Por Andrés Lasso Ruales

Correção e edição em português de Anderson Velloso

Fotos de Romina Franceschin

Cinco depoimentos para desvendar o guru do futebol amador. Eduardo Sacheri é argentino e há 18 anos publica contos de futebol. É considerado pelos críticos do seu país o sucessor de Roberto Fontanarrosa e Osvaldo Soriano. Seus romances e contos foram publicados no Brasil, Chile, Colômbia, México, Espanha e Alemanha, entre outros lugares do mundo. Desde janeiro de 2011 conta pequenas histórias na revista argentina El Gráfico. Seu romance mais famoso é A pergunta de seus olhos (La pregunta de sus ojos) que foi levado ao cinema com o título O segredo dos seus olhos e levou o Óscar. Ajudou no roteiro da animação Mete-Gol (Pebolim), também do diretor Juan José Campanella. Atualmente, está nos cinemas argentinos com o filme Papéis ao vento (Papeles al viento) que leva o mesmo nome de seu romance publicado em 2011.

Detalhes de uma saudosista do bairro

A Avenida Corrientes nunca sossega, mas ainda não está lotada de pés acelerados e almas impacientes. Afinal, são 10h da manhã em Buenos Aires e o sol apenas começa a causar estragos. Os especialistas preveem a chegada de um verão sufocante. Bem à frente do Teatro San Martín, perto da rua Uruguai, encontra-se o café Havanna, famoso pelos seus alfajores de todas as cores e sabores. Na cafeteria portenha, aguarda uma dama com rosto de sacerdotisa celta, com a aparência de saber todas as respostas.

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Dora Apo não gosta mais de futebol depois da morte de seu marido. Não quis entrar em detalhes porque foi um momento marcante na sua vida. Apesar disso, sabe as regras do fenômeno mais popular do mundo e ensina narração oral com contos de futebol, porque além de ser mãe de uns dos jornalistas mais prestigados do futebol argentino, Alejandro Apo, é uma “contadora de histórias” formada na Venezuela, onde se exilou durante a última ditadura militar no seu país.

A senhora Apo foi uma das primeiras pessoas que leu os primeiros contos e romances de Eduardo Sacheri, cujo A pergunta dos seus olhos virou o filme O segredo dos seus olhos e ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro em 2010. A professora diz que viu o escritor apenas quatro vezes na sua vida. Mas leu todos os contos compilados que ele escreveu: Esperándolo a tito, Lo raro empezó después, Te conozco Mendizábal, La promesa, Los traidores.

“O que gosto dele é seu poder de construção com as palavras. É muito cinematográfico, bem visual nos seus contos e nos seus romances, por isso que ganhou o que ganhou”, esclareceu.

“Meu filho falou para Sacheri que antes de ler seus contos ele os entregava para mim e eu dava minha opinião sobre eles, porque como você sabe eu sou uma “contadora de histórias”. Então, cada vez que Sacheri escrevia um livro, dava-me um exemplar de presente”.

Para Apo, Sacheri, há 15 anos publicando contos e novelas pelo mundo, é um escritor completo, porque nos seus relatos sobre futebol, além de tratar do jogo, descreve o ambiente, como o bairro, a rua e as casas. “O interessante é seu jeito de categorizar a história, isso lhe dá mais qualidade literária, ele goza desse dom de colocar em cada conto uma pitada da realidade de cada pessoa”, sorri e fica em silêncio como se estivesse lembrando alguma piada.

Das histórias de futebol que mais chocaram Apo, também professora de História, está La promesa (A promessa), um relato de dois amigos que vão à procura do filho de outro colega recém falecido para irem juntos ao estádio verem o time dos seus corações. Porque enfim entendo tudo, porque agora se apaga em mim a dor da sua ausência, ou melhor, agora te encontro, e percebo que tudo faz sentido, que nós matamos aula na sétima série e que estivemos juntos nos momentos bons e ruins e que ficaste doente e que me pediste e que te prometi somente para isso, para que eu estivesse aqui agarrado ao alambrado e com a mão livre abrisse a sacola e procurasse o fundo e encontrasse bem guardada a caixinha… (Conto do compilado: La vida que pensamos, Eduardo Sacheri, Editorial Alfaguara, pág: 94 ); e quando saíram os jogadores com o glorioso distintivo que tanto amavam, jogaram as cinzas de seu amigo no campo para que seu filho pudesse presenciar.

“Há outro para mim que é mais cômico que se chama Los traidores, uma história que trata de um garoto torcedor do Deportivo Morón que se apaixona por uma menina que é simpatizante de Nueva Chicago. Nele, Sacheri leva o leitor pelo olhar do torcedor e rapidamente você se torna cúmplice da personagem”.

Os contos de futebol do escritor argentino são indispensáveis para suas aulas, diz Apo. Desde a sua volta à Argentina, percorreu um extenso caminho como professora na aventura da narração oral para o público adulto. Há dois anos, é professora na Universidade de la Plata ensinando Jornalismo Esportivo.

“Sempre mostro aos meus alunos o conto Esperándolo a Tito que me emocionou porque fala desse sentimento tão puro que é a amizade. Porém, fiz uma armadilha porque a decana me explicou: Dora eles têm que aprender a ler. Bommm!!! A tática é a seguinte: o primeiro que fiz foi ler o conto, e os meninos já tinham ouvido falar de Alejandro ou lido Eduardo, então propus desmontar o relato para que analisassem as perguntas que o escritor planejava antes de construir sua obra”, seu rosto carregado de doçura se emociona ao falar de seus pupilos.

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Enquanto o juiz olhava para cada goleiro para iniciar de uma vez por todas esse desafio memorável, Josesito, quase nas pontas de pé junto à linha do meio campo, sorriu para o ‘Bebê’, que, no entanto, olhava para Tito, com um pouco de pudor e um pouco de pânico: “E, viu, babaca…? Não que não vinha? Não que não?”, enquanto sacudia a cabeça para onde estava Tito, exibindo-o, exaltando-o, como dizendo ao rival “morra, morra de inveja, infeliz” (Conto do compilado: La vida que pensamos, Eduardo Sacheri, Editorial Alfaguara, pág: 24).

Dora Apo agradece porque os contos e a leitura foram sua saída e refúgio durante o exílio. Não pede ajuda e se levanta com sua bengala, despede-se dos garçons e diz: “Tranquilo, meu filho, eu posso fazer isso sozinha, não me ajude, muito obrigado pelo momento”.

O cauteloso camisa cinco
Eduardo Sacheri, em entrevista (Foto: Romina Francheschin)
Eduardo Sacheri, em entrevista (Foto: Romina Francheschin)

O silêncio se apoderou de um homem careca que se aproxima dos cinquenta anos. De repente, a fantasia o invade porque até sonha acordado quando escuta a palavra “Futebol”. Nós nos encontramos na sala de estar da sua casa localizada na região de Castelar, província de Buenos Aires.

Nas suas histórias existe a saudade das brincadeiras na rua, na várzea e no bairro. Eduardo Sacheri joga de quê?

“Sou um número cinco, esse jogador calado que constrói e ajuda seus colegas”, expressou o escritor, diante da sua biblioteca pessoal. Explica que para escrever precisa de um ambiente calmo. Pega a caneta, uma caderneta, e começa a traçar linhas verticais e horizontais que produzem quadros sinópticos, talvez uma figura esférica apareça pelo caminho, e claro, os livros estão sempre ao seu lado como se fossem uma bola para se aquecer antes do jogo. Só assim começa a arquitetura de uma história de futebol.

“Na universidade, eu não estudava com resumos, mas com quadros sinópticos, e quando inicio a construção de um conto repito esse esquema inconscientemente. Em geral, nunca são tão exatos, mas às vezes me ajudam e os anexo às minhas anotações e ao caderninho que você tem em mãos”, afirmou com voz grave, sempre franzindo a testa para escutar um sotaque desconhecido.

O narrador argentino começou a escrever ficção entre os 25 e 26 anos, não lembra com exatidão. E fez isso de maneira catártica porque não conseguia dormir pelas horas que seu trabalho exigia. “Dormia pouco e comecei a levar um diário e a escrever contos durante a madrugada. Nunca pensei em tudo o que aconteceu, sempre me imaginei no mundo acadêmico, gosto muito de História e me enxergava escrevendo artigos científicos”, disse e ficou em silêncio antes de dar um sorriso espontâneo quando lembrou seus 47 anos.

A tática para escrever é como um jogo ou uma guerra. É necessário estratégia, e cada soldado e jogador tem sua perícia secreta. Sacheri não destrói o que escreve, ao contrário, é um exímio corretor e um escritor precavido na hora de imprimir suas palavras. “É muito raro que eu escreva sem ter claro até onde quero ir. Gosto muito de escutar e observar ao meu redor, mas não escrevo as histórias que me contam. A minha praia é o que vem da fantasia, porém sempre precavido. O que enviei ao programa de Alejandro Apo foi pela insistência da minha mulher (Gabriela) e meus irmãos”, explicou e, ao terminar sua afirmação, seu rosto ficou vermelho como um tomate.

O narrador que Sacheri emudeceu
O narrador Alejandro Apo
O narrador Alejandro Apo

“Moçaaaaa, me traz dois cafés: um pequeno pequeno para meu amigo e um cortado para mim, e eu pago a conta”. O grito ecoa na confeitaria Giucris que se encontra na esquina de Alsina e Luis Sáenz Peña, em pleno coração de Buenos Aires. O vozeirão de uns dos narradores símbolo do futebol argentino, Alejandro Apo. Sua voz tem a característica de estremecer qualquer lugar. “No final de 1996, Sacheri me mandou o conto e eu decidi ler sem saber quem era e sem antes consultar a minha mãe, uma especialista “contadora de histórias”. Eu li ao vivo no programa da Rádio Continental Todo con Afecto e disse: terão que me desculpar. Uma homenagem maravilhosa a Diego Maradona, contou Apo.

“Quando acabei de ler, os telefonemas explodiram, meu celular era uma coisa de louco. Mamita queridaaa! Até das Malvinas nos ligaram”, emocionou-se ao relembrar aquilo que havia vivido o narrador da rádio Madre Am 530.

Para o jornalista e narrador argentino, os contos de Sacheri têm uma sensibilidade que chega até a medula. Os contos dos quais mais gostou foram Esperándolo a Tito e De chilena (De bicicleta).

Agora me lembro como se fosse hoje. Você jogava com a cinco e era dos melhorzinhos que tínhamos. Mas em todo o primeiro tempo, só o enxergava como imbecil. As poucas bolas que recebeu foram entregues aos adversários. (Conto compilado: La vida que pensamos, Eduardo Sacheri, Editorial Alfaguara, pág: 33).

“O conto que mais me comoveu de Sacheri foi “De chilena”. O irmão está morrendo e ele evoca o jogo histórico da sua adolescência quando fez um gol épico de bicicleta. Em voz uníssona, com seu irmão, vão lembrando a façanha da grande jogada. Parece que tudo vai dar errado, mas milagrosamente dá certo. É um conto fantástico. Fiquei emocionado várias vezes quando li ao vivo na rádio, a minha voz ficava embargada. Lembro uma vez que não consegui terminá-lo porque me ocorreu uma história com meu irmão e não podia continuar. Os garotos da rádio me deram força para conclui-lo”, esclareceu Apo, com um olhar perdido na memória como se o estivesse lendo nesse momento.

A caneta que inventou o mito do herói volante central na Argentina

A carreira de Sacheri como escritor de contas produziu cinco livros compilados até agora, com 80 histórias, e a metade delas é dedicada ao futebol. Depois de analisar as contas dos seus livros publicados, respira e sorri de forma tímida “Quando juntei uns quinze contos, de uns trinta que havia escrito e que foram difundidos na rádio, comecei a trabalhar com uma editora (Galerna) e tudo aconteceu graças aos ouvintes”, explicou o também torcedor fanático do Independiente de Avellaneda.

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Fiel a sua paixão, o escritor construiu algumas homenagens ao Rei de Copas argentino como Independiente, mi viejo y yo e Señor Pastoriza, ou artigos como na revista El Gráfico, Los sueños que te tocan. “O melhor gol do meu time foi em 1984 contra o Olimpia do Paraguai. Foi um gol importantíssimo porque precisávamos ganhar o mata-mata da Taça da Libertadores para passar. Foi uma jogada planejada: uma tabelinha de longo alcance do ‘Bocha’ (Ricardo Bochini) com Alejandro Barberón, e ele cruza de primeira a bola para Buffarini, que marcou. Comemorei esse gol como um louco (seus olhos meio orientais abriram-se com a emoção da lembrança). Eu gosto desses caras como Bochini que traçam retas o tempo, que têm um GPS não de si mesmos, mas de todos os demais e controlam as distâncias, os tempos, as velocidades e os outros que trabalham em silêncio para o bem do time, como os camisas cinco.

Como Perlassi, no seu romance Aráoz y la verdad (2008)?

“Sim, nesse romance nem eu mesmo sabia o que ia encontrar. Eu o escrevi em seis meses”.

Você foi um pouco visionário, já que na Copa do Mundo passada: Mascherano foi o herói silencioso da Argentina e jogava como camisa cinco. Seu Perlassi era assim e o líder do Deportivo Wilde, time de Aráoz, o personagem principal?

“Agora o que eu penso é uma coincidência, mas nesse romance descrevo o que é o volante central”.

A história foi levada ao teatro?

“Sim, por Gabriela Izcovich e foi protagonizada por Diego Peretti como Aráoz e Luis Brandoni como Lépori. Gostei muito da transposição para o palco”.

Sacheri lembra com carinho seu segundo romance depois de A pergunta de seus olhos.

“Eu gosto desse tipo de pessoa, neste caso, de esportistas, que jogam pelos companheiros. Olha! Perlassi era assim quando jogava, e durante os seus anos na estação de serviço, também ajudava qualquer um que estivesse desprotegido”, diz, com tom seguro, o escritor como se recapitulasse a construção do personagem.

Às vezes a lealdade custa caro
A diretora Gabriela Izcovich
A diretora Gabriela Izcovich

Chega tarde, pede desculpas e um cafezinho. Gabriela Izcovich senta-se na Tienda del café, no bairro Colegiales.

Izcovich é uma diretora de teatro conhecida em Buenos Aires e levou aos palcos portenhos obras de grande renome, como La música del azar, de Paul Auster, e El último encuentro, de Sándor Márai.

“Uma amiga muito querida, Ana Larrabide, me recomendou o romance de Sacheri. Quando comecei a ler, não parei. Viste! (expressão comum dos portenhos) Essas histórias que te enchem a alma. Em seguida quis entrar em contato com ele para fazer uma adaptação daquele herói caído para uma peça de teatro”, explicou a diretora de teatro.

Perlassi sorri um sorriso de capitão, de caudilho, de um cara que nunca sente medo. Perlassi sorri com o mesmo sorriso que Aráoz viu na primeira vez que seus primos lhe mostraram essa lâmina colada com clips na parede no quarto deles. (Romance: Aráoz y la verdade, Eduardo Sacheri, Editorial Alfaguara, pág:103)

“Os dois atores eram a combinação perfeita, Peretti é mais racional em sua abordagem, e Brandoni é um emocional nato. Então o público desfrutou muito, como Sacheri, que foi a um ensaio e viu a peça algumas vezes. Quando Brandoni contava sobre a final, o instante em que Perlassi correu para alcançar o ‘Tanque’ Villar, que no final fez o gol, foi muito comovente”, sorri Izcovich, evocando a sua obra.

E Perlassi sabia que o único modo de parar o atacante era dar uma porrada ou uma pancada pelas costas. Sabia que não teria nenhuma chance de roubar a bola da maneira correta. Sabia que o ‘Tanque’ ia tocar suave, rumo à primeira trave. Sabia que essa era a noite do ‘Tanque’, e que os próximos anos eram anos do ‘Tanque’. E Perlassi não deu a alma para quebrar a canela e o futuro dele. O que se podia fazer? Às vezes a lealdade custa. (Parágrafo do roteiro de Izcovich, lido por Brandoni)

O ator Luis Brandoni
O ator Luis Brandoni

Entra apressado e cumprimenta de forma rápida e cordial os funcionários do café El Socorro, localizado entre as ruas El Juncal e Suipacha, perto da mítica 9 de julio. Luis Brandoni, ator argentino, está com pressa porque às 19h apresenta sua última peça: Parque Lezama.

Senhor Brandoni, o que achou do romance Aráoz y la verdad, de Sacheri”?

“Esse jogo de mostrar um pouquinho, mas não tudo, esse estilo detetivesco da personagem, é fabuloso. Tinha cenas muito bonitas, a cena da pesca era maravilhosa (Aráoz e Lépori estão pescando, sentados em dois banquinhos dobráveis . Lépori chupa a bomba do chimarrão com força e depois passa o mate a Aráoz com um gesto de aprovação. Aráoz pega a bebida e inclina um pouco a garrafa térmica para enchê-la novamente) (Parágrafo do roteiro de Izcovich). Lépori vive uma solidão terrível e Aráoz o leva aos momentos mais felizes da sua vida, por isso começa a ter carinho por ele”, explicou o argentino torcedor do River Plate.

Segundo Brandoni, o roteiro era brilhante e o monólogo da personagem Lépori entrava e saía; e se comprometia com o público para não cessar.

Enquanto que para Izcovich, Sacheri é um narrador que gosta de jogar com as etapas da vida e isso é maravilhoso para ela. “Sua obra caracteriza-se por ir de um lado a outro, muitas vezes no presente, outras no futuro e no passado. Percorre os tempos de forma constante. Como leitora, desfrutei muito e quando o conheci. Viste! Fiquei encantada com como são os grandes: ele tem uma humildade profunda, é um escritor completo”, enfatizou a dramaturga portenha.

Não se encontraram mais, até a tarde no que o Tanque desceu do ônibus aqui no cruzamento e começou a viver. Diz isso com uma cara de dor, ou de desgosto. Deixa os pratos de novo sobre a toalha de mesa, e o silêncio é longo e espesso. E os dois ficam alguns momentos perdidos no fundo de si mesmos. No final, Aráoz pergunta: “Essa é a verdade?” (Romance: “Aráoz y la verdad”, Eduardo Sacheri, Editorial Alfaguara, pág. 220)