É irônico que no país que preza resultado acima de tudo, todos no G4 do Brasileirão vivam crises

Internacional, Atlético Mineiro, Flamengo e São Paulo vivem ambientes turbulentos, mesmo disputando a ponta da tabela

O futebol brasileiro tem suas particularidades e uma delas é que todo técnico empregado está a poucas derrotas de ser colocado em xeque e perder o emprego. Não importa muito a sua posição na tabela, na verdade. O atual Campeonato Brasileiro é um exemplo de que estar bem posicionado não garante nada. Todos os clubes nas primeiras posições vivem verdadeiros caldeirões nos seus bastidores, com técnicos pressionados, insatisfação e muita cobrança.

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O Internacional terminou a 20ª rodada como líder, apesar do empate com o Coritiba no fim de semana. O seu técnico, porém, pediu demissão. No fim da tarde desta segunda-feira, o Colorado confirmou a informação da saída do argentino. Em um ambiente conturbado politicamente, com eleições próximas, a diretoria não gostava da forma como Coudet insistia em dizer publicamente que o elenco era curto. Sem sentir respaldo, e desejado pelo Celta, da Espanha, Coudet se demitiu do cargo, ainda que a diretoria do clube tenha tentado reverter a decisão. Falamos sobre isso no texto sobre a saída do treinador do Colorado.

O Atlético Mineiro, segundo colocado, viveu um fim de semana de alegria, com uma goleada por 4 a 0 sobre o Flamengo. O time vinha de uma derrota contundente para um Palmeiras sem técnico, na segunda-feira, por impecáveis 3 a 0. Há uma brincadeira que a cada derrota, o técnico Jorge Sampaoli pede um reforço. Ganhou nesta semana o chileno Eduardo Vargas, ex-Grêmio, com quem trabalhou na Universidad de Chile, melhor momento da carreira do atacante. Ele estava no Tigres, do México, onde era um reserva.

Antes da derrota para o Palmeiras, o Atlético de Sampaoli empatou com o Sport em casa por 0 a 0. Antes, perdeu do Bahia, de Mano Menezes, por 3 a 1. Na rodada anterior, tinha empatado com o Fluminense, de Odair Hellmann, por 1 a 1 em Belo Horizonte. A última vitória tinha sido na 15ª rodada, diante do lanterna Goiás, por 3 a 0. Foi no dia 10 de outubro. Foi quase um mês de maus resultados nesse calendário maluco. Chegou ao jogo contra o Flamengo pressionado pela sequência não só de resultados negativos, mas também de muitos problemas, sem um futebol condizente com o que se viu em outros momentos.

Assim como no Inter, Sampaoli tem respaldo na torcida, mas a relação do treinador com as diretorias é sempre conturbada. Mais uma vez, Sampaoli faz um bom trabalho, mas sua instabilidade com o Galo pode colocar tudo a perder. Mesmo assim, como é um campeonato sem um time consistente, bastou voltar a vencer para ocupar a segunda posição na tabela, a um ponto do Internacional, agora não mais de Eduardo Coudet.

O terceiro colocado é o Flamengo. O outro lado da goleada por 4 a 0 já vinha pressionado de momentos anteriores. Os 4 a 0 foram pesados, especialmente porque o time tem tomado gols no atacado, e goleadas sofridas se tornaram incomodamente constantes. Os 5 a 0 que o Independiente del Valle impôs em Quito, pela Libertadores, deixaram uma marca que é difícil de tirar. Os 4 a 0 no jogo de volta ajudaram um pouco, mas o desempenho do time depois tornou novamente tudo pior. A sua demissão, confirmada nesta segunda, não chega a ser uma surpresa, e falamos em mais detalhes sobre isso no texto sobre a saída do técnico. A crise tanto está presente que resultadou na troca de comando técnico.

Chegamos ao quarto colocado. O São Paulo vive uma crise constante há anos, espaçados por alguns poucos momentos de paz, nunca duradoura. Fernando Diniz já chegou sob pressão em 2019, contratado já sob a desconfiança (em parte, justa) da torcida por seus desempenhos irregulares e, em alguns casos, ruins mesmo em termos de resultados nos trabalhos anteriores, por Fluminense e Athletico Paranaense. A classificação à Libertadores não amenizou muito os ânimos e 2020 já começou com pressão para o treinador.

A eliminação vexatória no Campeonato Paulista, diante do Mirassol, fez com a pressão se tornasse explosiva. A campanha ruim na Libertadores, em uma chave difícil, sim, mas com desempenho ruim em muitos jogos, culminaram em eliminação ainda na fase de grupos. Com a cabeça a prêmio, Fernando Diniz só se manteve no cargo porque a diretoria tricolor se manteve firme, mesmo ela também sob uma intensa pressão, seja o diretor de futebol, Raí, quanto o presidente, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco.

A campanha no Campeonato Brasileiro mantém o time em uma boa posição na tabela, potencialmente podendo chegar a liderança com os jogos a menos que tem ao final do primeiro turno. Só que o time vem sofrendo com a imensidão de gols em mata-matas, que adicionaram doses cavalares de pressão em um clube que ferve pelo jejum de títulos. Desde 2012, quando conquistou a Sul-Americana, o São Paulo não levanta uma taça sequer.

O desempenho em campo passou a valer pouco para os torcedores, sedentes por resultados melhores. E a classificação na bacia das almas contra o Fortaleza, em jogos sofrendo muitos gols, não ajudaram. Depois de empatar por 3 a 3 no Ceará, o time fez 2 a 0 no Morumbi, mas sofreu o empate no segundo tempo, no final do jogo, e só classificou nos pênaltis, de forma dramática. Também de forma dramática, e sofrendo muitos gols, o time foi eliminado da Sul-Americana pelo Lanús, depois de perder por 3 a 2 na Argentina e ganhar por 4 a 3 em casa.

Em meio a tudo isso, o time continuou conseguindo resultados no Campeonato Brasileiro. Antes da eliminação contra o Lanús, goleou o Flamengo por 4 a 1. Depois, venceu o Goiás por 2 a 1, em uma partida que jogou mal, mas arrancou a vitória mesmo assim. A diferença para o líder é de apenas três pontos, com três jogos a menos, mas Fernando Diniz parece estar sempre à beira da demissão.

Nem mais vitórias são suficientes, como foi no jogo contra o Goiás. Como o time teve um lance bastante controverso a seu favor, o gol de Brenner, que ninguém sabe se a bola entrou ou não, e o placar foi apertado, as críticas seguem fortes. Embora tenha potencial para ser líder, os três jogos atrasados também podem adicionar mais pressão ao time se não vencê-los, e não o fizer de modo convincente. Porque não basta mais ao time jogar bem e não vencer, e também não adianta vencer sem jogar bem. A exigência é tamanha que será difícil correspondê-la, seja como for. Assim como muitos adversários, é difícil cravar que o São Paulo termina o ano com o técnico atual. Mesmo que possa terminar como líder.

Fora do G4, a situação continua pesada. O Fluminense é o quinto colocado, uma posição que provavelmente diretoria e torcedores achariam interessante antes do Campeonato Brasileiro começar. Com a bola rolando, o que se vê é que muitos tricolores seguem insatisfeitos com o futebol do time comandado por Odair Hellmann, de forma similar ao que acontecia em 2019, quando ele dirigia o Inter.

O time é competitivo, como mostrou diante do Atlético Mineiro, mas qualquer tropeço se torna motivo de ira e pedidos pela cabeça do técnico. No jogo que abriu o segundo turno para o Flu, derrota para o Grêmio por 1 a 0 no Maracanã e mais pressão sobre ele. Mesmo que na rodada anterior, contra o Fortaleza, fora de casa, tenha vencido por 1 a 0. Ou ainda na anterior a essa, quando venceu o Santos por 3 a 1 em casa. Parece que dói mais o empate por 2 a 2 com o Ceará, embora tenha empatado com o Atlético Mineiro, brigando pela liderança, uma rodada antes, e fora de casa.

Apesar de ter 32 pontos em 20 jogos, a quatro do líder Internacional, o Fluminense vive pressão sobre o seu treinador, que conta com o respaldo da diretoria de Mario Bittencourt, mas que sabemos que não é um clube onde só um dirigente tem força, como qualquer um dos clubes da Série A, e que todos parecem suscetíveis, em algum momento, com a dose certa de pressão, manchetes pesadas e perguntas insistentes na coletiva, de demitir um técnico. Ainda mais quando as vozes das redes sociais (não das ruas, que fique claro) insistem em pedir um “fora” para o ocupante da casamata a cada resultado que não seja o esperado (que é vencer, sempre).

Em sexto lugar, o Palmeiras acabou de viver o processo de mudança de técnico. Vanderlei Luxemburgo chegou com o discurso de resgatar a Academia de Futebol que consagrou o alviverde – e que ele mesmo conseguiu fazer em passagens anteriores, notadamente 1993/94 e 1996. O que se viu em campo foi um time com poucas ideias, pouco futebol e jogos horrorosos. A sua demissão fez com que o clube e torcida tivessem a sensação de terem perdido 10 meses. Só que o clube é o responsável por isso, enquanto a torcida é quem sente os efeitos de ter passado da opção Jorge Sampaoli para Luxemburgo. Abel Ferreira chegou e já pegou um time um pouco melhor depois da passagem curtíssima do interino Andrey Lopes e precisará entregar um resultado, se não o fogo já é ligado novamente para cozinhar o novo treinador.

O sétimo lugar é o Santos, de Cuca. O time já passou por uma mudança de técnico com a saída de Jesualdo Ferreira, demitido antes de poder fazer qualquer coisa parecida com um trabalho mais ou menos organizado. Os resultados, sempre eles, pareciam urgentes, e o português deixou o cargo. Cuca trouxe resultados melhores, mas isso não quer dizer que ele não seja questionado.

Seu trabalho no Santos é bom, mas o ambiente do clube, como em tantos outros, é de total fervura. O presidente do clube, José Carlos Peres, foi afastado por suspeitas de irregularidades, em um processo que desgasta funcionários, dirigentes e até comissão técnica e jogadores, que vivem o ambiente conturbado. Entrou como presidente interino Orlando Rollo, que entra para a história como o dirigente que tentou contratar Robinho e ignorar a sua condenação por estupro na Itália, um movimento que custou caro ao clube (literalmente, com patrocinadores ameaçando abandonar o barco), pela repercussão negativa.

Embora Cuca não pareça correr risco de demissão, a crise no clube da Vila Belmiro faz com que muitos digam que ele é quase o presidente neste momento, tomando diversas decisões importantes em meio a um caos. A campanha do time no Brasileiro passa longe de ser ruim, diante das perspectivas negativas pela má administração e dívidas, mas os resultados em campo não tornam o ambiente menos conturbado. E não parece perto de mudar tão cedo.

Quando chegamos ao oitavo colocado, o Grêmio, vemos um time em boa fase nas últimas rodadas, mas longe de estar em um ano bom no geral. Se Coudet era cobrado no Internacional por não vencer os Grenais, Renato é cobrado por SÓ vencer os Grenais. O início ruim no Campeonato Brasileiro fez com que o time, um dos potenciais candidatos, ficasse lá atrás e ainda muito longe da disputa pela parte de cima. Com seus 30 pontos, está a seis do Internacional, o rival e líder.

Ainda tem muito jogo pela frente, mas o ano de 2020 é certamente aquele que Renato tem sido mais questionado no banco do Grêmio, ainda que a diretoria sequer considere a possibilidade de demiti-lo. Ainda assim, precisa lidar com uma cobrança imensa, já que apesar dos títulos recentes de Libertadores e Copa do Brasil, não ganha o Campeonato Brasileiro desde 1996.

O Sport, em nono na tabela, surpreende pela ótima colocação, considerando um clube que chegou à Série A de forma inesperada e que já demitiu um técnico. Daniel Paulista deixou o comando do time ainda em agosto, pouco depois da retomada do futebol, e o time já parecia um dos condenados ao rebaixamento nas primeiras rodadas. Aí veio Jair Ventura, que conseguiu bons resultados e fez o time disparar na tabela, a ponto de chegar ao confortável meio dela. Está até na primeira página, o que é ótimo. De todos que vimos até aqui, talvez seja o que vive o momento de mais calmaria. Ainda que isso possa mudar rapidamente.

Em décimo, o Corinthians vive um péssimo momento no Campeonato Brasileiro, ainda que tenha conseguido uma distância razoável da zona do rebaixamento desde a chegada de Vagner Mancini. O futebol do time é sofrível, e embora tenha conquistado algumas vitórias sem nem saber como (como foi contra Athletico Paranaense e Vasco), tomou 5 a 1 do Flamengo, aquele do Domènec Torrent, que defende mal e tudo mais.

Ao mesmo tempo que joga mal e é goleado em um jogo, vence o Internacional, líder, em outro. Não jogando grande coisa, é verdade, mas venceu em um jogo que parecia difícil conseguir isso. O Corinthians vive um momento que, apesar de estar em 10º, o desempenho não faz com que o time possa estar despreocupado com a parte de baixo da tabela, por exemplo. É um time que vive uma pressão interna, vive crise financeira, é chacoalhado por uma conturbada eleição a caminho e passa longe de ser um time sem crise.

Isso para ficarmos nos 10 primeiros colocados. Os 10 clubes da segunda página da tabela obviamente já vivem uma situação mais tensa, porque naturalmente estão um pouco mais perto da zona do rebaixamento, que é sempre uma briga grande no Campeonato Brasileiro. Em um país onde todo mundo acha que pode ser campeão, ou no mínimo que pode estar entre os primeiros, qualquer coisa além de resultados excepcionais parecem pouco.

Usualmente o Brasileirão é um país de pouca paciência, muita pressão, calendário caótico e politicagem braba. O ano de 2020 é praticamente uma edição de colecionador nesse aspecto. É o campeonato das crises, com todos os times do G4 sob uma pressão insana que lembra os times dentro dos quatro últimos colocados, Botafogo, Vasco, Athletico Paranaense e Goiás, estes sim, os quatro últimos.

O Brasileirão da crise finalmente tornou realidade algo que é tantas vezes repetida por técnicos, por comentaristas e até por torcedores: é o campeonato em que temos 12 times (ou mais) disputando o título. Só que é o de campeão da maior crise. Não tem como isso ser saudável.