O “verde da esperança”, mais do que um enorme clichê, é uma representação cantada há décadas pelo Fluminense no seu hino. “Pois quem espera sempre alcança”, aliás, soa mesmo como um mantra aos torcedores tricolores diante da realidade do clube. Depois de anos abastados em parceria com a Unimed, a visão do Flu para lidar com as suas finanças é outra. E o tal “verde da esperança” não se torna apenas uma das três cores que “traduzem tradição”, mas sim um estado de espírito a se mentalizar em diversos momentos. Nesta quinta-feira, mais uma vez, a torcida precisou ser embebida do “verde da esperança”. O verso é o que de mais palpável existe para confiar na contratação de Paulo Henrique Ganso como novo craque das Laranjeiras.

Bola não é o problema de Ganso. Nunca foi. A qualidade técnica sobra ao camisa 10 e, por isso mesmo, muitos estão no direito de se sentirem iludidos com o maestro que surgiu no Santos, antes de ter suas fases no São Paulo. Lesões custaram sua sequência? Também. A linha tênue entre o dar e o não dar certo, ao meia, depende de dois verbos: poder e querer. Afinal, só se descobrirá na prática o quanto o quase trintão poderá render em alto nível e o quanto vai querer se esfolar para isso, em um ambiente que o acolhe.

 

A prática não é muito amiga de Ganso, aliás. Porque se formos olhar para ela, o camisa 10 não alimenta o “verde da esperança” há tempos. A transferência à Europa motivou quem ainda acreditava que seu talento pudesse desabrochar no mais alto nível. Logo ficou claro que não era realmente uma questão de querer, e sim de poder. O estilo de jogo letárgico não se encaixou no Sevilla, apesar de uma assistência ou outra que serviam para inflar o noticiário ao seu redor. Talvez não dê para chamar aquilo de fracasso. Mas foi a história sem sal daquele jogador que os espanhóis, num futuro não tão distante, vão ter que forçar a memória para se lembrarem que esteve lá. E que não passou de uma história exótica.

Fracasso, por si, aconteceu mesmo no Amiens. Em um clube modesto do Campeonato Francês, que a bem da verdade fez contratações interessantes na atual temporada, a obrigação para Ganso jogar era minimamente maior. Apesar do nível técnico inferior, a Ligue 1 possui uma exigência física maior. E sabe-se lá qual a desculpa também sobre a adaptação de viver no interior, mas o camisa 10 tinha que ir além dos 500 minutos em campo, tantas vezes reserva, com parco rendimento. O futebol brasileiro vira o seu refúgio para, minimamente, jogar em um bom nível e não abraçar o ostracismo das ligas caça-níquéis.

O Fluminense faz uma aposta que a maioria absoluta dos clubes brasileiros descartaria. E que, sejamos sinceros, parte de seus torcedores não pagaria para ver – embora o tal “verde da esperança” pinte os rostos, aparentemente, da maioria. O futebol brasileiro tem um nível técnico também baixo e é menos físico que o europeu, tudo bem. Mas não será uma questão só de poder, de jogar na intensidade que se pede, ainda mais em uma equipe como Fernando Diniz costuma exigir. É também uma questão de querer suar a camisa um pouco mais, de fazer o seu jogo mais dinâmico, o que Ganso não anda apresentando. Cabe lembrar que já se passaram uns quatro anos desde o último momento realmente satisfatório do armador, vestindo a camisa do São Paulo. O craque que alguns preferem cogitar vive num mundo ideal há quase meia década. E que só foi o maestro de conduzir um time com batuta, como será exigido no Rio de Janeiro, no início de sua trajetória.

A questão de Ganso é mais do que esporte de alto rendimento, é praticamente metafísica. São dúvidas existenciais adaptadas ao campo e à bola. É materializar aquilo que vive por insistência (com um quê de teimosia) no imaginário em futebol concreto e bem jogado. Depende de uma soma de fatores que, sobretudo, cabem ao próprio jogador. Necessita de uma força mental, mesmo para negar a maioria que desacredita. Mal comparando (e mal comparando mesmo, porque não desejo fazer equivalência de grandeza ou de qualidade técnica) é um pouco a transferência de Ronaldinho Gaúcho ao Atlético Mineiro. A hora e a vez, onde o Bruxo fez acontecer. Será, no mesmo tom, a hora e a vez para Ganso. Porque se agora anda difícil de levar fé, se tornará pior se não der certo.

E o cenário assim se coloca porque, entre tantos motivos para desconfiar, os positivos são todos oferecidos pelo Fluminense. Que tenha sido um negócio de mão beijada ao clube, a diretoria investirá em um bom salário ao medalhão – o mais alto do elenco, que renderá uma dívida milionária em cinco anos de contrato, mas pagos em parcelas razoavelmente suaves. É a imagem empoeirada de um craque que, de certa maneira, pode resgatar o refinamento à camisa tricolor. O próprio Fernando Diniz crê que o armador beneficiará o seu jogo, arco para as flechas, referência para carimbar a bola em meio à troca de passes. O treinador até dá sinais mais consistentes neste início de trabalho, com um time mais objetivo que de costume, embora seja só o Cariocão. Certamente há um plano de jogo para acomodar Ganso, algo necessário a um atleta que leva outros a atuarem em sua função. Para isso, ele precisa funcionar e potencializar estes que orbitam ao seu redor.

O ânimo ao Flu é que, em tempos modestos, o time parece já encontrar seu encaixe. Jogadores pouco renomados, sejam eles apostas de Xerém ou reforços pontuais, vão mostrando seu serviço nesses primeiros jogos do ano. O saldo é positivo até o momento para Yony González, Luciano, Everaldo e outros que vão dando a sua cara a tapa. O clássico contra o Vasco, neste final de semana, surge como um primeiro termômetro diante da pressão. A página virada, após o anúncio de Ganso. Uma pressão que naturalmente será maior quando o grande encarregado de conduzir a nova era tricolor estiver em campo.

Seria delicioso se Nelson Rodrigues ainda se fizesse presente neste plano terreno para contar o que acontecerá com Paulo Henrique Ganso nas Laranjeiras. Sobrenatural de Almeida talvez fosse convocado, mas não para atestar o imponderável contra o Fluminense, e sim para virar o mocinho das crônicas ao ajudar o camisa 10 a sair deste vórtice que rege os últimos anos de sua carreira. Traçado no peito como vocação, o “verde da esperança” seguirá representado a cada vez que o meia envergar a camisa tricolor. A encarar os próprios fantasmas que tornam o seu talento apenas uma joia presa na caixinha, refém de um tempo que não é o seu, precisando de um dinamismo e de um empenho que mal se notam. Pelo menos há ânimo, e essa tem que ser a primeira semente.