Não há como confiar na Conmebol. Ao longo das últimas temporadas, as competições sul-americanas vêm sendo frequentemente acometidas por episódios de inscrição irregular de jogadores. Quase sempre a entidade lava as mãos e pune os clubes, em problema recorrente que provoca o natural questionamento dos processos internos. No entanto, o cúmulo da patifaria acabou oficializado pela confederação nesta semana. Nada menos que 21 clubes tiveram irregularidades nas inscrições de atletas pela Libertadores e pela Copa Sul-Americana. Não parece ser mera coincidência ou apenas culpa das federações nacionais. Tem algo que não está claro, no mínimo.

O mais cômico é que a Conmebol começa o comunicado tirando o seu da reta: “A apresentação no devido tempo e forma das listas de jogadores é de responsabilidade exclusiva dos clubes e associações membro, e em nenhum caso atribuível à Conmebol. Os regulamentos foram entregues e aceitos pelos clubes participantes na carta de conformidade e compromisso em dezembro de 2018 e também estão disponíveis no site da entidade. Ao todo, 21 clubes participantes da Libertadores e da Sul-Americana apresentaram erros nas etapas de envio das listas de jogadores. Diante dessa situação, a Conmebol atuou diligentemente e, de acordo com os procedimentos normativos, encaminhou esses erros ao Tribunal Disciplinar para estudo e consideração. Portanto, enquanto o Tribunal Disciplinar não tomar uma decisão sobre o assunto, a competição continua normalmente”.

Absolutamente todos os clubes brasileiros que ingressaram nestas fases iniciais das competições continentais estão irregulares: Atlético Mineiro, São Paulo, Botafogo, Santos, Bahia, Fluminense, Corinthians e Chapecoense. O problema também afeta os representantes de Chile e Paraguai em ambas as competições continentais, bem como da Venezuela na Sul-Americana. Ironicamente, a lista inclui o próprio Libertad – clube ligado ao ex-presidente da Conmebol, Nicolás Leoz, um dos imputados no Fifagate.

Em entrevista ao Fox Sports, o presidente do Atlético Mineiro falou sobre o caso. Sérgio Sette Câmara não descarta que a própria CBF tenha falhado na inscrição. “Se houve algum problema, foi entre as confederações. O Clube Atlético Mineiro cumpriu dentro do prazo. Vou dormir tranquilo nesse aspecto, porque estamos com toda a documentação. A torcida pode ficar tranquila, porque da parte do Atlético não há irregularidade”, apontou. “A nossa defesa está pronta, temos toda a documentação enviada dentro do prazo. O Clube Atlético Mineiro está tranquilo. Ele cumpriu com o seu papel. Esse é o caminho e ele foi feito dentro do prazo”. Há a suspeita de que a confederação brasileira tenha perdido o prazo limite, o que prejudicou todos os seus filiados. Como a Conmebol ressaltou em seu comunicado, a decisão sobre as consequências está nas mãos do Tribunal Disciplinar, mas a expectativa é de que não haja qualquer punição esportiva.

A maior interrogação cerca o “22° clube”. O Barcelona de Guayaquil foi punido na primeira fase preliminar da Copa Libertadores, por um imbróglio com a federação equatoriana na inscrição do meio-campista Sebastián Pérez. Os amarillos recorreram, embora a classificação tenha caído no colo do Defensor. No comunicado, a Conmebol dedicou um parágrafo especial ao episódio: “É importante ressaltar que o caso do jogador Sebastián Pérez, do Clube Barcelona, é substancialmente diferente, considerando que a normativa da FIFA relativa à inscrição do referido jogador não foi cumprida. Nesse caso, o Barcelona o incluiu em sua lista de boa fé, apesar de ainda estar registrado na Federação Mexicana de Futebol de acordo com a decisão dos órgãos judiciais”.

O Barcelona não deverá aceitar o posicionamento, especialmente se os 21 clubes forem absolvidos. A agremiação organiza um protesto na próxima rodada do Campeonato Equatoriano, convocando os demais participantes da primeira divisão. Presidente dos amarillos, o ex-goleiro José Francisco Cevallos promete acionar o Tribunal Arbitral do Esporte para resolver a pendência. Enquanto isso, a reputação das competições na América do Sul vai pelo ralo, pela mais pura desorganização. A união dos clubes é fundamental para questionar a Conmebol, sobretudo quando eles são os grandes prejudicados. Só anda meio difícil esperar tal reação, entre dirigentes subservientes e adeptos das trocas de favores.