O futebol tem dessas: é uma máquina de mexer com as emoções, uma máquina de produzir o inesperado. Quem imaginaria que um garoto nascido em Guiné-Bissau e crescido em um orfanato, que costuma ser mais lembrado pelos gols perdidos do que pelos marcados, se eternizaria na Euro 2016? Para aquele que driblou tantas dificuldades ao longo da vida, dar uma finta seca na desconfiança foi até fácil. E, com o caminho livre para a oportunidade, Éder não titubeou. Fuzilou para as redes, tornou-se o herói improvável no Stade de France. O autor do gol mais importante da história do futebol português.

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O centroavante está longe de ser o melhor exemplo de qualidade técnica. É um jogador de área, daqueles que usam a sua potência física como melhor arma – e que não está imune de dar as suas engrossadas. Mesmo assim, caiu como uma luva para o jogo que se desenhou a Portugal na prorrogação. Éder ajudou a transformar a partida. Dominou as bolas pelo alto, deu mais liberdade a Nani. Ganhou confiança, algo fundamental para quem tem como ofício marcar gols – mesmo com uma média relativamente pequena em sua carreira. O camisa 9 se livrou na marra da marcação de Koscielny. De frente para o gol, arriscou de longe. Teve a força, mental e física, para vencer Lloris. Para decidir a final.

O gol de Éder, por fim, reiterou seu sentimento como um português legítimo, independente do que aponta a sua carteira de identidade. Há cinco anos, o então artilheiro da Acadêmica de Coimbra rejeitou uma proposta para defender a equipe nacional de Guiné-Bissau. Mesmo fora do radar da seleção principal naquele momento, apenas com uma convocação pelo sub-21, ele insistiu: era o seu sonho jogar por Portugal. O país onde superou obstáculos. Onde se construiu como homem.

Nascido na capital Bissau, Éderzito (como foi batizado) migrou para Portugal na infância. Entretanto, seus pais não tinham condições de criá-lo. Levaram o menino para um orfanato nos arredores de Coimbra, onde cresceu. Por lá começou a jogar futebol como uma brincadeira no recreio e, depois de quebrar algumas vidraças (além de receber alguns castigos por isso), foi levado por um professor para um teste na Adémia, clube amador da cidade. Ficou, defendendo a pequenina equipe dos 11 aos 18 anos.

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Sem a formação em uma boa estrutura de base, Éder precisou escalar a pirâmide do futebol português. Passou rapidamente pelo Oliveira Hospital, da terceira divisão, antes de chegar ao Tourizense, da segundona. Começou ganhando 400 euros por mês e, depois de três temporadas, finalmente estrearia na elite. Aos 21 anos, virou reforço da Acadêmica. Foram quatro anos na Briosa. Foi até negociado com o West Ham, mas desapareceu durante as tratativas, por discordar da maneira como as conversas eram conduzidas. Em 2012, vestiu a camisa do Braga, onde estourou e viveu seus melhores momentos. Em seu primeiro campeonato com os minhotos, marcou 13 gols em 18 partidas, até ser atrapalhado por uma lesão. Também foi convocado pela primeira vez à seleção.

A trajetória de Éder na seleção, por si, resume muitas das críticas que costuma receber. Reserva dos lusitanos na Copa de 2014, só foi marcar o seu primeiro gol pela equipe nacional em seu 18° jogo – mas logo para quebrar um jejum de 23 anos contra a Itália. Vendido ao Swansea em 2015, passou em branco em suas 15 aparições pelo clube galês. Por isso mesmo, transferiu-se ao Lille para buscar a vaga na Eurocopa. Seus seis tentos em 13 partidas na França foram decisivos. Encaminharam o camisa 9 à França e à sua façanha, apesar de todas as reclamações por sua convocação.

Durante a preparação, Éder fez gols nos amistosos contra a Noruega e contra a Estônia. Era mais uma opção tática de Fernando Santos diante das circunstâncias dos jogos, quando precisava de um centroavante rompedor. Assim, virou alternativa nos bombardeios ineficazes contra Islândia e Áustria. Seu terceiro jogo na Eurocopa foi justamente a final. E o atacante, que muitas vezes foi alvejado pelos gols feitos que perdeu, mudou a história do futebol português. Quase fez no primeiro tempo da prorrogação, parando em Lloris. Até o chute de enorme felicidade nos 15 minutos finais. Concretizou aquilo que Cristiano Ronaldo disse para motivá-lo após o fim dos 90 anos: que marcaria o gol da vitória. Marcou.

“Trabalho da melhor forma para conseguir ultrapassar essas adversidades. Desde criança que ultrapasso adversidades e isso tem sido muito importante na minha vida. Vou continuar a trabalhar e a dar o meu melhor”, declarou, antes da Euro. “Não procuro calar ninguém. O meu objetivo é apenas ajudar a seleção da melhor forma e é nisso que estou concentrado”.

O gol de Éder pode servir como símbolo de uma Eurocopa que deixou a desejar no aspecto técnico. No entanto, mais do que isso, sublinha uma grande história de vida. Como Charisteas há 12 anos, o centroavante de 28 anos talvez nunca protagonize uma temporada espetacular depois. Para os livros, isso nem importa tanto. Seu lugar está assegurado. Das vidraças do orfanato, o menino imigrante passou a quebrar as barreiras que antes pareciam intransponíveis à seleção portuguesa.


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