Alguns usam ternos, outro preferem agasalhos, sempre combinando com as cores dos seus times. Alguns são mais ofensivos, mais defensivos, outros buscam o equilíbrio de qualquer maneira. Trabalham com grandes nomes ou preferem criá-los. A discussão tática nunca esteve tão avançada e cada movimento dos treinadores é minuciosamente analisado. Eles também nunca pareceram tão importantes.

Com a evolução física e estratégica do jogo, quem consegue desenvolver sistemas para criar espaços é valorizado. Isso pode vir por meio da troca de passes, da pressão constante, do contra-ataque ou da bola parada. Não queremos entrar no mérito de qual estilo é melhor que o outro.

Com o futebol cada vez mais caro, quem consegue tornar o time competitivo graças ao coletivo, sem necessariamente enchê-lo de estrelas, também é bastante cobiçado. E com um futebol com estrelas cada vez mais auto-suficientes, administrar as vaidades de um vestiário também acaba sendo uma habilidade importante.

A Eleição Trivela dos melhores da última década chegou aos treinadores, os professores, os comandantes, aqueles que decidem como querem jogar, indicam as peças, desenvolvem os métodos ao longo da semana, escalam, motivam, substituem e, não raramente, levam a culpa quando tudo dá errado, mesmo que tenha dado errado porque o goleiro falhou ou o centroavante perdeu um gol feito.

O sistema vocês já conhecem. Pedimos ao nosso colégio eleitoral que enviasse uma lista com cinco nomes, em ordem de preferência, e pontuamos do primeiro ao quinto. Como poucos foram citados, uma ou duas menções já fizeram toda a diferença.

Veja as outras votações:

Colégio eleitoral

Felipe Portes – Revista Relvado
Mauro Beting – Esporte Interativo, UOL
Leandro Iamin – Central 3
Taynah Espinoza – Esporte Interativo
Nathalia Perez – Trivela
Mário Marra – ESPN, CBN
Renata Mendonça – Dibradoras
Bruno Formiga – Esporte Interativo
Leo Escudeiro – Trivela
Bruno Bonsanti – Trivela
Joshua Law –  Football Yellow
Douglas Ceconello – Impedimento, Globoesporte.com
Ubiratan Leal – ESPN, Trivela
Vitor Birner – ESPN, Central 3/Trivela
Paulo Júnior – Central 3
Felipe Santos Souza – Espreme a Laranja, Trivela
Victor Canedo – Globoesporte.com
Vitor Sérgio – Esporte Interativo
Matías Pinto – Central 3
Leandro Stein- Trivela
Felipe Lobo – Trivela

10º – Antonio Conte

Antonio Conte, Chelsea (Photo by Ian MacNicol/Getty Images)

Times que treinou: Siena (2010-11), Juventus (2011-14), Itália (2014-16), Chelsea (2016-18), Internazionale (2019-)
Títulos: Serie A (2011/12, 2012/13, 2013/14), Supercopa da Itália (2012 e 2013), Premier League (2016/17), FA Cup (2017/18)

Quando um clube contrata Antonio Conte, precisa estar ciente que as coisas serão do jeito dele. Não tem medo de cobrar a diretoria em público, pedir reforços ou dispensar jogadores importantes por Whatsapp – alô, Diego Costa. A relação costuma se corroer com o tempo e você provavelmente terá que engolir Victor Moses. Mas, hoje em dia, é um dos poucos treinadores que chega perto de garantir uma mudança de patamar, como a Internazionale vem testando. Obsessivo, competitivo, gosta de jogar com três zagueiros, alas rápidos e atacantes que saibam se virar sozinhos se for necessário porque a bola longa é uma das suas armas. E funciona.

Conte teve seu momento de aprendizado em clubes pequenos e chegou à Juventus depois de conquistar o acesso com o Siena. Deu início ao domínio nacional da Velha Senhora, com o primeiro tricampeonato do clube desde a década de trinta. Não ter conseguido chegar longe na Champions League, com direito a uma queda na fase de grupos atrás do Galatasaray em sua última temporada, pesou na avaliação do trabalho.

O que tirou da seleção italiana durante o ciclo da Eurocopa de 2016 fortaleceu a sua imagem de bom treinador, em contraste com o que veio antes, a campanha fraca no Brasil, e o que veio depois, sem nem conseguir vaga na Rússia. Conte classificou a tetracampeã italiana ao torneio francês, derrotou a badalada Bélgica para ser líder do grupo, encerrou a sequência de títulos da então bicampeã Espanha e perdeu apenas da Alemanha, nos pênaltis, nas quartas de final. E fez isso com Graziano Pellè e Emanuele Giaccherini entre seus titulares.

Ganhou moral para receber uma proposta da milionária Premier League. Assumiu o Chelsea após a segunda passagem de Mourinho e teve impacto imediato. Enquanto Pep Guardiola e Jürgen Klopp ainda se aclimatavam, aproveitou o vácuo para ganhar o Campeonato Inglês com folga. Na temporada seguinte, os sinais de deterioração começavam a aparecer, mas ainda deu para ganhar a Copa da Inglaterra.

Tirou um ano sabático para recuperar as energias e assumiu a Internazionale. Tornou o time mais competitivo sem demora, embora tenha ficado um pouco longe da briga pelo título antes da paralisação, e estabeleceu as bases para o crescimento nos próximos anos. Também já causou turbulências cobrando mais reforços em público, mas esse é Conte: você tem que aceitar todo o pacote.

9º – José Mourinho

José Mourinho (Foto: Getty Images)

Clubes que treinou: Real Madrid (2010-13), Chelsea (2013-15), Manchester United (2016-18), Tottenham (2019-)
Títulos: La Liga (2011/12), Copa do Rei (2010/11), Supercopa da Espanha (2012), Premier League (2014/15), Copa da Liga (2014/15 e 2016/17), Supercopa da Inglaterra (2016), Liga Europa (2016/17)

Fala muito sobre o patamar em que ele estava que, em sua década de decadência, José Mourinho conquistou oito títulos e comandou alguns dos melhores clubes do mundo. O português não é o mesmo técnico que arrebatou a Europa com o Porto, tomou a Premier League de assalto com o Chelsea e levou a Tríplice Coroa com a Internazionale. Tem uma chance no Tottenham, talvez a última nesse nível, para provar que não foi ultrapassado. Mas não foi um período apenas de desastre para Mourinho, especialmente em sua primeira metade.

Mourinho chegou ao Real Madrid em 2010 com a reputação no máximo. Havia tido a temporada perfeita com a Internazionale, e agora a missão era encarar o Barcelona de Guardiola como havia feito na semifinal da Champions League. Conseguiu mais ou menos. Levou algumas pauladas, ganhou uma Copa do Rei no confronto direto e interrompeu a sequência catalã de conquistas em La Liga com uma campanha de 100 pontos e 121 gols. Mas também houve problemas de relacionamento nos vestiários, notoriamente com Casillas e, na tentativa de parar Messi e Guardiola, Mourinho parece ter se perdido um pouco em seus conceitos.

Nunca foi um treinador retranqueiro, embora também não fosse extremamente ofensivo. Seus melhores times eram equilibrado, com excelentes defesas e também mecanismos para atacar. Havia eliminado o Barcelona com um ferrolho intransponível no Camp Nou com a Inter, mas justificado pelas circunstâncias. Havia ficado com um a menos e tinha vantagem no confronto. Aquela postura, porém, batizada de “estacionar o ônibus”, foi ficando cada vez mais comum.

Mesmo assim, os primeiros anos de volta ao Chelsea foram bons. Chegou às semifinais da Champions com um time que não deveria ter ido tão longe e na temporada seguinte conquistou a Premier League de maneira confortável. Mas o prazo de validade, sempre ali entre o terceiro e o quarto ano, chegou com força e, pela segunda vez, Mourinho foi demitido do Chelsea.

Embora não estivesse mais no auge, mantinha prestígio. Tanto que foi chamado para o emprego que sempre desejou: sentar-se na mesma cadeira de Alex Ferguson. O Manchester United estava à deriva desde a aposentadoria do escocês e o fato de que segue assim é a maior evidência de que sua passagem por Old Trafford não teve os resultados esperados. Ele acumulou mais conquistas, a maior delas a Liga Europa, e o segundo lugar na Premier League 2017/18 ainda é a melhor campanha dos Red Devils no pós-Ferguson.

A torcida rapidamente ficou cansada do futebol negativo, do clima ruim que permeava o clube, das cobranças públicas e infindáveis por mais reforços, e Mourinho chegou ao seu ponto mais baixo. O chamado do Tottenham chegou a ser surpreendente e se baseia no fato de que, mesmo deteriorando-se pouco a pouco ao longo da década, o português conseguiu continuar encontrando meios de ser campeão.

8º – Massimiliano Allegri

Allegri, técnico da Juventus (Photo by Matthias Hangst/Getty Images)

Times que treinou: Milan (2010-14), Juventus (2014-19)
Títulos: Serie A (2010/11, 2014/15, 2015/16, 2016/17, 2017/18, 2018/19), Copa Itália (2014/15, 2015/16, 2016/17, 2017/180, Supercopa da Itália (2011, 2015, 2018)

Das nove edições da Serie A disputadas desde 2010, Massimiliano Allegri ganhou seis, o que bastaria para ilustrar a qualidade do trabalho do treinador na última década, mas há um detalhe que o engrandece: uma delas foi com o Milan, o único do gigante desde 2004, e o estado do clube nos anos seguintes apenas sublinha o tamanho do feito de Allegri em sua primeira temporada no alto nível do futebol europeu.

Depois de estabilizar o Cagliari no meio da tabela, Allegri tomou as rédeas das mãos de Leonardo, o sucessor de Carlo Ancelotti, e de cara conquistou o scudetto batendo a então atual campeã Internazionale nos dois turnos. Emendou outra boa vitória sobre a rival na Supercopa, no início da temporada seguinte, mas não conseguiu acompanhar a Juventus de Antonio Conte, que começava a construir seu domínio na Serie A. E sabe o que dizem: se não pode vencê-los, junte-se a eles.

Allegri manteve o Milan nas primeiras posições nos dois anos seguintes ao título, mas acabou demitido no começo de 2014, em meio a uma temporada na qual o rossonero terminaria em oitavo. Havia feito o bastante para ser chamado pela Juventus para suceder Conte e conseguiu levar a Velha Senhora a um novo patamar. Se Conte havia conquistado três ligas seguidas, Allegri levou cinco, quatro delas acompanhadas pela copa nacional. O principal termômetro, porém, foi a Champions League, na qual a sua Juventus conseguiu chegar à final duas vezes em três anos.

Com um agravante: Allegri precisou reconstruir quase o time inteiro entre a primeira e a segunda decisão e, embora não tenha conseguido coroar seu trabalho com o título mais desejado pela Juventus no momento, encerrou sua passagem com o prestígio de um profissional da primeira prateleira.

7º – Jupp Heynckes

Rafinha, lateral direito do Bayern, com o técnico Jupp Heynckes (Photo by TF-Images/TF-Images via Getty Images)

Times que treinou: Bayer Leverkusen (2009-11), Bayern de Munique (2011-13, 2017-18)
Títulos: Bundesliga (2012/13, 2017/18), Copa da Alemanha (2012/13), Champions League (2012/13), Supercopa da Alemanha (2012)

Para ser um dos melhores treinadores da década, é saudável ter trabalhado em muitas das suas temporadas. Ou fazer uma campanha tão espetacular, tão marcante, que vale por dez. É o caso de Jupp Heynckes. Ex-jogador de sucesso, campeão europeu pelo Real Madrid, trocou o Bayer Leverkusen pelo Bayern de Munique para levar o projeto do antecessor Louis van Gaal a um outro nível – e que nível.

Foi doloroso perder a final da Champions League para o Chelsea em 2011/12, quando a ambição da diretoria bávara poderia ter sido alcançada em grande estilo com um título europeu na Allianz Arena. No entanto, algo maior estava reservado para o time de Neuer, Ribéry e Robben. O Bayern de Munique atingiu um pico de desempenho impressionante na temporada seguinte. Conquistou a Bundesliga batendo recordes, ganhou a Copa da Alemanha e chegou à final da Champions League passando por cima do Barcelona. E contra o grande rival Borussia Dortmund, completou a Tríplice Coroa com gol de Robben nos minutos finais.

Heynckes tinha 68 anos e, depois da temporada perfeita, o que mais poderia almejar além da aposentadoria? Parou em alta e abriu caminho para a chegada de Guardiola, que montaria outro time fantástico, com características diferentes. Após a decepção com Carlo Ancelotti, Heynckes aceitou o chamado para treinar o Bayern interinamente até o fim da temporada 2017/18 e – adivinha? – ganhou mais uma Bundesliga.

Apesar das tentativas da cúpula bávara de convencê-lo a permanecer, Heynckes sabia que sua missão estava mais do que cumprida.

6º – Joachim Löw

Joachim Löw, técnico da Alemanha (Foto: Getty Images)

Times que treinou: Alemanha (2006-)
Títulos: Copa do Mundo (2014), Copa das Confederações (2017)

Joachim Löw chegou à seleção alemã como o auxiliar de Jürgen Klinsmann e contribuiu para o terceiro lugar na Copa do Mundo de 2006, com a fama de ser a mente tática por trás do trabalho. Teve a chance de se provar quando o chefe e amigo assumiu o Bayern de Munique. Löw terminou a missão que os dois haviam começado juntos. Continuou a desenvolver a seleção alemã até atingir o pico com o título mundial de 2014.

Antes dos dois, a Alemanha passava por uma seca não apenas de títulos, mas também de ideias. Havia chegado à final da Copa do Mundo de 2002 meio que por acaso. Era dependente de Michael Ballack. Seu futebol era travado, duro. No Mundial que sediou, a seleção alemã já mostrou uma nova cara, com um estilos mais expansivo e jovens que empolgavam.

A trajetória não foi percorrida sem seus percalços. Löw foi vice-campeão europeu dois anos depois e repetiu o terceiro lugar na África do Sul. Aqueles jovens, como Lahm, Schweinsteiger e Podolski, estavam mais maduros e ganhavam a companhia de nomes como Neuer, Khedira, Toni Kroos e Thomas Müller. Na Eurocopa de 2012, a Alemanha fazia uma bela campanha, com 100% no grupo com Portugal, Dinamarca e Holanda e uma boa vitória contra a Grécia nas quartas de final, mas parou na Itália de Mario Balotelli, autor de dois gols naquela semifinal.

O grande momento viria dois anos depois no Brasil. Löw tentou moldar seu time à imagem do Bayern de Munique de Pep Guardiola, aproveitando que ambos compartilhavam da mesma base. O exemplo mais claro foi a utilização de Philipp Lahm no meio-campo até as oitavas de final. O sufoco necessário para passar pela Argélia foi o alerta para mudar. Deu um passo atrás, com uma escalação um pouco mais tradicional, venceu a França e chegou às semifinais contra o Brasil, time da casa.

E foi no Mineirão que os dez anos de trabalho desde a chegada de Klinsmann em 2004 atingiram o auge. A Alemanha humilhou o pentacampeão mundial, fez 7 a 1 tirando o pé e, depois, o gol de Götze na prorrogação garantiu resultados concretos ao projeto.

Löw permaneceu no comando da Alemanha e agora enfrenta uma diferente missão. Depois de ficar claro que os problemas enfrentados entre os Mundiais de 2014 e 2018 não eram mera ressaca de campeão, passou a receber fortes críticas e precisou acelerar a renovação. Tem contrato até o Mundial do Catar e mais uma chance para se provar.

5º – Marcelo Gallardo

Gallardo, do River Plate (Foto: Getty Images)

Times que treinou: Nacional (2011-12), River Plate (2014-)
Títulos: Campeonato Uruguaio (2011/12), Copa Sul-Americana (2014), Recopa Sul-Americana (2015, 2016, 2019), Copa Libertadores (2015 e 2018), Copa da Argentina (2015/16, 2016/17 e 2018/19) e Supercopa da Argentina (2017)

Ficar seis anos no comando de um clube sul-americano é raro. Fazê-lo vendendo e comprando jogador, mudando o time com frequência, e ainda assim fazer três finais de Copa Libertadores, com dois títulos, é mais raro ainda. Não é à toa que Marcelo Gallardo é o único que não trabalhou na Europa em nossa lista e fez um trabalho tão gigantesco à frente do River Plate que provavelmente poderia mudar isso com uma ou duas ligações, se quisesse.

Por enquanto, não quer, para a sorte do River Plate. Depois de ser campeão uruguaio pelo Nacional, clube em que encerrou a carreira como jogador, chegou ao Monumental de Núñez em meados de 2014 e logo de cara ganhou a Copa Sul-Americana. Passou risco de cair na fase de grupos da Libertadores no ano seguinte, mas avançou em segundo lugar e foi até o fim, conquistando o primeiro título do clube no torneio desde 1996.

Chegou a mais uma semifinal da Copa Sul-Americana e da Libertadores, em ambas perdendo para times argentinos (Huracán e Lanús), mantendo força nos mata-matas, mas sem conseguir conquistar o título argentino, um buraco em seu currículo que permanece até hoje e incomoda, principalmente por ter perdido o último na rodada final para o Boca Juniors.

Acontece que qualquer derrota para o grande rival pode ser mitigada porque Gallardo ganhou o maior clássico de todos. Precisou ser adiado, precisou ser transferido para a Espanha, mas o River Plate levantou mais uma Libertadores ao derrotar o Boca Juniors na final de 2018 e ainda retornou à decisão no ano seguinte, a primeira em jogo único, contra o Flamengo, em Lima.

Os dois gols de Gabigol impediram o tricampeonato sul-americano de Gallardo, mas nada que diminua o que ele já fez à frente do River Plate. 

4º – Zinedine Zidane

Zidane, de volta ao Real Madrid (Foto: Getty Images)

Times que treinou: Real Madrid (2016-2018, 2019-)
Títulos: Champions League (2015/16, 2016/17, 2017/18), La Liga (2016/17), Supercopa da Espanha (2017, 2020), Supercopa da Uefa (2016, 2017), Mundial de Clubes (2016, 2017)

O nível do futebol do Real Madrid de Zinedine Zidane nem sempre encantou, permite debate, mas qual outro treinador disputou apenas três edições completas da Champions League e ganhou todas elas? Não se trata de um treinador extravagante, nem na personalidade, nem no seu estilo de jogo, mas conseguiu administrar o difícil elenco merengue, equilibrar sua equipe e fazer mudanças às vezes até sutis nos momentos certos.

O Real Madrid conquistou La Décima com Carlo Ancelotti, em 2014, e o demitiu um ano depois porque… bem, porque o Real Madrid é assim. Tentou realizar um sonho antigo com Rafa Benítez, treinador competente e espanhol, mas ele não se mostrou à altura do desafio. Zidane foi promovido. Fixou Casemiro como volante para dar mais proteção ao meio-campo, conseguiu virar contra o Wolfsburg nas quartas de final e derrotou o Atlético de Madrid, nos pênaltis, para conquistar a Europa.

Por não ter enfrentado os adversários mais difíceis do mundo e pelo sufoco na decisão, as capacidades de Zidane ainda eram contestadas, mas ele não apenas confirmou o título europeu na temporada seguinte – passando por Bayern de Munique, Atlético de Madrid e Juventus, com um bom futebol – como também conquistou o Campeonato Espanhol, primeiro título do Real Madrid na competição desde 2012.

A sua terceira temporada foi mais parecida com a primeira. Os sinais de desgaste estavam claros. O Real Madrid caiu de 93 pontos para 76 em La Liga e avançou na Champions League meio que no embalo. Em Kiev, aproveitou de forma madura as falhas de Karius e a lesão de Mohamed Salah para vencer o Liverpool. E mesmo tricampeão europeu, Zidane decidiu sair por cima e anunciou que deixaria o comando do clube.

Demorou pouco para voltar. O plano de sucessão não foi dos mais bem feitos. Após Lopetegui e Solari, Zidane retornou ao Santiago Bernabéu, sem Cristiano Ronaldo e com mais liberdade para fazer as mudanças que achasse necessárias. Agora, tem que montar um novo time campeão quase que do zero, processo que estava em andamento quando a temporada foi paralisada, e o seu sucesso nessa empreitada dirá muito sobre o quão bom treinador ele realmente é.

3º – Diego Simeone

Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid (Foto: Getty Images)

 Times que treinou: Catania (2011), Racing (2011), Atlético Madrid (2011-)
Tïtulos: La Liga (2013/14), Copa do Rei (2012/13), Supercopa da Espanha (2014), Liga Europa (2011/12, 2017/18), Supercopa da Uefa (2012/2018)

Entre a Dobradinha de 1996 e a chegada de Diego Simeone, o Atlético de Madrid não caiu na completa irrelevância porque continuou revelando jogadores como Sergio Agüero e Fernando Torres e passou duas temporadas na segunda divisão, o que é relevante, embora não da maneira como o torcedor colchonero gostaria.

Quando retornou à elite, ficou na metade da tabela até chegar a hora de mudar de década. Teve uma boa campanha nas copas com Quique Sánchez Flores, finalista da Copa do Rei e campeão da Liga Europa em 2010/11. Mas foi com a chegada de Simeone, no fim de 2011, que o terceiro maior vencedor da Espanha realmente voltou a decolar.

Simeone precisou de uma temporada e meia e um mercado com bons negócios – Arda Turan, Gabi, Courtois, Tiago, Miranda, Diego, todos jogadores importantes – para colocar a máquina em funcionamento. No processo, ainda conseguiu conquistar títulos, como mais uma Liga Europa e uma deliciosa vitória sobre o rival Real Madrid na Copa do Rei.

O salto chegou em 2013/14. Não surpreendeu que o estilo de jogo pelo qual Simeone ficou famoso – como jogador e técnico – funcionou tão bem em torneios de mata-mata. Chegar à final da Champions League poderia ser interpretado como o teto, mas Simeone conseguiu manter seus jogadores concentrados e entregando tudo que tinham durante 38 rodadas para conquistar o primeiro Campeonato Espanhol do clube desde 1996.

Aquela temporada, apesar da derrota para o Real Madrid na final, foi o ápice do trabalho de Simeone. O que não quer dizer que o time não seguiu competitivo, especialmente nos mata-matas, embora nunca mais tenha se aproximado de fato de outro título em La Liga. Conseguiu mais uma final europeia, com nova derrota para o Real Madrid, e outro título da Liga Europa, antes de começar a renovar profundamente sua equipe.

Os sucessos de Simeone melhoraram significativamente o caixa do Atlético de Madrid. Não é mais um clube pobre, embora ainda distante dos principais da Europa. Ele tentou dar alguns passos para soltar sua equipe nesta temporada, o que não funcionou muito bem. Chegou à paralisação em uma espécie de limbo de identidade, ainda que empolgado por ter eliminado o Liverpool na Champions League.

O que será do Atlético de Madrid na próxima década ainda não é certo. Dependerá de bons movimentos de mercado e principalmente da permanência de Diego Simeone, sempre especulado em outros clubes. E, por enquanto, sempre permanecendo.

2º – Jürgen Klopp 

Times que treinou: Borussia Dortmund (2008-15), Liverpool (2015-)
Títulos:
Bundesliga (2011/12, 2011/12), Copa da Alemanha (2011/12), Supercopa da Alemanha (2013, 2014), Champions League (2018/19), Supercopa da Uefa (2019), Mundial de Clubes (2019)

Bonés, óculos modernos, agasalhos, saltos descontrolados, socos no ar e um sorriso acolhedor que não precisa de muito para se transformar em ira contra oficiais do apito. Os modos de Jürgen Klopp não passam solenidade. Esse é o papel do seu trabalho. Começou no pequeno Mainz, no qual passou a maior parte da sua carreira como jogador medíocre, e chegou a outros patamares nas reconstruções de Borussia Dortmund e Liverpool. Caso fosse necessário rotulá-lo, poderíamos falar da predileção por um futebol ofensivo, intenso e atraente, mas sua principal marca, especialmente na última década, foi resgatar gigantes adormecidos, mesmo que o tenha feito apenas duas vezes.

Mas foram dois grandes resgates. O Borussia Dortmund bateu na porta da falência em meados dos anos noventa e, quando decidiu oferecer o cargo de técnico ao relativamente inexperiente Klopp, mal havia dinheiro para contratar. Concretizou o sonho dos jogadores de Football Manager: foi em busca de reforços muito baratos em ligas secundárias, na América do Sul e no restante da Alemanha para montar seu elenco. E o transformou em candidato ao título por meio de um trabalho coletivo excepcional.

Pressionar a saída de bola e jogar com intensidade viraram chavões jogados aqui ou ali para tentar explicar o jogo. São conceitos base da filosofia de Klopp, o tal do gegenpressing, ou contra-pressão, mas o que o diferenciou foi a capacidade de levá-los a um outro nível, em que os jogadores os aplicam de maneira incessante e organizada, praticamente encurralando o adversário em áreas do gramado onde estão preparados para dar o bote. Com a bola recuperada, velocidade, verticalidade e criatividade.

Dizer que funcionou seria diminuir o que o seu Borussia Dortmund conseguiu fazer. Ganhou duas Bundesligas seguidas, as primeiras do clube desde 2002, não apenas com um forte ataque, mas com defesas muito sólidas. A segunda veio junto com a Copa da Alemanha para a primeira Dobradinha da história do clube e, na temporada seguinte, Klopp liderou o Dortmund à final da Champions League e a uma dolorosa derrota para o Bayern de Munique com gol de Robben nos minutos finais.

O sucesso arrumou as contas do Dortmund, mas o clube ainda não conseguia competir com os mais ricos do continente, como o Bayern de Munique, especialmente o Bayern de Munique, e todos os anos alguma estrela ia embora, obrigando Klopp a manter uma constante renovação de jogadores, e ele nem sempre acertou no recrutamento. Com a chegada de Guardiola à Allianz Arena e o domínio financeiro bávaro entrando em campo cada vez mais, os títulos rarearam, embora o Dortmund tenha se estabilizado como a segunda força da Alemanha, frequentemente fazendo o Bayern sofrer para derrotá-lo.

Os sinais de desgaste foram claros em sua última temporada, com o Dortmund chegando a passar um tempo considerável na zona de rebaixamento. Era a hora de ir embora, e a ideia era tirar um ano sabático, mas outro clube gigante estava precisando dos seus serviços, e Klopp não resistiu ao canto do You’ll Never Walk Alone – que coincidentemente também é cantando pela Muralha Amarela.

O Liverpool não estava quebrado como o Borussia Dortmund. Havia se recuperado relativamente bem desde que fora comprado por John Henry. Chegara perto do seu primeiro título inglês desde 1990 sob o comando de Brendan Rodgers, mas não soubera construir em cima daquele time. As vendas de Luis Suárez e Raheem Sterling ajudaram a reforçar o caixa, sem se transformarem em uma melhora ampla ao elenco.

O clube precisava de uma identidade e de um caminho e, sem conseguir desenvolvê-los sozinho, importou da Alemanha. O carisma de Klopp e a missão que ele tinha pela frente levantavam comparações com Bill Shankly, o pai do Liverpool moderno, e ele não demorou muito tempo para trocar as palavras por ações. Conseguiu implementar seu estilo, fez algumas partidas brilhantes, outras péssimas, um punhado de malucas e chegou a duas finais em sua primeira temporada, em ambas derrotado.

De qualquer maneira, era possível ver que uma semente havia sido plantada. Com muita água, ela cresceu, levou o Liverpool de volta à Champions League, mas faltava um clique. Ele veio na forma de Virgil Van Dijk que, junto com alguns ajustes táticos, arrumou a defesa vermelha. E os resultados começaram a aparecer: uma final de Champions, um título e uma Premier League que estava assegurada antes da paralisação.

Para isso, o estilo heavy metal ganhou alguns acordes melódicos. A regularidade de resultados veio porque o Liverpool aprendeu também a cozinhar os jogos e valorizar a posse de bola em certos momentos, o que mostra amadurecimento de Klopp. Com contrato até 2024, há a sensação de que seu sucesso em Anfield está apenas no começo.

1º – Pep Guardiola

Pep Guardiola, do Manchester City (Foto: Getty Images)

Times que treinou: Barcelona (2008-2012), Bayern de Munique (2013-16), Manchester City (2016-)
Títulos: La Liga (2010/11), Copa do Rei (2011/12), Supercopa da Espanha (2009, 2010, 2011), Champions League (2010/11), Supercopa da Uefa (2011, 2013), Mundial de Clubes (2011, 2013), Bundesliga (2013/14, 2014/15, 2015/16), Copa da Alemanha (2013/14, 2015/16), Premier League (2017/18, 2018/19), Copa da Inglaterra (2018/19), Copa da Liga Inglesa (2017/18, 2018/19, 2019/20)

Qualquer lista de grandes times da década tem pelo menos dois treinados por Pep Guardiola. A da Trivela, por exemplo. Se quiser expandir um pouco, cabe mais um. O treinador catalão tem um aproveitamento sobre-humano em duas frentes: todos os seus times jogam quase sempre bem e de maneira ofensiva; e eles são campeões, muitas e muitas vezes campeões. Guardiola disputou nove ligas nacionais ao longo da década e conquistou seis – considerando que não o fará na Premier League em andamento. Adquiriu o hábito de quebrar recordes e foi responsável por alguns dos grandes espetáculos marcados em nossa memória.

Começou com um ano de 2011 fantástico, ainda no comando do Barcelona, com a máquina muito bem azeitada e conquistando a sua segunda Champions League. Depois do auge, porém, vem a queda. As rusgas de relação, especialmente com a diretoria, acirraram-se. Guardiola tirou um ano sabático, estudou, foi para Nova York e esperou a proposta certa. Com a aposentadoria de Jupp Heynckes, teve a sorte de poder assumir um time campeão da Tríplice Coroa e, com a aposentadoria de Jupp Heynckes, teve o azar de assumir um time campeão da Tríplice Coroa.

Porque ao mesmo tempo em que tinha uma base maravilhosa com a qual trabalhar, como ele poderia levar adiante um time que havia acabado de conquistar tudo? Como dizer aos jogadores que eles deveriam mudar a maneira não apenas de jogar, como também de pensar o jogo, se eles haviam acabado de conquistar tudo? Essa foi a grande missão de Guardiola na Alemanha e há debate se ele conseguiu concretizá-la com sucesso – sim, conseguiu – ou não.

Conseguiu porque manteve a motivação dos jogadores em alta e pela primeira vez fez o Bayern ganhar quatro títulos seguidos da Bundesliga, com duas Dobradinhas. Porque convenceu-os a aceitarem o seu estilo de jogo e a executá-lo de maneira exemplar, com ajustes para o futebol alemão, e ao mesmo tempo cumpriu as ordens da diretoria bávara que queriam um time com identidade. Não conseguiu porque não foi além das semifinais da Champions League. Sofreu derrotas pesadas e sofreu questionamentos por inventar demais nos momentos decisivos.

Quem acompanhava a situação com muita atenção era o Manchester City, que havia formado sua cúpula com Ferran Soriano e Txiki Begiristain, velhos conhecidos de Camp Nou. A Premier League, tão badalada, tão milionária, aclamada como a liga mais equilibrada no topo, parecia o desafio final de Guardiola. E sua primeira temporada comprovou a tese. Com um elenco ainda distante do necessário e aprendendo as particularidades da liga, ficou em terceiro lugar, sua pior classificação desde que assumira o Barcelona – eram seis título e um vice, agora são oito títulos, um vice, sem contar a atual temporada, e esse terceiro lugar em 2016/17. Na Champions League, perdeu um duelo insano para o Monaco, ainda nas oitavas de final.

No entanto, Guardiola deu sequência à renovação de seu elenco, trouxe peças que precisava e provou de vez que consegue ter sucesso em qualquer lugar. O Manchester City de 2017/18 conquistou a Premier League com 100 pontos, recorde de vitórias consecutivas, 106 gols e uma superioridade poucas vezes vista no país. O do ano seguinte conseguiu manter o Liverpool a um ponto de distância na marra e completou a inédita Tríplice Coroa nacional com os títulos da Copa da Inglaterra e da Copa da Liga.

E a Champions League? Continuou distante. Foram duas quedas nas quartas de final, para Liverpool, em um duelo no qual o City poderia muito bem questionar algumas decisões da arbitragem, e para o Tottenham, com uma partida maluca no jogo de volta e um VAR decisivo. Como no Bayern de Munique, porém, diante de todo o resto que Guardiola conseguiu construir, o título europeu acaba sendo mais um detalhe, embora pese o fato de ele nunca ter chegado a uma final de Champions sem Lionel Messi. O que não falta é tempo para continuar tentando.

Também foram citados: 

Tite, Jorge Sampaoli, Maurizio Sarri, Óscar Tabárez e Carlo Ancelotti

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