O Celtic venceu o Hearts, por 2 a 0, no último fim de semana, e encerrou o Campeonato Escocês com 34 vitórias e quatro empates em 38 rodadas e, pela primeira vez desde 1899, antes da Primeira Guerra Mundial, antes da invenção da penicilina, quando a expectativa de vida era inferior aos 50 anos e a atual rainha do Reino Unido nem havia nascido, um clube conquista a liga escocesa sem der derrotado. Com o Aberdeen na final da Copa da Escócia, no próximo sábado, os homens de Brendan Rodgers tentarão fazer ainda mais história e conquistar a Tríplice Coroa nacional pela quarta vez.

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Dá para argumentar que, com o Rangers ainda em reconstrução, o Celtic não teve adversários à altura no Campeonato Escocês. E não teve mesmo. Também dá para dizer que a superioridade financeira do clube em relação aos concorrentes é muito grande. E é mesmo: segundo o site especializado Transfermarkt, o elenco que Rodgers tem à disposição é quatro vezes mais valioso que o segundo mais caro da Escócia, o do Rangers. Depois da dupla, você precisa somar as avaliações dos oito elencos seguintes, de uma liga com doze clubes, para superar o dos Leões.

No entanto, um Rangers forte ou fraco não é necessariamente um fator. Equipes históricas do Celtic chegaram perto desse feito e fracassaram mesmo sem perder para o grande rival.. Em 1966/67, os comandados de Jock Stein raparam todos os títulos que disputaram, os três no âmbito doméstico e a Copa dos Campeões, e terminaram o Campeonato Escocês com duas derrotas, ambas para o Dundee United, sexto colocado daquela liga. O time treinado por Martin O’Neill, em 2001/02, um ano depois de conquistar a última Tríplice Coroa nacional do clube, perdeu a invencibilidade para o Aberdeen, terceiro lugar daquele certame.

O Rangers tinha boas equipes nessa época. Por exemplo, em 1967/68, tanto eles quanto o Celtic terminaram o Escocesão com apenas uma derrota, e a do Rangers foi para o Aberdeen, quinto colocado, na última rodada. Na década de setenta, conquistou a Recopa Europeia e duas Tríplices Coroas entre 1975 e 1978. Nas campanhas das duas trincas de troféus, somou dez derrotas pela liga escocesa, e apenas uma para o Celtic. Em 2002/03, o Rangers treinado por Alex McLeish sofreu dois revezes: um para o Celtic, outro para o lanterna Motherwell.

Ficar tantos jogos invictos depende menos de qualidade técnica e coletiva. Claro que é preciso tê-las, mas o mais importante são a força mental e a vontade de fazer história para buscar empates e viradas em partidas que não fariam nenhuma diferença significativa para a temporada – este título do Celtic foi conquistado com 30 pontos de vantagem para o vice-líder. Casos parecidos em tempos recentes e em torneios tão longos (38 rodadas) são o Arsenal de 2003/04 e a Juventus de 2011/12. Mesmo o Celtic de 1887/88 e o Rangers de 1888/89, as únicas outras equipes que conseguiram vencer o Campeonato Escocês sem nenhuma derrota, fizeram isso em campeonatos com apenas 18 rodadas, menos da metade da atual tabela.

“Você precisa apenas lembrar que faz 100 anos ou mais desde que isso foi feito para perceber o quanto é difícil alcançar esse feito”, afirmou Brendan Rodgers. “É um feito monumental dos jogadores e acho que o que fica perdido entre todos os recordes é que há uma dedicação real à excelência desde que eu cheguei. Eles mesmo podem dizer: eu exijo muito, muito deles, e ainda bem que vemos os benefícios. É um feito fenomenal para o clube e para este grupo de jogadores que vão escrever seus nomes na história de um clube incrível. É algo para eles dizerem aos filhos e aos netos com orgulho”.

A última peça do quebra-cabeças, como colocou Leigh Griffiths, autor do primeiro gol da vitória fatídica por 2 a 0 sobre o Hearts, é conquistar a Copa da Escócia, no próximo final de semana. Apenas três vezes na história (1966/67, 1968/69 e 2000/01), o Celtic conseguiu varrer todos os títulos escoceses na mesma temporada – já ganhou a Copa da Liga, em novembro. O rival Rangers conseguiu fazer isso sete vezes. E é simbólico que tanto o título invicto quanto a possível trinca acontecem na semana em que o Celtic comemora 50 anos do título europeu conquistado pelos Leões de Lisboa contra a Internazionale.

Porque o próximo passo para este Celtic é ser relevante na Europa, o que anda sendo um verdadeiro desafio. São apenas três classificações para as oitavas de final da Champions League neste século, com destaque para 2006/07, quando perdeu por apenas 1 a 0 no agregado para o Milan, o eventual campeão, e apenas seis presenças na fase de grupos. Não consegue nem mesmo fazer um bom papel na Liga Europa, desde que perdeu a decisão de 2003 para o Porto de José Mourinho. Não é real esperar que os Leões Invencíveis repitam o feito dos seus antepassados em Lisboa, dado o atual abismo de investimento entre o futebol escocês e o de países como Inglaterra e Espanha, mas eles têm condições de pelo menos fazer um bom papel para honrar a história dos campeões europeus.