O que o Palmeiras sentiu na despedida de Gabriel Jesus e o Flamengo também viveu com Vinícius Júnior, agora é experimentado pelo Santos. O Peixe se despediu de Rodrygo, um talento de lembranças tão boas quanto efêmeras na Vila Belmiro. A qualidade do garoto é imensa, referendada pela própria aposta do Real Madrid. Aos santistas, ofereceu um punhado de jogadas mágicas, atuações decisivas e esperanças de um futuro que não se desenrolará na Baixada. É uma realidade cada vez mais recorrente, e cada vez mais cruel, em que raríssimos prodígios surgem como exceções a permanecer no país por um pouco mais de tempo. E, em meio ao reconhecimento que o atacante recebeu na Vila, o mais triste é que sequer pôde se despedir em campo, graças à patifaria da CBF.

O caso de Rodrygo é similar ao de Renan Lodi. Ambos foram convocados para a seleção olímpica, que disputa o Torneio de Toulon neste mês. Os clubes solicitaram a dispensa de ambos, diante das partidas decisivas antes da Copa América. A entidade, então, adotou uma postura incompreensível: os dois foram liberados do elenco, mas não desconvocados. Um detalhe que simplesmente impediu a utilização dos atletas pelos clubes. Caso Santos ou Athletico Paranaense os colocassem em campo, poderiam perder pontos. A arbitrariedade foi reforçada pelo presidente da confederação, Rogério Caboclo. O cartola declarou que “o jogador convocado não pode e não deve ser desconvocado”, em visão com viés demagógico. Clama um nacionalismo furado e um acordo de bastidores, mas ignora o que realmente é importante ao futebol.

O Athletico Paranaense ainda tentou adiar a apresentação de Lodi, pensando na Recopa Sul-Americana, o que não foi aceito pela CBF. A cartolagem exigia que ele se juntasse ao grupo com o restante dos atletas. Porém, se o caso do lateral representa uma perda técnica ao Furacão, o de Rodrygo também possuía o seu lado emocional. As consequências iam além também pelo momento de sua carreira. Já era sabido que o atacante se despediria do Peixe, antes de se juntar ao Real Madrid na próxima temporada. O Santos tentou enviar ofícios à confederação, o que acabou ignorado. Prevaleceu a falta de bom senso e a falta de consideração aos clubes, o que não surpreende.

Até existia um acordo anterior com a CBF de liberação, que Santos e Athletico acabaram quebrando. Todavia, a confederação não se abriu ao diálogo. A entidade segue como principal culpada, até por seu calendário problemático, que poderia ter atenuado a questão. Enquanto alguns clubes terminaram cumprindo o pacto prévio, santistas e atleticanos preferiram se negar. A represália da CBF tem mais a ver com política do que com futebol, reflexo também da postura omissa dos clubes quanto aos muitos problemas internos.

Nesta quarta, Rodrygo deu sua última entrevista pelo Santos. Falou emocionado sobre a sua história no clube, marcada especialmente pelo carinho construído pelos alvinegros desde as categorias de base: “Estava me segurando para não chorar. É um momento que passa todo o filme desde que cheguei aqui até a realização do sonho que é jogar no maior clube do mundo, o Real Madrid. Agradeço ao torcedor, a todos que eu conheci, limpeza, cozinha, diretores. Agradeço ao professor Luciano, meu professor na base, Elano, que me subiu, todos os técnicos do profissional. Não vou falar muito, não gosto de ficar chorando na frente de todo mundo. Estou muito emocionado e quero dizer para todo torcedor santista que vou sentir muita saudade e vou levar o Santos sempre no meu coração”.

A ocasião, de qualquer maneira, seria marcada pelas acusações à CBF. O presidente José Carlos Peres, com sua razão, se queixou da falta de compreensão da confederação e do desconforto causado aos clubes. Chamou a entidade de “ditadora” e também apontou os prejuízos, “técnicos e financeiros”, causados pela atitude da cartolagem. No fim das contas, um torneio acessório se tornou mais importante que os clubes.

Na Vila Belmiro, a noite poderia coroar a despedida de Rodrygo também em campo. O Santos derrotou o Corinthians por 1 a 0 e fechou a noite no topo do Campeonato Brasileiro. A participação do garoto, contudo, terminou limitada aos momentos em que a bola não estava rolando. O momento mais bacana aconteceu durante o intervalo, quando um vídeo com mensagens ao atacante foi exibido no telão do estádio. Junto de familiares e amigos, mais uma vez a promessa não escondeu as lágrimas. Cenas que mostram a relação com o clube e que, no fim das contas, indicam uma esperança de que estes laços se reatem no futuro. É o que resta ao futebol brasileiro, à espera do declínio de seus maiores talentos.

“Ídolo” é um termo bastante pessoal, inerente a cada torcedor. E o próprio momento do Santos não contribuiu tanto assim para que Rodrygo recebesse tal rótulo, depois de 80 partidas e 17 gols. Despede-se como um jogador querido, que fez por merecer a confiança do clube e o apoio da torcida, retribuindo mais com os milhões no cofre do que com os resultados possibilitados por seu futebol. São breves lampejos a uma realidade implacável. O Real Madrid veio com a fortuna e seria praticamente impossível que se recusasse, considerando todas as variáveis. Só o romantismo ou o idealismo permitem imaginar algo diferente e Rodrygo não fugiu da regra. Resta o agradecimento pelos sonhos que alimentou, algo que o Santos e sua torcida ofereceram com a delicadeza que a semana pedia. Mas que terminou afetado pela intransigência da CBF.