“He scores when he wants”. A simples homenagem da torcida do Arsenal se tornou um mantra na temporada passada. Quando Fàbregas e Nasri abandonaram o barco, a única opção foi depositar as expectativas em Robin van Persie. O início de 2011 já tinha se mostrado pródigo ao holandês, que, livre das lesões que o perseguiam, marcou 18 gols apenas no returno da Premier League.  E o crédito dado pelos londrinos foi correspondido com a sensação que a terceira colocação só foi possibilitada pelo poder de fogo do atacante.

Como um fantasma, o antigo grito das arquibancadas ecoou com força na mente dos Gunners neste sábado. De fato, ele marcou quando quis. Van Persie precisou de apenas um chute para abrir o placar e poderia ter feito mais, não fosse o esforço de Vito Mannone para barrá-lo. O atacante demonstrou quão distintos caminhos apontam a sequência de sua carreira e o futuro do Arsenal. Se a principal justificativa do craque em sua saída do Emirates foi a falta de ambição do clube, ela foi evidenciada durante a derrota em Old Trafford.

Os Gunners começaram a temporada de maneira irregular, mas davam sinais que poderiam sobreviver à ausência de Van Persie. Desde a derrota para o Norwich, porém, a queda de produtividade foi notável. Exceção feita ao milagre contra o Reading, ponto totalmente fora da curva, não aconteceram momentos para se orgulhar.

Ferguson apontou o jogo do sábado como um confronto “pouco comum”. Pelo histórico de rivalidade entre ele e Wenger, uma colocação bastante compreensível. O placar maquiado não correspondeu às chances de gol dos Red Devils e muito menos à passividade dos Gunners. Apesar dos seis gols de diferença, o Arsenal que engoliu os 8 a 2 em 2011 mostrou mais brio em campo do que este dos 2 a 1. Uma diferença de gols generosa com os derrotados, especialmente pelo tento de honra nos acréscimos.

Cazorla foi a maior contratação – em preço e em qualidade – desde o início da seca de títulos, com a longínqua Copa da Inglaterra de 2005. Entretanto, o Arsenal não pode ser tão dependente de seus lampejos. Falta alguém que aproveite a criatividade do espanhol, o segundo jogador que mais criou passes para finalização na EPL. Gervinho ajuda na movimentação, mas não cumpre esse papel e Giroud, apesar do empenho, erra demais. Falta um Van Persie.

Embora alguns tenham reclamado do alto valor, especialmente depois da Eurocopa, os € 30 milhões investidos pelo United hoje parecem uma pechincha. A proximidade do fim do contrato abateu o valor de mercado de Van Persie, que compensa cada centavo. São oito gols na Premier League e mais dois na Liga dos Campeões, além de quatro assistências. Nas 13 partidas em que atuou, o holandês participou diretamente de 43,75% dos tentos do time. Não à toa, as origens e o faro de gol fizeram com que Evra comparasse RvP com outro mito dos Red Devils: Ruud van Nistelrooy.

Nenhum outro jogador marcou tantos gols no futebol inglês desde o início de 2011, quando realmente alcançou um novo patamar na carreira. Van Persie balançou as redes 69 vezes no período – considerando os clubes as quatro primeiras divisões, o segundo colocado é Jordan Rhodes, do Blackburn, que fez 56 tentos, enquanto Rooney aparece em terceiro, com 50. Além disso, em apenas duas ocasiões o artilheiro ficou mais de duas partidas sem marcar pelo clube – ambas no primeiro semestre de 2012, em sequências de três e quatro jogos de jejum.

Os números também mostram a versatilidade de Van Persie dentro da área. Mesmo sendo o “ruim”, o pé direito rendeu 21 gols no período, enquanto outros sete foram marcados de cabeça. Capaz de definir em apenas um toque, o atacante dá bastante mobilidade ao ataque, característica proporcionou sua adaptação tão rápida ao lado de Rooney e permite ao United uma série de combinações ofensivas. Um poderio de ataque que pode trazer os títulos que o holandês tanto ambiciona e que não colecionou em Londres.

A boa forma também pode ajudar Van Persie a manter uma escrita na Premier League. Desde a temporada 1996/97, sempre o campeão contou com um jogador com pelo menos 20 gols. Se a prova de força do fim de semana assegurou a liderança pela primeira vez na temporada, os Red Devils podem ficar ainda mais próximos do céu pelo fato de contarem com um artilheiro em excelente fase – algo que falta a qualquer outro concorrente ao título. Restam apenas mais 12 gols para RvP chegar à marca. E, como o Arsenal bem sabe, ele pode marcar quando quiser.

 

Curtas

– Ainda no clássico de Old Trafford, outro personagem central foi André Santos. Não apenas por ter deixado o lado esquerdo da defesa desimpedido para Valencia e Rafael atacarem. O lateral teve a audácia de pedir a camisa de RvP no intervalo e causou a ira dos Gunners. Depois, tentou justificar que

– A tomada da liderança do United foi possibilitada por um dia pouco criativo do Chelsea. Roberto Di Matteo resolveu fazer uma rotação entre os titulares e as mudanças não surtiram resultado. Depois de achar o gol, os Blues se fecharam na defesa e não suportaram a blitz do Swansea.

– Outro clube que poderia ter passado o Chelsea e não aproveitou foi o Manchester City, que teve boa atuação contra o West Ham, mas ficou no empate. Os Citizens insistiram bastante no ataque, falhando demais na pontaria. No entanto, de novo o time dependeu mais da inspiração individual – principalmente de Tevez – do que de um jogo coletivo consistente.

– Quem também dependeu demais de um só jogador e tropeçou foi o Liverpool. Luis Suárez praticamente carregou o time contra o Newcastle. Outro destaque dos Reds foi Brad Jones, que cumpriu as expectativas no gol e já começa a ameaçar o posto de Pepe Reina.

– Em Londres, dois extremos. O “melhor Everton de David Moyes”, como afirmou o próprio treinador, demonstrou mais uma vez seu potencial ofensivo para virar o jogo contra o Fulham, embora tenha cedido o empate no fim. E o Tottenham se enrolou na própria ineficiência para ceder os três pontos em casa para o Wigan – uma desmotivação desnecessária para os Spurs, que pegam Man City e Arsenal nas próximas rodadas.

– O meio de semana contou com uma rodada sensacional da Copa da Liga, sobretudo pelas classificações de Arsenal e Chelsea. O título pode não ser dos mais valorizados e os elencos não são nem mesmo os titulares. Porém, o caráter da decisão em apenas 90 (ou 120) minutos potencializam as já movimentadas partidas do futebol inglês – e garantem o espetáculo.