O clima de tensão passa pelo país todo. Estamos na véspera da eleição, o que significa escolha de rumos pelos próximos quatro anos. É inevitável que tenhamos muitas questões no ar. O que será de nós? Todos estamos preocupados com o que acontecerá a partir de 2019 e, mais do que isso, com o que veremos já nos dias seguintes à eleição, com uma nação fragmentada, cheia de questões mal resolvidas. Isso se espalha para tudo. O futebol não fica alheio a tudo isso e a CBF é um fragmento que mostra um pouco do caldo do Brasil.

Primeiro, pelo seu presidente. O novo. Rogério Caboclo foi eleito, como você pode ter lido aqui na Trivela, e também já sabe que o apelido dele é “homem do compliance” – ou seja, alguém que, na visão dos dirigentes, “enche o saco” para que tudo seja feito nas regras. Em tese, isso é bom, não é? É. E foi assim que Caboclo foi vendido: o novo, um cara preparado. Bom, mas ele é também um cara que já estava na CBF, trabalhando nos escritórios, fazendo política, enfim. E o que vemos de resultado prático da sua gestão? É difícil dizer com precisão a sua participação, mas em termos de resultado, nada de muito relevante.

O novo se elegeu mesmo sendo parte de um sistema velho, do qual se beneficiou para se eleger, inclusive: federações que têm um peso desproporcional na eleição e, no fim, são as que decidem quem ocupará a cadeira de presidente, mais que os clubes. Sem nem falar em jogadores, que estão completamente alijados desse processo pouco democrático. Caboclo, portanto, não é uma pessoa de fora do sistema, como ele e a CBF venderam: é alguém de dentro, mas com um verniz de novo.

Isso não é exatamente novo na própria CBF, por sinal. Na transição democrática que o país vivia na década de 1980, a entidade também prometia uma mudança de rumos. Um presidente jovem, que não era diretamente inserido no meio do futebol e, por isso, passou a ser visto como alguém para quebrar as relações estabelecidas, fazendo a confederação funcionar como empresa. Tinha o rótulo de “ser genro do Havelange”, mas, vejam só, isso poderia dar respaldo. Em janeiro de 1989 (um ano tão emblemático, não?), Ricardo Teixeira assumiu o poder. E as conclusões do que aconteceu a partir de então, vocês podem fazer, com um cartola que, se mudou, apenas aprimorou a máquina em processo de corrupção e favorecimentos que hoje o deixa mergulhado neste mar de lama. Não custa lembrar ainda que seu substituto foi José Maria Marin, o representante do “velho” beneficiado pelo sistema e de passado obscuro, ligado a crimes na ditadura. O homem que emprestava seu nome à sede da entidade até 2015, quando sua prisão por corrupção fez a CBF retirar a homenagem.

Sobre o presente, há um outro aspecto. Rogério Caboclo é o indicado por um nefasto como Marco Pólo Del Nero, herdeiro de Teixeira e já poderosíssimo nos tempos de Marin. Ele foi eleito para dar continuidade à gestão do seu padrinho, o que indica que dificilmente veremos algo realmente mudar. Em abril, quando a eleição foi feita (com um ano de antecedência, porque o mandato começa só em abril de 2019), Caboclo, candidato único e escolha unânime entre as federações, fez um discurso em que afirmou com todas as letras: “Estamos plenamente comprometidos com quem nos apoiou”. Capisce?

Na teoria, o presidente da CBF, atualmente, é Antonio Nunes, o Coronel Nunes. Na prática, o homem do compliance é quem dá as cartas há muito tempo. Tanto é que quem estava ao lado de Tite, técnico da seleção brasileira, dizendo que o Brasil vai sim jogar no Maracanã na final da Copa América? Ele mesmo.

Caboclo é fruto de um tipo bastante comum que temos visto na política: alguém que se vende como uma pessoa de fora do sistema, um outsider, como eles talvez se definissem. Não é um dirigente de clube de carreira (na verdade é conselheiro do São Paulo, mas, enfim, não é mesmo, isso não é preciso ser lembrado). Assim como alguns candidatos, seu patrimônio se multiplicou quando entrou para a vida de dirigente.  De 2001, quando entrou na Federação Paulista de Futebol, para 2018, quando se tornou presidente da CBF (embora seu mandato comece no próximo ano), multiplicou seu patrimônio em 15 vezes.

O apelido o ajuda nesse sentido também. Esses termos em inglês para gestão dão um ar moderno para práticas que nem sempre condizem com o verniz moderno e transparente. Caboclo é alguém que se vende como o novo, mesmo sendo intrinsecamente do sistema. Não é diferente do que vemos na política por aí.

Ao contrário dos candidatos a presidente, que ainda precisam vencer o pleito no domingo (no momento em que escrevemos), Caboclo já se elegeu. O Brasil, como país, precisa de várias reformas e mudanças. A CBF também. Só que Caboclo é fruto de um meio viciado, o esquema de apoio de federações que torna os Estaduais desproporcionalmente grandes e o calendário um imenso problema.

Edu Gaspar, o coordenador de seleções da CBF que tem menos poder que o técnico de quem é chefe, disse que a CBF está tratando da questão do calendário com Conmebol e Fifa, para que não haja mais problema. Entendo, mas o problema não é nem a Fifa, nem a Conmebol: é a própria CBF, que dá espaço demais a estaduais e não respeita as datas de jogos internacionais, de seleções.

A CBF atual vendeu os jogos da seleção para uma empresa que gerencia seus amistosos e tornou Londres a casa da seleção brasileira. Podemos chamar de Brazil. É o Brazil Global Tour. É a CBF do compliance. É o gestor que não é político. É, como escrevemos quando ele se elegeu, alguém que entra com  uma missão no comando: mudar para que tudo continue como está.