Este texto é de ficção, baseado em alguns fatos e declarações reais dos personagens. Até onde sabemos, Roberto Baggio nunca pensou exatamente o que está escrito abaixo. Qualquer relação com a realidade seria uma coincidência cósmica. Os episódios giram em torno de sua transferência da Juventus ao Milan, em 1995.

Ufa. Que temporada difícil. Só mesmo muita meditação para chegar ao fim dela inteiro. Seria egoísmo dizer que nada deu certo porque conseguimos dois títulos, quase três, e nossa torcida aguardava a glória há muito tempo. Mas, pessoalmente, eu me sinto frustrado. Fui substituído, fui xingado e, agora, estou sendo enxotado. Justo eu, o único italiano capaz de praticar atos de mágica dentro de campo. E por motivos que eu não poderia controlar.

Ok, admito: eu poderia ter batido aquele pênalti um pouco mais para baixo. Mas teria feito tanta diferença? Estávamos todos cansados. Franco e Daniele haviam errado também. Mesmo que eu acertasse, Bebeto cobraria para os brasileiros na sequência e, na melhor das hipóteses, iríamos para as alternadas. Eu, especialmente, estava cansado. Joguei medicado, com dor em todo lugar, mas isso a RAI não mostra.

Curioso como um lapso de concentração de menos de um segundo pode definir uma carreira que, espero, durará quase 20 anos: atravessei o gramado concentrado, perfeitamente ciente do que faria. Na hora H, porém, bati forte demais na bola. Só um pouco forte demais na bola. Um pouco forte demais foi o que bastou para o travessão quase quebrar ao meio.

É um pouco injusto colocarem tanto peso daquela derrota sobre as minhas costas, porque o motivo de eu estar tão cansado naquele momento, mesmo ainda jovem, eu realmente não pude controlar. Aquela maldita lesão, quando eu estava apenas começando a minha carreira, ainda me dá nos nervos. Me dá literalmente nos nervos. Mesmo assim, meus gols foram tão importantes ao time.

Vai falar isso para os torcedores? Muitos só se lembram do pênalti no travessão. E olha que sempre fui adorado por eles, por todos eles, mesmo pelos que não torcem para a Fiorentina ou para a Juventus. Deve ser porque eu consigo fazê-los sonhar, faço coisas inesperadas e, modéstia à parte, muito belas. O italiano adora arte. Eu faço arte.

Eu tenho uma decisão para tomar. Quer dizer, eu acho que eu tenho uma decisão para tomar porque o meu futuro não está exatamente em minhas mãos. Eles querem que eu vá embora. Todos eles. Eu desculpo a diretoria porque geralmente quem usa gravata não entende muita coisa de grama. Entende de dinheiro, e o Milan oferece muito dinheiro. Eles acham que o Alessandro já é tão bom quanto eu, que eu sou dispensável. Mas o técnico? Identificar talento e dar um jeito de colocar os jogadores mais talentosos em campo deveria ser pré-requisito. Como alguém se torna treinador da Juventus se recusando a fazer isso? Bom, palmas para Lippi. Ele conseguiu.

Roberto Baggio depois de perder o pênalti contra o Brasil (Foto: Getty Images)
Roberto Baggio depois de perder o pênalti contra o Brasil (Foto: Getty Images)

Dei muito azar, para falar a verdade. Machuquei, de novo, joguei pouco e, bem agora, apareceu o Alessandro, um menino brilhante, que será enorme e ainda dará muitas alegrias à Juventus e à Itália. Mas ele não poderia ter surgido um pouco depois, não? Em um momento em que não fizesse o clube pensar que não precisa mais de mim. Lippi nunca teve boa vontade comigo. Achava que eu não tinha condições físicas para participar do momento defensivo, que eu não tinha rigor tático, que a equipe não podia girar em torno de mim. Agora, ele tem até uma boa desculpa.

Estou reclamando de barriga cheia, eu sei. Minha situação poderia ser muito pior. Quem quer me contratar é o Milan, melhor time italiano dos últimos anos. Jogaria ao lado de Savicevic, Weah e um monte de craques. Eles pagam bem, bem melhor do que eu receberia se decidisse continuar na Juventus. Você sabe que querem se livrar de você quando pedem para você reduzir seu salário pela metade. E, provavelmente, se tudo desse certo, eu começaria a temporada na reserva. Ainda assim, meu coração fala para eu ficar.

Culpa da torcida. Eu adoro essa torcida, mesmo chegando a contragosto. Construímos um relacionamento forte ao longo dos anos, apesar da seca de títulos. Eles reconhecem meu talento. E, cazzo, foram os únicos que realmente me apoiaram depois da Copa do Mundo. Fizeram tanta festa no aeroporto quando voltei dos Estados Unidos que, por alguns segundos, achei que eu tinha sido campeão. Exceto que eu não fui campeão, fui o cara que errou o pênalti. Gritaram meu nome ao longo da temporada, mesmo sem muito motivo para isso, e sempre me tratam com muito carinho em restaurantes e nas ruas. Parece que gostam mesmo de mim.

Sempre quis ser ídolo de toda a Itália, mas isso me parece impossível neste momento, com as televisões reprisando aquela cena sem parar. É mais sensato eu me contentar com o amor de uma única torcida, me tornar um homem de um clube só, relacionar profundamente a minha imagem à da Juventus, se eu for capaz. Lembro como os torcedores da Fiorentina lidaram com a minha saída, quase colocaram fogo em Florença, revoltados com os dirigentes, embora boa parte ainda me adorasse. Da mesma forma como os torcedores da Juventus ficaram bravos comigo quando eu não bati aquele pênalti contra a Fiorentina. Não dá para ficar pulando de galho em galho para sempre. Preciso escolher uma árvore.

**************************

Como eu bato? Bato por cima, por baixo, com curva, reto, forte, fraco, colocado. São muitas possibilidades. Eu só sei que preciso acertar porque, senão, vamos perder de novo e não gostamos muito de perder. Foi excruciante observar das arquibancadas de Munique os meus companheiros sendo derrotados pelo Borussia Dortmund ano passado. E, agora, aqui estou eu com a chance de empatar o jogo contra o Real Madrid. Faltam três minutos, Alessandro saiu machucado. A responsabilidade é minha.

Sim, eu fiquei na Juventus. Vocês deveriam ter visto a cara do Chiusano quando eu disse que aceitaria ganhar menos para renovar o meu contrato. Ele já estava contando as liras que receberia pela minha venda para o Milan. Foi ainda mais divertido contar as boas novas para Lippi. Ele parecia ter comido risoto de camarão estragado. Eu, agora, era um problema. Como equilibrar o time comigo, Ravanelli, Vialli e Del Piero? Bom, isso era um problema dele. Não meu. Eu faria a minha parte.

Seria possível que nem isso fosse suficiente. Lippi ficou bastante revoltado com a minha permanência e foi ardilosamente tentando minar minha posição no clube. Queria que eu fosse um dos seus espiões dentro do vestiário, em uma demonstração de confiança tão estranha que eu imediatamente fiquei desconfiado e recusei. Nunca trairia meus companheiros para ficar bem com o chefe, ainda mais este chefe. Uma vez ele até proibiu a moça da lanchonete de me dar mais pepperoni. Disse que toda minha alimentação tinha que ser aprovada por ele. É um louco.

Mas o time até que ficou arrumadinho. O 4-3-3 foi mantido, com Del Piero, Ravanelli e Vialli. Eu jogava basicamente quando Del Piero estava indisponível, machucado, suspenso ou sendo poupado – quase nunca – ou quando Lippi decidia mudar o esquema para usar um meia-atacante atrás de dois avançados. Preferia dessa forma porque me dava mais liberdade para criar sem ter que acompanhar laterais pelos campos da Itália. É, eu sei, um desperdício de talento me manter no banco de reservas, mas tomei a decisão de ficar e preciso lidar com as consequências dela. Pelo menos, joguei mais do que imaginava, umas 25 partidas na temporada, e fui bem. Tive meus momentos

Os melhores foram contra o Milan, com quem brigamos pelo título da Serie A cabeça a cabeça. Decidi os dois jogos. Perdíamos por 2 a 0, no primeiro turno, a dez minutos do fim, mas conseguimos empatar por 2 a 2, graças a um gol do Alessandro e um lançamento meu para Ravanelli. No returno, para minha surpresa, atuei desde o começo, no lugar de Del Piero, que entrou no meu lugar apenas nos minutos finais, quando a vitória por 2 a 1 já estava encaminhada. Dei o passe para Conte marcar, no comecinho da partida, e fiz de falta no final do primeiro tempo. Não adiantou nada porque acabamos ficando a dois pontos do Milan e perdemos o scudetto. Mas deu para ver que Lippi ficou satisfeito comigo – ou o que passa por satisfeito para Lippi quando o assunto sou eu.

Nossa campanha europeia foi muito melhor. Conquistamos o título da Liga dos Campeões pela segunda vez. Joguei bem menos do que no Campeonato Italiano, geralmente apenas alguns minutos no final das partidas. O Alessandro que comeu a bola contra todo mundo. A final contra o Ajax foi nervosa. Entrei na prorrogação e adivinha se o jogo não foi para os pênaltis? Adivinha se eu não fiquei responsável pela última cobrança de novo? Mas como Davids já havia errado, seríamos campeões se eu marcasse, em vez de eliminados se eu errasse. Enchi o pé no meio do gol de novo, como se quisesse provar que eu era capaz de acertar o gol a 11 metros de distância com a bola parada. Acertei e fomos campeões. Dois anos antes, tornei-me a imagem da derrota. Agora, era a imagem da vitória. O futebol é muito dinâmico.

Baggio ao lado de Vialli (Foto: Getty Images)
Baggio ao lado de Vialli (Foto: Getty Images)

A diretoria mexeu bastante no time para a temporada seguinte. Ravanelli foi vendido para o Middlesbrough e Vialli saiu para o Chelsea. Com parte do dinheiro, compramos um jovem da Atalanta chamado Vieri. Eu fiquei muito surpreso quando a pré-temporada começou e Lippi mudou o nosso esquema de jogo. Trocou o 4-3-3 por um 4-3-1-2, comigo atrás de Del Piero e Vieri. Era mais uma demonstração de confiança estranha demais para não desconfiar. E bastou comprar o Corriere para o mistério se dissipar. Com o resto da venda de Ravanelli, a Juventus queria contratar um francês calvo, um tal de Zidane.  Eu estava apenas esquentando o espaço para ele nos treinamentos. Poderiam me trocar por uma máquina de lançar bolas parecida, como aquelas de tênis.

Mas o que eu poderia fazer? Sair agora, que não havia ninguém interessado em me contratar? Os motivos que me fizeram ficar um ano atrás seguem sendo válidos. Melhor engolir mais essa desfeita e lutar, de novo, por um lugar na equipe. Nunca se sabe o que pode acontecer. Depois de tanto azar, talvez eu finalmente ganhasse uma brecha do destino. E não é que ganhei mesmo? Estava quase tudo certo, mas Zidane protelou a assinatura do contrato por algumas semanas até anunciar, de maneira chocante, às vésperas do começo da temporada, que, apesar do assédio dos principais clubes do mundo, ficaria mais uma temporada no Bordeaux. Disse que ficou muito próximo de conquistar um título importante com o clube – a Copa da Uefa – e queria tentar mais uma vez. Queria ser campeão na França antes de sair de casa.

Por mais que eu respeite o sentimento, sua recusa tornou-se um problema para a Juventus. Lippi treinou a temporada inteira com uma formação que estava apenas aguardando a sua chegada. Enfrentaríamos o Reggiana, pela primeira rodada do Campeonato Italiano, em alguns dias e não dava tempo de mudar de novo, nem de voltar para o 4-3-3, porque todas as movimentações de mercado foram pensadas com o novo esquema tático em mente. Novamente com cara de quem comeu frutos do mar vencidos, Lippi me informou que eu seria titular nos primeiros jogos e “veríamos o que aconteceria depois disso”.

Meus amigos, eu nunca joguei tão bem. Eu não sentia o amor do treinador, mas, por vias tortas, ele meio que me deu um voto de confiança. E eu retribui. A parceria com Alessandro e Christian foi instantânea. Eu armava, eles concluíam. Del Piero e eu constantemente trocávamos de posição, o que deixava as defesas completamente malucas. Não foi nada treinado durante a pré-temporada, porque talvez não funcionasse tão bem com Zidane, mas resultado do entrosamento entre dois jogadores inteligentíssimos. Quando Lippi percebeu o que fazíamos, lá pela quarta vitória seguida na Serie A, disse apenas um “continuem assim”. Joguei quase todos os jogos, marquei 13 gols, dei muitas assistências, e fomos campeões com algumas rodadas de antecedência. O Parma mal nos assustou.

Correu tudo bem na Europa também. Fiz uma das melhores partidas da minha vida contra o Ajax, em Turim. Vencemos por 4 a 1. Marquei um golaço de fora da área, coloquei a bola na cabeça de Lombardo e dei outra assistência, para Amoruso. No entanto, as malditas dores voltaram a me atrapalhar. Senti uma fisgada na coxa nos minutos finais da nossa goleada em cima do Pescara e não pude enfrentar o Borussia Dortmund na decisão da Liga dos Campeões. Perdemos por 3 a 1.

Zidane estava finalmente pronto para deixar o Bordeaux no verão de 1997, e a Juventus tentou mais uma vez contratá-lo. Desta vez, Lippi me surpreendeu de verdade. Não era uma demonstração de confiança estranha porque ninguém abriria mão de um jogador daqueles apenas para me deixar confuso. Ele disse à diretoria que não era necessário contratar Zidane porque a equipe já contava com o mais talentoso camisa 10 do futebol mundial. Juro. Eu ouvi. Ninguém me contou. Os engravatados se vingaram vendendo Vieri para o Atlético de Madrid contra a vontade de Lippi. Para o seu lugar, veio outro atacante da Atalanta, Filippi Inzaghi, e Zidane acabou indo para o Real Madrid.

Eu joguei ainda melhor. Agora, eu realmente sentia a confiança do treinador – que mexeu novamente na formação tática, com três zagueiros, mas manteve o tridente de ataque, comigo atrás dos avançados -, a parceria com Del Piero estava mais afiada do que nunca, e o amor da torcida nunca me abandonou. Fiz 17 gols, dei mais de dez assistências, e fomos campeões novamente, com muita folga, oito pontos à frente da Internazionale. Tivemos mais uma campanha daquelas na Liga dos Campeões e chegamos à final, contra o Real Madrid.

Zidane abriu o placar, na metade do primeiro tempo, com um golaço indescritível, mas eu vou tentar descrevê-lo mesmo assim: dominou a bola com a ponta da chuteira, girou e acertou o ângulo de Peruzzi. Eu empatei, da entrada da área, e Mijatovic fez 2 a 1 para o Real Madrid.

**************************

 

Voltando ao presente, como que eu bato essa falta agora? Vocês querem palpitar? Acho que vou bater com curva, por cima da barreira, buscando o ângulo. É, é isso mesmo que vou fazer. Acertei, e a partida foi para a prorrogação. Tudo continuou igual na meia-hora seguinte e fomos para a disputa de pênaltis, o que tem sido frequente demais na minha vida. Pessotto, que havia acertado contra o Ajax, desta vez errou, e lá fui mais uma vez cobrar um pênalti consciente de que, se eu errasse, perderíamos um título importantíssimo. Desta vez, eu estava bem menos cansado do que nos Estados Unidos. Bodo Illgner não tinha a mesma fama de pegador de pênaltis que Taffarel. Era só bater firme, reto. Parti confiante, mirei o canto direito do goleiro e…. errei. Chutei muito para o lado. A bola ainda raspou na trave. O Real Madrid foi campeão europeu. Nós fomos vice pela segunda vez seguida. E eu, de novo, errei a porra do pênalti.

Eu errei a porra do pênalti de novo. Sou especialista neste tipo de lance, devo ter errado apenas esses dois pênaltis que certamente vão me assombrar pro resto da vida, mas acho que isso não importa para o estado depressivo que estou prestes a abraçar. A essa altura, parece desnecessário dizer que estava chorando, de cabeça baixa, quase cego pelas lágrimas, caminhando de volta ao banco de reservas. E aí fui surpreendido novamente: Lippi correu em minha direção, pegou meu rosto com as mãos e disse: “Não se preocupe. Voltaremos. E venceremos. Você nos ajudou a chegarmos até aqui. Você nos trouxe à prorrogação. Você é um craque. Voltaremos. E venceremos”. E me deu um beijo na bochecha e um abraço. O primeiro abraço que Lippi me deu desde a primeira vez que nos conhecemos.

Depois de Lippi, veio Del Piero. Depois, Conte. E Inzaghi, e Peruzzi, e Deschamps, e Pessotto, que também havia perdido um pênalti. Abraçaram-me e me apoiaram. A torcida cantava o meu nome, e não apenas os italianos, mas todos os presentes na Amsterdã Arena, até os espanhóis. Desta vez, reconheceram o que eu fiz, reconheceram meu talento. Desta vez, sabiam que eu havia sido vítima do destino e que a derrota não era minha culpa. Da mesma forma que eu retribui o carinho deles quando voltei dos Estados Unidos ficando na Juventus, eles retribuíram minha fidelidade mais uma vez me dando um ombro para chorar. Algo que certamente só fariam com um jogador que vestia preto e branco há quase uma década, que havia ralado o máximo possível para conquistar três scudetti e uma Liga dos Campeões e que era identificado com o clube. Valeu a pena ficar na Juventus, e na Juventus eu vou ficar para o resto da minha vida.

Epílogo
Baggio contra o Chile, na Copa do Mundo de 1998 (Foto: Getty Images)
Baggio contra o Chile, na Copa do Mundo de 1998 (Foto: Getty Images)

A convocação de Cesare Maldini não foi uma surpresa para mim. Eu vinha talvez da melhor temporada da minha vida, e depois da horrível campanha na Eurocopa de 1996, quando eu assisti de casa à nossa eliminação ainda na primeira fase, a seleção italiana não poderia me preterir novamente. Estava com 31 anos e a Copa do Mundo da França seria a última chance para me redimir daquela final contra o Brasil.

Comecei o torneio como titular no ataque, ao lado de Vieri, e marquei, de pênalti, contra o Chile. Empatamos por 2 a 2. A equipe não funcionou direito. No segundo jogo, contra Camarões, vencíamos por 1 a 0, sofrendo, quando sai para a entrada de Del Piero. Vieri marcou duas vezes e acabamos ganhando por 3 a 0. Voltei a sentar no banco contra a Áustria. Vieri, outra vez, abriu o placar. Entrei no lugar do Alessandro e ampliei. Placar final: 2 a 1. Vi todos os 90 minutos das oitavas de final da Noruega do banco de reservas, apreensivo com a vitória magra por 1 a 0.

Estávamos nas quartas de final e enfrentaríamos a França, mas a equipe não estava funcionando bem. Tínhamos três vitórias e um empate, mas suamos mais do que deveríamos contra equipes menos qualificadas que a nossa. Maldini insistia na teimosia de que eu e Del Piero não atuávamos bem juntos, apesar de duas temporadas brilhantes da Juventus provarem o contrário. O treinador não queria abrir mão de um meio-campo bem marcador, mas era burrice não aproveitar o entrosamento que eu, Alessandro e Vieri havíamos construído. Pedimos uma reunião e dissemos tudo isso a ele, que, no fim, aceitou usar o tridente ofensivo contra os donos da casa.

Foi uma decisão acertadíssima porque ganhamos por 2 a 0, com um gol meu: tabelei com Del Piero, arranquei em diagonal e bati cruzado, sem chances para Barthez. Vieri fez o outro, ainda no primeiro tempo. Vitória incontestável. A formação foi mantida para a semifinal contra a Croácia. Ganhamos, agora por 2 a 1. Se eu queria me redimir de 1994, não haveria oportunidade melhor. A final seria novamente contra o Brasil.

Houve um papo estranho em relação a Ronaldinho antes do jogo começar. Disseram que ele estava doente e não começaria jogando, mas entrou no gramado junto com os outros titulares e alinhou para a execução dos hinos. Estava pálido, porém, e seus companheiros pareciam aflitos. Eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo – e nem me importava. Eu havia saído do meu último encontro com o Brasil humilhado e seria implacável, independente das circunstâncias. O relógio aponta 27 minutos do primeiro tempo. Escanteio pelo lado direito. Geralmente, eu cobraria, mas decidi deixar para Del Piero e entrar na área. Vamos ver o que acontece.