A realidade do futebol brasileiro como exportador de talentos é praticamente incontornável. Raros são os clubes com poder de barganha para segurar suas revelações. E, em alguns casos, não resta à torcida nada além de lamentar. Os vascaínos viram Paulinho eclodindo e mal tiveram tempo para desfrutar. O garoto sai com pouco mais de 30 partidas disputadas no profissional,um prêmio de melhor jogador do Campeonato Carioca e um punhado de grandes atuações. É um xodó, mas sem tempo hábil que realmente pudesse confirmá-lo como ídolo, apesar de todo o potencial para isso. A situação econômica do Vasco acelerou o processo, diante das necessidades. E se o clube perde aquele que poderia ser seu craque por anos, ao menos fica o desejo de que ele possa se desenvolver. O Bayer Leverkusen, ao que tudo indica, foi uma ótima escolha para o adolescente de 17 anos.

O negócio, dado como certo dias atrás, acabou oficializado por ambas as partes nesta sexta-feira. O Bayer Leverkusen deverá pagar €20 milhões pela transferência – um valor relativamente baixo, comparado com outras apostas recentes, mas que foge dos padrões do futebol alemão. É uma promessa inegável, e que tem boas chances de compensar as cifras, o que justifica o montante. Não à toa, o brasileiro se torna o segundo negócio mais caro já feito pelos Aspirinas, abaixo apenas de Lucas Alario, e também o terceiro atleta sub-20 mais caro da Bundesliga em todos os tempos.

Historicamente, o Leverkusen possui um olhar apurado para contratar prodígios. É o mecanismo utilizado para sustentar a qualidade do elenco. Os garotos garantem a competitividade do time e depois rendem um bom dinheiro com suas vendas, ajudando a buscar novas peças. E a maior prova disso está nos próprios balanços dos Aspirinas no mercado de transferências. Nas últimas cinco temporadas, por exemplo, o clube investiu €230 milhões na compra de 95 jogadores, enquanto recebeu €231 milhões na venda de 96 atletas. O equilíbrio é evidente. Mais do que isso, das 50 contratações mais caras feitas pela diretoria ao longo da história da agremiação, 43 são de futebolistas com 25 anos ou menos. É um ciclo: eles chegam jovens, atravessam parte do ápice físico no plantel, deslancham e compensam o investimento após suas transferências.

O atual elenco escancara a política. Dos 16 atletas com ao menos 15 aparições na Bundesliga até o momento, 11 chegaram ao clube antes dos 23 anos e seis ainda estão abaixo desta faixa etária. Além do mais, vale ponderar que o trabalho não se concentra apenas em descobrir talentos em mercados menores ou clubes das divisões de acesso na Alemanha. O lateral Benjamin Henrichs e o meia Kai Havertz são os melhores exemplos de que as categorias de base do Leverkusen também possuem a sua qualidade na formação. De qualquer maneira, a especialidade dos Aspirinas está mesmo na sua rede de olheiros.

Paulinho certamente considerou esta aptidão do clube para desenvolver jogadores, em um local que pode servir de degrau a passos maiores na Europa. A BayArena oferecerá uma pressão menor à sua adaptação e uma sequência de jogos para que se firme na Bundesliga, dentro de uma equipe que não tem problemas em lançar seus garotos. Embora alguns gigantes tivesse manifestado interesse no brasileiro, incluindo o próprio Bayern de Munique, ele preferiu a opção em que não corre riscos de rodar por empréstimos. Reconheceu que esta será uma etapa de transição na sua carreira, em um clube intermediário, mas que dará boas condições de trabalho e até mesmo uma possível vitrine na Liga dos Campeões.

Além disso, a ligação do Bayer Leverkusen com o Brasil também influenciou a decisão de Paulinho, como ele indicou em suas últimas declarações. O adolescente será o 23° jogador do país a defender os Aspirinas. A história começou em 1987, com o meio-campista Tita, saindo do próprio Vasco. E inclui diversos jogadores jovens que usaram o clube como porta de entrada no futebol europeu, em passagens importantes às suas afirmações. Jorginho, Paulo Sérgio, Émerson, Zé Roberto, Lúcio e Juan estão entre aqueles que deram saltos maiores após defenderem o Leverkusen – idolatrados pela torcida, todos com mais de 100 partidas disputadas. Além deles, a lista dos que tiveram relativo sucesso na BayArena ainda inclui Zé Elias, Robson Ponte, França e Renato Augusto.  No atual elenco, o lateral Wendell será o responsável a abrir as portas ao novato e ajudá-lo neste início de jornada.

O setor onde Paulinho atuará é justamente o mais qualificado do Leverkusen. Dentro do 4-2-3-1 utilizado majoritariamente na temporada, deverá se revezar na trinca de meias com Leon Bailey, Julian Brandt, Karim Bellarabi, Kai Havertz e Kevin Volland. Ainda assim, com a disputa da Liga dos Campeões em vista, será importante aos Aspirinas ampliarem suas opções, o que tende a garantir espaço ao brasileiro. E não será surpreendente se, na próxima janela de transferências, alguma das peças acabar saindo. Bailey vem sendo um dos melhores jogadores da Bundesliga na atual campanha, enquanto Brandt pode se valorizar com a Copa do Mundo, devendo compor o elenco da seleção alemã rumo à Rússia.

E, no banco de reservas, há um treinador que pode beneficiar as capacidades de Paulinho. Heiko Herrlich também foi um jovem atacante que despontou no Bayer Leverkusen durante o início dos anos 1990, antes de seguir a Borussia Mönchengladbach e Borussia Dortmund – com o qual teve o melhor momento da carreira, um bom figurante no time que conquistou a Liga dos Campeões em 1996/97. Aposentado, comandou as seleções alemãs de base e, mais recentemente, fez um bom trabalho no Jahn Regensburg, conquistando os dois acessos que botaram os alvirrubros na segunda divisão. Foi sua chave para retornar à BayArena, onde comanda uma equipe ofensiva e intensa. Por sua experiência e por aquilo que proporciona aos Aspirinas, será um mestre importante ao brasileiro.

A integração de Paulinho elenco deverá acontecer durante a pré-temporada, com a recuperação total de sua lesão no cotovelo prevista para meados de julho. Neste momento, terá que torcer para os companheiros, que ainda buscam a confirmação da vaga na próxima edição da Champions. E a oportunidade de disputar a principal competição do continente só referenda a sua escolha. O deixará em evidência para matar a saudade dos brasileiros (e sobretudo dos vascaínos) que não puderam tanto apreciar o seu talento por aqui.