágrafo, em plena coluna semanal no “De Telegraaf”. Sem dúvida, é raro ver Cruyff se derreter tanto a respeito de qualquer coisa relativa a futebol.

E o Ajax nem tem merecido tantos elogios assim. Quando nada, porque a temporada mal começou. E os Ajacieden sequer têm 100 por cento de aproveitamento no Campeonato Holandês – menos do que o Twente, único a ter vencido suas duas partidas, e, por isso, líder. O motivo dos elogios de Cruyff é que o Ajax parece ter voltado, em definitivo, a ter uma alma, a seguir suas tradições, a exibir um estilo de jogo independentemente de ganhar títulos ou não – claro, não se pode esquecer que Cruyff elogia isso porque essa mudança teve ele como agente catalisador principal.

Se o empate por 2 a 2 contra o AZ, na primeira rodada, ainda teve certo tom apagado (animado apenas pelo belo gol marcado por Kolbeinn Sigthórsson, tentando maior sequência de jogos após a lesão na temporada passada), a goleada por 6 a 1 sobre o NEC foi um belo cartão de visitas na campanha que pode levar a um tricampeonato nacional, sequência que não se vê em Amsterdã desde a temporada 1995/96. Não pelo adversário, mas sim pelo estilo que se viu.

A impressão de que o Ajax está tendo sucesso na sua volta às raízes, trazida pela vitória rotunda no De Goffert, pode ser vista a partir da escalação da equipe. No gol, um arqueiro que mostra segurança ao jogar com os pés – até maior do que com as mãos. Hoje, é Kenneth Vermeer, como já foi Heinz Stuy (o goleiro do lendário time da primeira metade da década de 1970) ou Stanley Menzo (antecessor de Van der Sar, titular na conquista da Copa Uefa 1991/92).

Outra coisa notável, no Ajax de hoje, é a ênfase no toque de bola. Raramente a equipe apresenta chutões – por mais que eles às vezes deem certo, como no segundo gol contra o NEC, quando um tiro de meta de Vermeer caiu no campo de defesa dos adversários, e nenhum dos dois zagueiros conseguiu segurar a bola, que sobrou para Christian Eriksen driblar o goleiro Gabor Babos e fazer.

Mas a semelhança maior está na quantidade de gente vinda diretamente da base. Dos escalados, apenas Lasse Schone, Theo Janssen (este, talvez de saída de Amsterdã, para o Vitesse – saída só não é certa pelas complicações surgidas na negociação) e Tobias Sana não são produtos vindos de De Toekomst. Mas, com o entrosamento aparentemente natural, mesmo estes acabam aparecendo. Como Sana, que fez um belo gol contra o NEC. E que já elogiou o novo clube: “Eles me disseram imediatamente o que esperam de mim e aonde devo melhorar. É honesto e claro, e gosto muito disso.” Diante de tal política, a contratação anunciada de Christian Poulsen soa bem estranha.

Tudo isso, guiados por ex-atletas que sabem perfeitamente como o Ajax funciona. Como Frank de Boer. Ou o auxiliar deste, Dennis Bergkamp. Ambos dirigidos por Marc Overmars, diretor de futebol. Enfim, está claro que o Ajax, após muito tempo, volta às suas raízes. Provavelmente não será suficiente para fazer o clube crescer, de novo, na Europa. Mas certamente, seguir o sistema que trouxe tantas glórias só fará bem ao clube.

Já começou

O guia da Eredivisie, aqui publicado há duas semanas, citou que a queda precoce da seleção holandesa na Eurocopa poderia interromper a situação de euforia e reação que o país vivia, no cenário interno de seu futebol. Pois bem, apenas o PSV pode-se dizer classificado à fase de grupos da Liga Europa (ou alguém crê que o Zeta, de Montenegro, descontará a desvantagem do 5 a 0 no jogo de ida?). De resto, pode-se prever mais dificuldades do que o esperado.

Em pleno De Kuip, o Feyenoord só conseguiu o empate contra o Sparta Praga no final do jogo e terá de resolver as coisas na República Tcheca. O Heerenveen, que aposta muito nesta temporada, caiu por 2 a 0 para o Molde, da Noruega, e ficou em situação difícil.

AZ e Twente ainda têm mais esperança: perderam por apenas um gol de diferença – 1 a 0 Anzhi contra os Alkmaarders, 3 a 1 para o Bursaspor contra os Tukkers -, e decidem em casa. Quem sabe ambos, que chegaram às quartas de final do torneio em 2011/12, possam salvar a honra holandesa.