por Bruno Bonsanti e Leonardo de Escudeiro

Gabriel Carvalho tenta disfarçar a adolescência. Usa palavras de adultos, pensamentos maduros e fala devagar, para não errar. Uma confluência de eventos improváveis apressou o que deveria ser um processo muito mais demorado. Ao invés de jogar videogame, estudar para uma prova dissertativa de Biologia ou passar a tarde inteira dormindo pelo simples prazer de poder fazer isso, o Gabriel de 15 anos virou jogador profissional de futebol no momento em que saiu do banco de reservas para defender a meta do Rio Branco, do Acre. Um peso enorme para um garoto, mais pesado ainda quatro meses depois de perder o pai, seu principal incentivador e mentor.

A vida parece ter tentado compensar Gabriel Carvalho – de certa forma em vão, obviamente, diante de uma perda irreparável. Porque uma série de eventos convergiram para que o goleiro conseguisse uma chance no gol do Rio Branco tão precocemente. Parte da equipe sub-19 do Estrelão, o garoto foi chamado para o banco de reservas do time principal porque o titular da posição, Tiago Rocha, se machucou em um acidente de moto dias antes do jogo, dando lugar a Roger Kath. Ricardo Vilar, recentemente contratado, ainda não havia sido regularizado.

O Rio Branco vencia o Vilhena por 2 a 0, pela Série D do Campeonato Brasileiro, no último domingo, quando o goleiro Kath cometeu um pênalti e foi expulso. Ao ver que a missão de segurar o resultado nos minutos restantes passaria também pelas mãos de um garoto de 15 anos, a torcida do Estrelão entendeu o papel que precisaria desempenhar naquele contexto. Gritou o nome de Gabriel enquanto o goleiro entrava em campo, e, segundo o jogador, isso fez toda a diferença.

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“Quando fui para a reserva, existia essa possibilidade de eu entrar, claro, era algo que eu queria. A expulsão prejudicou, porque ficamos com dez, mas foi um sonho para mim. Quando entrei, realmente a torcida teve um papel importante, porque me incentivou bastante. Por isso, não senti nem um pouco de nervosismo. Fiquei pensando que ficaria um placar apertado, e nós estávamos com um a menos. Mas o time em si me deu força, e eu consegui, sem nenhum tipo de nervosismo”, relembra o goleiro, em entrevista à Trivela.

A cobrança de pênalti de Caxibi acabou encontrando o fundo da rede e diminuindo a derrota do Vilhena para 2 a 1, mas Gabriel acertou o canto e por muito pouco não defendeu o chute. Parar o pênalti seria o cenário ideal do primeiro lance do garoto como jogador profissional, e ele próprio revela que essa foi a primeira coisa que passou por sua cabeça ao ser chamado para o jogo. “Quando fui para o banco, a primeira coisa em que pensei foi, no caso de um pênalti ou em uma disputa de pênaltis, eu indo (jogar). Essa era minha imaginação, para uma estreia. Não esperava isso tão cedo, claro”, comenta.

A segunda foi a lembrança do pai. “Pelo fato de ele ter sido meu principal inspirador, quem sempre me apoiava, quando surgiu essa oportunidade de ir para o banco, pensei nele. Principalmente nessa hora em que vi o goleiro expulso e tive que entrar. Pensei em como ele estaria, vendo o que fiz até ali”. O senhor Carvalho morreu vítima de câncer, quatro meses atrás, e deixou Gabriel desamparado emocionalmente. Ainda bem que, em sua casa, alguém assumiu o papel de apoiá-lo. “Foi um espanto. Nós éramos quatro: eu, minha mãe, meu irmão e ele. Ele faleceu, e ficamos só nós três. Temos a casa vazia, ele trazia alegria. Estamos lutando. Minha mãe está trabalhando, se esforçando para sustentar a casa. Era um papel dos dois, mas agora ela é pai e mãe, e passou a ser o papel dela apoiar e educar os outros”, conta.

O pai de Gabriel sempre o incentivou na busca pelo sonho de ser jogador de futebol, mas sem exercer pressão sobre o garoto. Insistia para que nunca fizesse algo de que não gostasse e assumiu uma postura de apoio irrestrito quando o filho decidiu que queria ser jogador de futebol. “Ele sempre me levava (aos jogos) e queria saber. Gostava muito do que eu fazia, eu gostava daquilo, e por isso ele me incentivava bastante”, lembra o goleiro do Rio Branco. Recuperar-se do baque de se perder um pai é difícil, sobretudo quando a relação é positiva e benéfica como a que Gabriel vivenciou. Ainda assim, o goleiro lembrou-se da força e das lições recebidas pelo pai e transformou o episódio em combustível para seguir treinando: “Fiquei mais motivado. Era uma maneira de eu agradecer por tudo o que ele fez por mim, todos os esforços”.

A oportunidade precoce e a exposição da estreia colocam Gabriel Carvalho à frente de outros goleiros de 15 anos na busca por oportunidades como profissional, mas é sua aparente maturidade, o suporte familiar e a calma que manteve diante da situação em que foi colocado que passam a impressão de que o jogador tem o equilíbrio necessário para seguir seu desenvolvimento. Ao falar da possível pressão que enfrentará por ter começado tão cedo, demonstra ter os pés no chão: “Tem que ter responsabilidade, profissionalismo, caráter. Hoje, não é só adulto que tem que ter responsabilidade, adolescentes também, no futebol e na vida. Eu vim treinando para isso, treinando de segunda a sábado, para me tornar profissional um dia. Veio muito cedo, mas graças a deus eu soube lidar com a situação. Não me abalou em nenhum sentido, mas me incentivou mais por eu estar realizando um sonho”.

Estabelecer-se como profissional é o maior objetivo de Gabriel, mas ele e sua família entendem a importância de não se fazer isso a qualquer custo. Atualmente, seu dia a dia é puxado, com a conciliação dos treinos com os estudos. O garoto passa o dia inteiro fora de casa, cursando o segundo ano do Ensino Médio pela manhã e participando dos treinamentos com a equipe principal pela tarde, rotina que tem vivido desde o início do ano. Pelo menos até o fim de 2016, será assim. Como qualquer garoto que quer viver do futebol, tem seus times dos sonhos: “Quando eu vejo os jogos, tudo o que eu queria, e falei para os meus amigos várias vezes, é jogar no Real Madrid. No Brasil, o Flamengo. Sou flamenguista”. Mas esse é apenas o objetivo maior, o último. Centrado, seu foco está mesmo no momento, que no caso é o jogo deste fim de semana, contra o Náutico de Roraima, em que estará novamente no banco de reservas.  “Eu não sei o dia de amanhã, não sei o que vai acontecer depois. Se houver (a chance de entrar novamente), estarei preparado.”