O passe de Xavi, como de praxe, veio na medida. Rápido, rasteiro, olhando para o futuro. Fernando Torres não estava sozinho naquele momento. Pelo contrário, acompanhado por Philipp Lahm, precisava se apressar para chegar antes de Jens Lehmann. A bola só foi perfeita porque saiu em direção àquele Torres possante, de raciocínio tão rápido quanto suas pernas. Àquele Torres que farejava os gols e os anotava com enorme qualidade. El Niño em seu melhor, o homem perfeito para aquela bola e para aquele instante. Torres, de fato, ganhou de Lahm no corpo e na corrida. Também chegou antes de Lehmann, e venceu o goleiro graças a um toquinho cheio de categoria. Aos 33 minutos, o camisa 9 definiu a decisão da Euro 2008, o marco inicial de uma Espanha multicampeã. Em seu jogo mais importante, Torres eternizou seu melhor. E essa é uma lembrança que fica nesta sexta-feira, quando o veterano de 35 anos anunciou que se aposentará do futebol – ainda sem confirmar se a decisão é imediata ou se cumprirá o restante do contrato com o Sagan Tosu, pendurando as chuteiras ao final do ano.

Fernando Torres foi vários jogadores em um só. É possível dividir sua carreira em diferentes momentos, cada um representando as impressões distintas que transmitiu. A trajetória do atacante não foi uniforme como muitos apostavam, até por suas características de jogo, tão letais quando combinou o melhor de sua forma física e de seu talento. O auge do centroavante, todavia, já valeu para colocá-lo entre os melhores de seu tempo, bem como entre os melhores de todos os tempos da seleção espanhola. A Euro 2008, sobretudo, é uma prova irrefutável.

O primeiro Fernando Torres é a promessa irresistível, o garoto prodígio. O menino que chegou ao Atlético de Madrid quando tinha 14 anos e, a partir de então, começou a ser lapidado com muito esmero pelos colchoneros. Não demorou a ser considerado um dos melhores prospectos da Europa. El Niño, o fenômeno que causava vendavais na cantera, surgiu em um momento oportuno para o Atleti. Despontou no time que caíra à segunda divisão do Espanhol e deu sua contribuição para reerguê-lo na segunda tentativa de acesso. Contudo, o seu verdadeiro impacto viria já na primeira divisão, para restabelecer os rojiblancos como uma potência nacional. Era o clube de seu avô, era o clube de seu coração. Era o clube que tinha o incomparável gosto de apresentar ao mundo um grande talento. E pôde aprender com o melhor, Luis Aragonés, a velha lenda que preparou os passos do futuro ídolo.

O moral de Fernando Torres no velho Vicente Calderón era imenso. E não só pelos gols que marcava em doses consideráveis, entrando em combustão durante suas arrancadas fulminantes. Também exibia uma identidade, capitão do Atlético com apenas 19 anos. Em suas cinco primeiras temporadas em La Liga, registrou dois dígitos de gols em todas elas, recolocando os colchoneros nas competições europeias. Virou jogador de seleção, de Copa do Mundo, disputando o seu primeiro Mundial de 2006 e já como nome importante na equipe de Aragonés. De qualquer maneira, depois de resistir a diferentes investidas da Premier League, parecia impossível ao Atleti segurar por tanto tempo o seu jovem craque. Em 2007, após uma história já escrita com a camisa rojiblanca, ele fez as malas ao Liverpool.

O segundo Fernando Torres é o centroavante completo, temido por qualquer defensor. A transferência a Anfield se combinou com o ápice da forma do camisa 9. E seu impacto na Premier League se tornou imediato. Como brecar um centroavante que combina força e velocidade? Como evitar os gols de alguém que domina o jogo pelo alto e apresenta eficiência pelo chão? Torres juntava um pouco de tudo, e fazia um pouco de tudo bem. Os gols, obviamente, jorraram aos Reds. Chegou a marcar gols em oito partidas consecutivas, igualando o recorde do clube, assim como se tornou o estrangeiro com mais tentos no ano de estreia na Premier League. Foram 24 ao todo. Se não fosse o momento absurdo de Cristiano Ronaldo, era bem possível que El Niño despontasse aos grandes prêmios individuais do futebol inglês. Mas o lastro que necessitava veio meses depois, com outra camisa vermelha, a da Espanha.

A Eurocopa de 2008 se tornou a coroação sublime a Fernando Torres. O atacante formou uma dupla de ataque irresistível com David Villa, dando voracidade a um time que ainda não se resumia apenas ao toque de bola. Chegou a passar por uma breve seca na competição, mas oferecia outras armas aos companheiros. Até que o passe de Xavi o encontrasse aos 33 minutos da final em Viena, gravando o nome do centroavante também na história. Vitória sobre Alemanha, glória à Roja, taça nas mãos. Torres terminaria 2008 como terceiro na Bola de Ouro, atrás apenas de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. A forma no Liverpool o referendava, mesmo que o total de gols na segunda temporada tenha caído um pouco, atrapalhado pelas frequentes lesões musculares.

O terceiro Fernando Torres é aquele que precisou lutar contra si mesmo, empenhado e frustrado. E este capítulo talvez comece um pouco antes, ainda no Liverpool, quando precisou se submeter a duas cirurgias no joelho, em janeiro e abril de 2010. Ele retornou a tempo de disputar a Copa de 2010 e ser campeão do mundo, mas já com uma importância menor do que a imaginada, perdendo a posição na reta final da competição. O segundo semestre de 2010 deu sinais de que El Niño havia recuperado a forma, com ótimos números pelo Liverpool. Sonho antigo do Chelsea, virou objetivo número 1 dos Blues para se reerguer. Tornou-se um estratosférico negócio de £50 milhões, sexto maior da história. Stamford Bridge, entretanto, representou um ponto de virada definitivo à sua carreira.

O Torres em ebulição dos anos anteriores não mais existia. Era um jogador diferente, moldado pelos problemas físicos. As pernas não permitiam mais a explosão de outrora e ele precisou se adaptar. O ponto é que, entre o que sentia e o que não mais se via, o centroavante atravessou uma enorme crise de confiança. A etiqueta do preço o perseguia e se tornou um rótulo diante das secas de gols, das chances perdidas. Demorou para que se conformasse com a nova realidade, com as novas cobranças. O que, mesmo assim, não o impediu de se tornar ainda mais vitorioso. Durante a conquista da Champions de 2011/12, Torres merece ser lembrado como um jogador comprometido. Foi assim que ajudou a derrubar o favorito Barcelona nas semifinais. Meses depois, conquistou seu segundo título na Eurocopa, saindo do banco e anotando mais um gol na decisão. E, que seus números na Premier League fossem irrisórios, terminou como o melhor dos Blues no título da Liga Europa de 2012/13.

Naquele momento, Fernando Torres se transformou em refém de seu próprio passado, mas se esforçando para dar a volta por cima. O que não conseguiu pelo Chelsea, e muito menos em sua esquecível passagem pelo Milan. Assim, surgiu a quarta versão do centroavante, o Fernando Torres consciente de sua aura, idolatrado. O Atlético de Madrid era o único destino possível para se levantar. Os colchoneros abriram os braços diante da possibilidade de retorno, ao final de 2014, quando o clube despontava como uma potência continental. O velho craque parecia a liderança perfeita para se somar ao time de Diego Simeone, agregando qualidade ao ataque. Enfim, teve a merecida paz de espírito para se fincar entre os grandes.

Estava claro que Torres não seria o Niño do passado. E nem dá para dizer que seu retorno a Madri foi perfeito, ainda encarando algumas secas, sem aparecer absoluto entre os titulares. Apesar disso, sua presença valeu demais ao Atleti. Contribuiu com importantes gols e outros atributos para que os rojiblancos se mantivessem em alta. Deu experiência a um elenco jovem, mas extremamente calejado. Recebeu o carinho da torcida e retribuiu com a vontade de sempre ao vestir aquela camisa. Foram mais três anos e meio em Madri, coroados por mais um título da Liga Europa, no qual El Niño deu sua nova contribuição. Sua imagem erguendo a taça em Lyon precisava ser eternizada. A despedida, bela e singela, ainda contou com dois gols contra o Eibar no emocionado adeus à torcida no Wanda Metropolitana.

O último Fernando Torres é o do Atlético de Madrid. O esperado era que pendurasse as chuteiras em sua eterna casa. No entanto, sem tanto espaço no clube, o centroavante desejava jogar um pouco mais. Por isso, a etapa final de sua carreira soa mais como um apêndice. Quando garoto, o espanhol adorava assistir ao desenho “Supercampeões”, de muito sucesso em seu país. O sonho de criança virou uma das motivações para seguir ao Japão e tentar ser uma inspiração como Oliver Tsubasa. A estadia no Sagan Tosu, porém, é bem menos feliz do que se aguardava. Pouco jogou e não engrenou em um time fraco da J-League. Deu-se por satisfeito em salvá-los do rebaixamento em 2018. E com a situação ruim em 2019, sem que emendasse grande sequência, o centroavante prefere sair de cena – muito provavelmente, ao final da temporada. Ainda discutia-se uma possível ida ao México, mas, nesta sexta-feira, ele preferiu encerrar os rumores. Dará uma coletiva explicando a situação no domingo.

Fernando Torres nunca será uma unanimidade nas discussões, e muito provavelmente não pretenderá ser. Foi um grande jogador. E, como grandes jogadores, sua carreira terminou construída por altos e baixos. De lembranças boas, resta o meteoro dos tempos de Liverpool e o fomentador de sonhos no Atlético de Madrid. Sobretudo, o artilheiro que tornou possíveis as maiores ambições da Espanha. Aquele 2008 mágico prevalece para representar o ápice de El Niño, o garoto que prometeu o que cumpria quando surgiu de maneira arrebatadora na base, mesmo com a queda vertiginosa nos anos depois.