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Por mais que se possa questionar a postura de Neymar de se queixar publicamente da escolha do clube de preservá-lo nos quatro jogos anteriores ao início do mata-mata da Champions League, a discussão principal aqui não pode ser o comportamento do brasileiro. Em um panorama mais geral, o que o episódio de pós-jogo desta terça-feira (18) nos traz é uma amostra do quão mal gerido o Paris Saint-Germain é internamente. E, apesar das afirmações de Leonardo de que a cobertura da imprensa local em torno do clube é cercada de negatividade, o PSG em si não faz um grande serviço a si mesmo ao fazer desmoronar sua harmonia ao mínimo chacoalhão.

Depois de 17 dias sem jogar, perdendo quatro partidas no intervalo, Neymar voltou ao PSG já como titular para o confronto com o Borussia Dortmund pela ida das oitavas de final da Liga dos Campeões. Como seria de se imaginar, o brasileiro sofreu com a falta de ritmo e, em uma equipe mal armada taticamente, esteve longe do nível excepcional que vem apresentando na temporada.

Após a partida, em diversas entrevistas na zona mista do Signal Iduna Park, o brasileiro revelou que, na verdade, poderia estar atuando desde pelo menos o jogo com o Lyon, em 9 de fevereiro. Em suas palavras, deixou claro que discutiu com os médicos do clube para estar presente nas partidas de preparação ao confronto com o Dortmund e lamentou a falta de ritmo que acabou custando muito também à equipe.

“Estava realmente lesionado, tinha uma fissura na costela. Mas não era nada que me impedisse de jogar. Óbvio que tive que ficar recuperando uma semana. Para o jogo contra o Lyon (9 de fevereiro) eu já meio que estava preparado para jogar, já queria jogar. Só que adiaram de novo, adiaram de novo e adiaram novamente. (…) Entendo o medo que o clube sofre, porque em dois anos acabei ficando fora das oitavas. Respeito as decisões, mas não pode ser assim, porque quem acaba sofrendo é o jogador. Foi muito difícil poder jogar um jogo como esse, intenso, 90 minutos sem parar. É diferente. Se estivesse em condições melhores físicas com certeza teria feito um jogo melhor.”

As palavras após a partida não parecem ser um desabafo espontâneo. Pelo contrário, soam como um compreensível esforço coordenado de comunicação por parte do estafe do jogador. Afinal, na véspera do duelo com o Dortmund, pessoas próximas ao jogador vazaram a mesma informação a veículos como L’Équipe e Uol.

Para registrar aqui a crítica que cabe ao jogador, atirar no ventilador o problema interno com o clube não foi o melhor dos cursos de ação que Neymar poderia ter tomado. Foi, entretanto, a forma encontrada pelo atleta de se defender das críticas de que foi alvo desde a lesão. Uma decisão que, embora criticável, é também compreensível.

Faz-se necessário aqui ressaltar que não temos acesso a todas as circunstâncias de bastidores que levaram a esta situação, mas com o que se tem de público, é difícil absolver o PSG da gestão ruim do problema.

Se em sua premissa o clube tem também seu motivo para querer preservar o jogador, diante do histórico negativo de tê-lo perdido nos dois últimos mata-matas de Champions League, por outro lado a comunicação do episódio deveria ter sido melhor, mais transparente e de forma que não expusesse Neymar à sorte de abuso que recebeu desde que a lesão foi anunciada. Foi irresistivelmente fácil à parte da imprensa e da torcida encaixar este mais recente problema físico na narrativa de que o camisa 10 pipoca no momento decisivo, some atrás de lesões e trata mal suas contusões.

Neste intervalo em que esteve sem jogar, Neymar celebrou seu aniversário e esteve em um compromisso comercial marcado de longa data com um de seus patrocinadores – em acordo com o próprio clube. Se internamente, como agora se sabe, a lesão não era grave, externamente a impressão que se passou foi de que o jogador não estava tendo o zelo necessário com seu problema físico.

Bastaria ao PSG uma comunicação mais fiel a como as coisas vinham acontecendo para blindar o seu melhor jogador – no papel e na prática, nesta temporada – das críticas. Com as informações que agora vão saindo, direta e indiretamente, de dentro do CT de Camp des Loges, vê-se que a explicação clara da sucessão de acontecimentos não seria grave ao time.

A RMC Sport escreve nesta quarta-feira (18) que as palavras de Neymar não foram bem recebidas por membros da equipe médica do clube – o que é de se esperar. Ao veículo, contam que o brasileiro e Thomas Tuchel foram avisados em 3 de fevereiro que a lesão sofrida, apesar de parecer inócua, poderia se desenvolver e virar uma fratura grave. Neymar, como disse publicamente a jornalistas na terça, já se sentia bem para jogar, mas entrar em campo representaria um risco.

Comunicar claramente tudo isso à medida que as coisas iam acontecendo não deixaria brechas para uma crise como a que parece se desenhar agora entre jogador e clube. Ao escolher não fazê-lo, o PSG assumiu o risco de ter a história revelada de forma que fugisse a seu controle, já que restaram poucas opções a Neymar que não trazer à luz a questão a partir de sua perspectiva.

Como desgraça pouca é bobagem a este clube, após o fim do jogo, Manu Kimpembe, irmão do zagueiro Presnel Kimpembe, publicou em uma de suas redes sociais um vídeo em que ofende com palavras pesadas o técnico Tuchel, demonstrando insatisfação com a montagem do time pelo alemão. Esta reação, sim, pareceu um ato espontâneo, mas é também mais uma mostra da falta de gestão apropriada por parte da direção sobre seus encarregados.

O mais impressionante é constatar que todo este colapso acontece depois de uma derrota por 2 a 1 em uma partida de ida contra um adversário forte como o Borussia Dortmund, que conta com dois dos jogadores em melhor momento no futebol mundial, Jadon Sancho e Erling Haaland.

Se em termos de discurso Leonardo foi basicamente impecável ao proteger seus atletas, treinador e instituição na entrevista dada ao Canal+ após a vitória contra o Lyon, em 9 de fevereiro, na prática o clube não demonstra unidade suficiente para aguentar o mínimo tranco que é uma derrota que pode ser revertida com um simples 1 a 0 em casa, na volta.

Se o Bayern de Munique ficou conhecido no passado relativamente recente como o Hollywood FC, o PSG faz por merecer a alcunha de Carreta Furacão EC – um comboio na maior parte do tempo divertido de se ver, mas com membros cada um em sua própria dança e em um trajeto por vezes perigosamente desgovernado.