A decisão da Taça Guanabara, neste domingo, guardou um capítulo vexatório ao futebol carioca. Depois de muita confusão, Vasco x Fluminense iniciaram a partida com o Maracanã às moscas. Os portões fechados são resultado de uma decisão judicial, por conta da disputa entre vascaínos e tricolores para saber quem ocuparia o setor sul do estádio. Ambos os clubes expressam o direito de ficar na área e, diante do imbróglio, a desembargadora Lucia Helena do Passo resolveu manter as tribunas vazias. Segundo a magistrada, havia “riscos iminentes de conflitos”, diante de manifestações publicadas pelas torcidas em redes sociais, bem como pela postura dos dirigentes que “acirraram o conflito e, agressivamente, incitaram a violência entre os torcedores”. Além do mais, a magistrada apontou que os contratos firmados são omissos para garantir os direitos pelo setor sul. E, diante da presença de centenas de torcedores nos arredores do Maraca, o corre-corre se tornou incontornável. Com meia hora de jogo, após bombas de gás e tiros de borracha nos arredores do estádio, os cruzmaltinos puderam entrar.

A ironia diante do triste episódio é que, há exatos 20 anos, Vasco e Fluminense davam um W.O. duplo, por não concordarem com o local de realização do duelo válido pela fase de classificação do Torneio Rio-São Paulo de 1999. O jogo pela rodada final da primeira fase estava inicialmente marcado para o Maracanã, sob mando do Fluminense. Todavia, o Vasco pediu para que a partida acontecesse em São Januário, caso confirmasse a classificação na rodada anterior e tirasse as chances matemáticas do Flu. Os cruzmaltinos alegavam que a bilheteria seria pequena, em plena Quarta-Feira de Cinzas, e por isso seu estádio seria mais adequado ao clássico, para reduzir os custos da operação.

Segundo o delegado da partida, o Fluminense concordou com a proposta. Já o presidente tricolor na época, Francisco Horta, declarou na véspera que o duelo seria mantido no Maracanã para cumprir o regulamento, embora “até preferisse São Januário para evitar prejuízos”. O problema é que, horas antes do jogo, durante a tarde de 17 de fevereiro, o Flu recebeu o aviso que a federação carioca havia mudado oficialmente o compromisso para São Januário. Horta preferiu manter o acordo com a federação paulista e o Fluminense foi ao Maracanã, junto com o trio de arbitragem paulista. Já a federação carioca mandou os seus próprios árbitros a São Januário, onde o Vasco se alinhava.

Presidente cruzmaltino, Antônio Soares Calçada botou a culpa em Eduardo Viana, o mandatário da Ferj, e garantiu que só estava cumprindo o ofício. Por ordem da federação local, a polícia e os bilheteiros já haviam se dirigido a São Januário. Presidente da Suderj e responsável pelo Maracanã, Chiquinho da Mangueira diria que “só abriu o estádio por cordialidade, porque não podia deixar o time do Fluminense e o árbitro na rua”. No fim das contas, a bola não rolou em nenhum dos palcos. Cerca de mil vascaínos estiveram nas arquibancadas, enquanto apenas um tricolor se aventurou no Maraca.

Dois dias depois, os oito times participantes do Rio-SP determinaram que o Fluminense deveria ganhar os pontos da partida, em pleito que contou com sete votos contra um. A federação paulista, sobretudo, se mostrava contrariada com a mudança no regulamento sem concordância. E a votação não resolveu a pendência. Em abril de 1999, o STJD anulou o W.O. favorável ao Flu, alegando que os clubes não tinham o poder decisório na ocasião. Todavia, como o torneio já havia terminado, os dois times desistiram da apelação. O jogo até hoje consta como “não realizado” e acabou não fazendo diferença à tabela. O Vasco avançou à segunda fase, conquistando o título, enquanto os tricolores acabariam eliminados mesmo se somassem os três pontos do W.O.