O Guangzhou Evergrande recebe o Al Ahli, dos Emirados Árabes, precisando apenas de uma vitória em casa para conquistar o seu segundo título da Champions League da Ásia. Muitos brasileiros importantes estarão com a camisa vermelha do time chinês. Robinho, Paulinho e Ricardo Goulart, por exemplo, além de Luis Felipe Scolari no banco de reservas. Mas apenas um sabe o que é ser campeão asiático: Elkeson.

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O ex-jogador de Botafogo e Vitória chegou ao Guangzhou em 2013 e se firmou como o grande artilheiro do clube. Foi duas vezes artilheiro do Campeonato Chinês e o melhor jogador da última temporada. Na atual, sofreu com três lesões no mesmo local da sua perna direita e contribuiu pouco para o quinto título seguido da sua equipe – participou de apenas 16 dos 30 jogos da campanha, 11 como titular, marcou sete gols. Mas foi tricampeão nacional mesmo assim.

Sabe que será difícil o jogo contra o Al Ahli, mas tenta passar um pouco das peculiaridades da final da Champions League asiática para os companheiros. Em 2013, fez o gol do título para o Guanghzou, e poderia fazer isso novamente. Dar a Felipão um título que, segundo Elkeson, o vitorioso treinador quer muito conquistar. “Ele tem uma família Scolari aqui na China e todo mundo o respeita”, afirma, em entrevista à Trivela.

Como que está a preparação para o jogo decisivo da Liga dos Campeões asiática?

Nós tivemos uma semana muito boa de treinamentos, dedicando-se ao máximo, concentrados, atentos ao que o professor nos passou sobre o que devemos fazer nessa partida para sairmos vitoriosos. Ter muita posse de bola e aproximação. Acho que faltou isso no primeiro jogo em Dubai. Tivemos mais posse de bola, mas poucas chances de gol. Creio que, jogando no nosso estádio e diante do nosso torcedores, podemos fazer uma grande partida.

Você ficou bastante tempo machucado nesta temporada. Como está a forma física?

Infelizmente, nesta temporada, tive momentos de dificuldade. Três lesões, uma atrás da outra. Isso para o jogador é muito difícil. Você volta para o gramado, começa a treinar e sente novamente a lesão. É mais complicado, tem que voltar do zero, fazer tudo de novo. Mas estou recuperado e posso jogar essas partidas decisivas. Estou melhorando a cada dia.

As três foram no mesmo lugar?

No mesmo lugar. Na (parte) posterior da perna direita. Perdi quatro meses, a maioria dos jogos da temporada. Mas esse momento ruim já passou. Quem sabe posso finalizar o ano com o título, o que seria muito importante.

O primeiro jogo foi 0 a 0, fora de casa, contra o Al Ahli. Está confiante que o Guangzhou conquista o resultado que precisa, em casa?

Esse ano, tivemos um pouco de dificuldade jogando em casa. Empatamos muito, mas é uma final, a tensão é totalmente diferente. Vejo nos treinamentos que meus companheiros estão todos concentrados para fazer um grande jogo e conquistar (a Champions) novamente.

Você já conquistou a competição em 2013. O que você levou dessa experiência para essa nova campanha bem sucedida, chegando pelo menos na final?

Eu lembro que o primeiro jogo, na Coreia, foi um jogo muito tenso também, mas conseguimos fazer dois gols fora de casa, e isso, neste campeonato, dá uma vantagem. Naquela primeira final, conseguimos o empate por 2 a 2 fora de casa, e no nosso estádio, jogávamos pelo empate também. Consegui fazer o gol e foi uma emoção incrível ouvir o grito do torcedor naquele momento. Espero repetir essa façanha e fazer mais gols. Está todo mundo na expectativa.

Conseguiu entender o grito do torcedor também?

Não dá para entender, infelizmente. Mas você sabe que está todo mundo gritando, muito feliz com o gol.

Já aprendeu alguma coisa de chinês?

Aprendi algumas coisas. Os jogadores brasileiros já estão falando. O importante é que temos um convívio muito bom com os chineses, todos se dão bem, brincamos muito.

Como é o nível técnico da Champions League asiática em comparação com o futebol brasileiro?

O nível técnico é muito bom. Você enfrenta equipes da Ásia inteira. Os times da Coreia e do Japão são muito fortes. O futebol coreano é mais rápido e corrido. O japonês, mais técnico. Você enfrenta equipes muito difíceis. As da Austrália e do Mundo Árabe são muito fortes. Não é à toa que o Al Ahli chegou à final este ano. Enfrentamos o Seoul, que vencemos na final de 2013, e o Western Sidney, atual campeão, na fase de grupos.

Qual a grande dificuldade de disputar a Champions League da Ásia?

A maior dificuldade são as viagens, que são muito longas, e fora de casa sempre tem aquela força da torcida adversária. O clima também. Tem lugar que está muito frio, como Coreia e Austrália. Estamos acostumados com o calor porque nossa cidade é muito quente. O clima e as viagens são muito cansativos. Mas, dentro de campo, procuramos fazer nosso trabalho bem feito. Temos jogadores de muita qualidade na equipe.

Já consegue se imaginar enfrentando o Barcelona no fim do ano?

Não estamos pensando nisso agora. Precisamos vencer o Al Ahli, depois ainda temos que enfrentar uma equipe forte do México. Conquistando a Ásia, vamos nos concentrar no primeiro jogo, para depois pensar no Barcelona.

Mas nem sonhou em fazer um gol no Bravo, driblando o Piqué?

Para nós seria fantástico enfrentar o Barcelona. Acho que todo jogador quer participar de um jogo importante desse. Ainda mais os jogadores chineses, que querem um jogo importante, mas primeiro tempos que pensar nos adversários que vamos enfrentar até pegar eles.

E jogar no Barcelona, ali com Messi e Neymar, você já sonhou? Já chegou sondagem de centros mais importantes por você?

Já chegaram propostas do futebol europeu, mas não da Espanha. Do futebol italiano chegou uma proposta ano passado, mas não aconteceu. O clube achou que não era a hora de me vender. Eu estou muito feliz, renovei contrato, tenho mais quatro anos.

E para voltar ao Brasil?

Nunca recebi nenhuma sondagem para voltar ao Brasil. Não é também o meu foco. Quero fazer minha carreira fora do país, talvez voltar no final dela.

Para qual time?

Não dá para fazer escolha. Penso em voltar daqui a alguns anos, então fica difícil falar agora. Mas tenho carinho especial pelo Vitória e pelo Botafogo. Deixa as coisas acontecerem. Quem sabe aparece uma proposta de um clube de São Paulo. Eu ficaria muito feliz.

Você acompanhou a situação do Botafogo? Quando você foi para a China, o clube carioca estava bem, brigando pelas primeiras posições e tudo mais.

Acompanhei. Fiquei muito triste com a queda do Botafogo. Estou feliz porque o time fez uma grande campanha este ano. Tenho muitos amigos no Botafogo. Estou sempre acompanhando, mesmo com o fuso horário. Procuro ver os jogos, se for possível, ou os lances, no outro dia. Fiquei muito feliz com as vitórias e com os gols dos meus amigos.

Você está na China desde 2013 e já foi duas vezes artilheiro da liga chinesa. Você se adaptou bem e muito rápido, não?

Quando eu cheguei à China, contei muito com o apoio do Conca e do Muriqui. Procurei me adaptar o mais rápido possível. Lembro que cheguei à China com muito frio, e estava acostumado com o Rio de Janeiro 40 graus, como falam. No início, foi difícil. Era o que eu queria para a minha carreira, um desafio desses. Tive o privilégio de trabalhar com o Marcelo Lippi, que foi muito importante para mim. Serei sempre grato. Foi ele que apostou em mim e brigou pela minha contratação. Procurei fazer meu melhor para sempre marcar gols e ajudar minha equipe. Conseguimos conquistar a Champions da Ásia naquele ano juntos. Era o único título que ele não tinha.

Elkeson e Lippi (Foto: AP)
Elkeson e Lippi (Foto: AP)

Fixou-se como centroavante?

Com o professor Oswaldo (de Oliveira) também. Foi ele quem me lançou como atacante no Botafogo e apostou em mim. Serei muito grato a ele também. Terminei a temporada no Botafogo como atacante e artilheiro da equipe. Foi um ano especial também. Aceitei aquele desafio e fazer o que o professor Oswaldo me falou. Os gols saíram naturalmente. Hoje, virei o número 9, referência.

Sabe que a seleção brasileira está procurando um camisa 9. O melhor jogador da última temporada da China, duas vezes artilheiro da liga chinesa, campeão asiático e tricampeão chinês seria uma boa escolha?

Eu sei que é muito difícil jogar na China e ser convocado para a seleção brasileira. Como brasileiro e torcedor, sempre estou acompanhando a seleção e torcendo bastante para voltarmos a ser como éramos antes, respeitados, fazendo grandes jogos, mas não me vejo hoje na seleção brasileira, até porque há grandes jogadores em grandes ligas se destacando bem mais que eu. Fico feliz em ver o Brasil já jogando bem em Salvador (contra o Peru).

O Felipão já montou a família Scolari aí no Guanghzou? Como que é o contato com ele?

Já. Está sendo bem legal trabalhar com o Felipão. É um treinador com o qual sempre sonhei em trabalhar. Estamos procurando ouvi-lo bastante nos treinamentos, no dia a dia. Ele quer muito ser campeão da Champions da Ásia. Ele tem uma família Scolari aqui na China e todo mundo o respeita.

Qual a diferença entre ele e outro campeão do mundo, o Marcelo Lippi, com quem você também trabalhou?

O mister Lippi é mais reservado, mais fechado, e o Felipão é mais brincalhão durante os treinamentos, mas os trabalhos de campo são bem parecidos. Os dois exigem bastante dos seus atletas no treinamento, sempre cobrando a perfeição para chegar no jogo bem ciente do que é necessário ser feito.

Você também está atuando ao lado do Robinho, que despontou no futebol quando você tinha 13 anos. Ele foi uma das suas referências? Como é jogar com ele?

Com certeza. Lembro que quando o Robinho surgiu, eu estava chegando à base do Vitória. Jogar ao seu lado é mais um sonho sendo realizado. Sempre tentamos tirar alguma coisa dele nos treinamentos. É um cara sensacional, gente boa, sempre sorridente e brincando. O futebol chinês já me proporcionou muitas coisas boas, como trabalhar com grandes atletas e treinadores.

O futebol chinês mudou muito desde a sua chegada?

Evoluiu bastante. Os jogadores chineses evoluíram muito. Antigamente, não gostavam muito de se dedicar aos treinamentos. Depois que eu cheguei aqui, o mister Lippi cobrava bastante dedicação dos jogadores chineses e isso fez efeito. Hoje, eles têm outa mentalidade, dedicam-se bastante aos treinamentos, e o Felipão está mantendo essa filosofia.

E tecnicamente?

Está muito melhor, tanto é que este ano e no ano passado decidimos o título apenas na última partida. Está bem nivelado. As equipes estão se reforçando bastante, muitos jogadores estrangeiros estão vindo para o futebol chinês. Isso acrescenta bastante ao país.

E o Elkeson, o que mudou?

Acho que apenas a idade (risos). Com o passar do tempo, você amadurece e acaba se posicionando melhor dentro de campo. Procurei sempre me dedicar bastante aos treinamentos e sempre melhorar a parte física. Tecnicamente, também. Graças a Deus, no Guangzhou, temos essa estrutura, bons campos, bons treinamentos, trabalhamos com grandes profissionais. Consegui muitas coisas boas defendendo a equipe do Guangzhou nesses três anos.