É preciso colocar os 7 a 1 em perspectiva. Essa frase está na minha cabeça há um ano. Há um ano, porém, não fazia sentido colocar nada em perspectiva por um motivo simples: dizer naquele momento que os 7 a 1 foram um acidente seria negar todos os problemas que o futebol brasileiro tinha, e ainda tem. A rigor, a situação da seleção é, hoje, pior do que era há um ano: Dunga não é melhor do que Felipão era, e agora está clara a gigantesca dificuldade que tem Marco Polo del Nero em tomar qualquer decisão que não seja total e completamente estúpida – e chamar Zagallo e Lazaroni para debater o futuro é apenas o símbolo mais hilário disto.

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Há, entretanto, os entretantos, e não há melhor pessoa para nos lembrar que não somos tão ruins quanto parecemos do que “o outro”, no caso, um colombiano, o técnico do São Paulo. Ao responder uma pergunta sobre os 7 a 1, Osório não teve dúvidas: “Foi um acidente.” E foi, mesmo, ainda que o colombiano possa estar querendo fazer uma política de boa vizinhança com quem agora o emprega.

Ninguém discute que a Alemanha foi melhor do que o Brasil. Ninguém discute que o Brasil passou de fase aos trancos e barrancos contra Chile e Colômbia antes de ser humilhado pela Alemanha. Revendo o jogo hoje, porém, fica claro que o massacre é resultado, principalmente, de uma pane emocional. Sim, é claro que Felipão é culpado: foram as suas decisões que levaram a essa pane emocional. Entrar em campo com Bernard e não Paulinho, deixando o time exposto; dar a David Luiz a faixa de capitão; demorar para mexer no time… poderíamos escrever, e já escrevemos, numerosos posts sobre isso. O fato, porém, é que mesmo com todos os erros de Felipão, se não fossem os erros tolos de Fernandinho, o nervosismo de nossos atacantes e a pane mental de David Luiz, o jogo poderia ter sido bastante diferente. São muitos fatores ainda, é claro, mas perceba: são todos mentais. Até mesmo Fred não é tão ruim quanto foi aquele dia.

Há acidentes e acidentes. Uma coisa é você estar em seu carro parado no sinal e vir alguém e bater atrás. Outra é você estar em alta velocidade na chuva e perder o controle do carro. O desastre do Brasil na Copa de 2014 pertence à segunda categoria, é claro. O que não muda o fato de que, mesmo dirigindo na chuva e em alta velocidade, o carro podia ter escapado da colisão. Porque, no final, ainda temos jogadores com mais qualidade do que a maior parte dos times do mundo, ainda que não tenhamos, neste momento, mais do que um craque. Porque perdemos na Copa, e na Copa América, quando nosso fora-de-série estava fora. Porque mesmo nesse momento, ainda temos um Firmino sendo vendido por um monte de dinheiro, um Douglas Costa sendo vendido por um monte de dinheiro. (E um Hulk jogando bem na Europa e sendo estigmatizado, enquanto David Luiz continua no time como se nada tivesse acontecido.)

Não é, também, que não haja uma crise, e que ela não seja grande. Mas é necessário diagnosticá-la com clareza. Perceber, por exemplo, que Dunga é parte bastante grande do problema. Que não é, nem nunca foi, técnico de futebol, nunca se preparou para isso nem mostrou capacidade para isso. Que todos, ou quase todos os profissionais que foram colocados na seleção depois dos 7 a 1 são ainda piores do que o que tínhamos antes. Que convidar Parreira, Zagallo, Candinho para debater o futuro é uma piada de mau gosto.

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O Brasil passa por uma crise no futebol, mas ela só parece tão grave porque nosso futebol é administrado por palhaços pomposos, de Del Nero a Dunga, passando por Gilmar. Porque se nesse momento o Brasil tivesse um técnico minimamente competente, David Luiz teria gozado férias na Riviera Francesa, teríamos passado com folgas pelo Paraguai e faríamos jogo duro com a Argentina – se o Chile, que tem Alexis e Vargas, fez, é impossível que o Brasil, que tem jogadores melhores que eles, não faria.

O Brasil passa por uma crise porque ficou arrogante com 1994 e 2002 e parou de olhar para o mundo? Sim, mas não só por isso, até porque ganhamos, em 94 porque tivemos, além de Romário, uita sorte. Mas além disso, o Brasil deu azar, perdeu uma geração de craques (Kaká, Gaúcho, Adriano) que poderiam ter feito a diferença nas duas últimas Copas. Porque respiramos aliviados quando nos livramos de um mafioso do século XXI, Ricardo Teixeira, porque não sabíamos que ele seria sucedido por mafiosos da década de 1970. Nada disso, porém, muda o fato de que ainda nascem por aqui jogadores talentosos em profusão, muito mais, até pelo tamanho do país, do que na maior parte dos países do mundo.

Essa é a perspectiva em que temos que colocar as coisas. O problema é grave, mas não é profundo. O problema profundo que existe, de organização, de honestidade, é antigo, muito antigo, precisa ser resolvido pelo bem, principalmente, dos nosso clubes, mas não necessariamente impacta a qualidade da nossa seleção. Se Guardiola fosse nosso técnico, estaríamos automaticamente entre as cinco melhores seleções do mundo, podendo ganhar de qualquer uma delas. Instantaneamente. E é apenas o fato de que isso jamais acontecerá que faz com que essa crise seja assustadora e talvez seja longa.