Pelé ficou famoso por fazer previsões furadas, e uma das mais famosas é de que uma seleção africana venceria a Copa do Mundo ainda na década de 1990. Não deu certo, mas talvez seu maior erro não tenha sido dar um palpite tão ousado. Seu erro mesmo foi dar um palpite, qualquer que fosse, sobre equipes da África. E esse erro todos nós (sim, você também, leitor, admita!) já cometemos.

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Em diversos momentos, vemos o cenário em algum país africano e parece que está tudo acertado para, enfim, o continente formar uma elite no futebol local. Era o caso de Gana e Costa do Marfim. Os dois países apresentaram seleções fortes na última década, com jogadores de talento e taticamente mais maduros, muitos deles formados já na Europa. Com resultados interessantes nas competições de base, a sensação é de que era mais do que uma fase passageira.

Aí, vem o choque. Nas Eliminatórias para a Copa de 2018, os marfinenses apresentaram um futebol pobre tecnicamente e caíram em casa para Marrocos no jogo decisivo. Gana nem isso conseguiu: o Egito garantiu sua vaga no Mundial com antecedência e o confronto direto da última rodada só serviu para cumprir tabela. Os ganenses ficaram atrás até de Uganda.

Com isso, a África terá três representantes do norte (Egito, Marrocos e Tunísia) e apenas duas da região subsaariana (Nigéria e Senegal) na Rússia. Esse domínio da parte mediterrânea não ocorria desde 1986, quando marroquinos e argelinos pegaram as duas vagas do continente. E, por mais que cada seleção (e vale incluir Camarões, outra força local que naufragou) tenha sua particularidade, é possível fazer uma análise geral do continente e constatar que está faltando talento.

Calma, calma! Não estou dizendo que não há jogadores de talento na África subsaariana, muito menos que essa região enorme está fadada ao poço. A questão é: neste momento, há uma troca de gerações, e essa transição não tem sido tão suave quanto desejável. E se torna natural que essa turbulência acabe causando danos.

O único jogador africano a conquistar o prêmio de melhor do mundo pela Fifa ou pela Bola de Ouro da France Football foi o liberiano George Weah. Ele nunca pôde traduzir o sucesso em seus clubes (Monaco, Paris Saint-Germain, Milan e Chelsea) na sua seleção porque seus companheiros na Libéria tinham nível muito abaixo da média do continente. Ainda assim, quase conseguiu o milagre de eliminar a Nigéria da Copa de 2002.

Mas vamos baixar um pouquinho essa régua. A questão não é ser “o” melhor do mundo, porque nunca se pode exigir tanto do futebol de algum país (nem do Brasil), mas estar entre os grandes do mundo. E, aí, a África subsaariana teve vários nomes que, em seus melhores momentos, eram titulares em grandes clubes do mundo. São os casos de Eto’o, Kanu, Yayá Touré, Drogba, Yeboah, Essien, Abedi Pelé, Adebayor, Appiah e Okocha.

Ter jogadores como esses — ao lado de vários outros que também eram destaques internacionais, mas um degrau abaixo (Eboué, Amunike, Alex Song…) — faziam a diferença em momentos decisivo das Eliminatórias. Da lista do parágrafo acima, Abedi Pelé foi o único que não disputou um Mundial, até porque, durante seu auge, a classificação era muito mais difícil porque a África só tinha duas ou três vagas na Copa.

Atualmente, o grande nome do futebol da África subsaariana é o gabonês Aubameyang, que talvez fique marcado como o novo Weah na questão de insucesso por seleções por jogar praticamente sozinho por seu país. Além dele, também têm bom espaço no cenário internacional o senegalês Sadio Mané que, bem, conseguiu se classificar para a Rússia-2018 e o argelino Mahrez.

E Gana? Os irmãos Ayew ainda não atenderam às expectativas e Asamoah Gyan está em fase descendente da carreira. E a Costa do Marfim? Aurier é o nome de real destaque, já que Gervinho não virou um jogador de ponta como se esperava, Wilfried Bony não estourou e Salomon Kalou fica como remanescente da época de ouro. E Camarões? Bem, uma geração que tem como pontos fortes Matip, Choupo-Moting e Aboubakar não chega a empolgar quem já teve Eto’o, N’Kono e Roger Milla.

Isso não significa que, a partir de agora, o norte da África dominará o continente. O fracasso da Argélia, com uma ótima geração para os padrões africanos, é um sinal de como o futebol do continente é bem pouco lógico. Além disso, Gana e Costa do Marfim tem jogadores jovens que tiveram algum sucesso em competições de base, o que pode indicar uma recuperação dessas duas seleções nos próximos anos.

A Nigéria, provavelmente o melhor time africano do momento, é um exemplo de que muitos jovens promissores podem compensar a falta de uma estrela. Os jogadores mais conhecidos são o veterano Obi Mikel e Victor Moses, mas um elenco com Iwobi, Iheanacho e Musa teve força para dominar o Grupo da Morte das Eliminatórias, superando com facilidade camaroneses, argelinos e zambianos.

Essa oscilação não é rara na África. Ela ocorreu em 2006, quando as forças da época (Nigéria, Camarões e África do Sul) ficaram de fora da Copa e viram a estreias de duas potências adormecidas (Gana e Costa do Marfim) e de duas zebras (Angola e Togo) que se aproveitaram do momento.

O que estamos vendo agora não deve ser muito diferente disso. A transição de gerações fez que algumas potências da África subsaariana tivessem uma queda de qualidade e permitissem a emergência de outras equipees. Mas essa queda pode ser momentânea, como costuma ser no futebol do continente. E por isso é tão difícil e desaconselhável fazer previsões sobre o cenário africano. Viu, Pelé?

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