Arquibancadas costumam servir como um importante espaço de discussão democrática, mesmo durante ditaduras. O papel dos estádios na aglomeração de multidões e na abertura aos debates independe do espectro político, cabe frisar. Há os mais diversos exemplos históricos, e pouco importa se o autoritarismo em prática fosse de esquerda ou de direita. Da mesma maneira como o futebol pode servir como uma ferramenta para alienar, ele também serve de caminho para burlar o sistema. As tribunas são, historicamente, espaços livres – por mais que diferentes regimes tentem exercer o controle sobre elas, não dá para conter o todo.

Dentro do contexto brasileiro, o Corinthians faz parte dessa história. Uma de suas principais torcidas, a Gaviões da Fiel, surgiu como elemento de contestação dentro da ditadura militar. Em 1979, os alvinegros chegaram a realizar protestos em prol da anistia. “Anistia ampla, geral e irrestrita” dizia a faixa exibida em jogo contra o Santos, que resultou em repressão aos organizadores da manifestação. Ainda assim, os corintianos seguiram se posicionando, como aconteceu de maneira mais ampla com outras torcidas ao redor do país.

Neste domingo, um torcedor do Corinthians foi detido na Arena enquanto se manifestava politicamente contra o presidente da república. O boletim de ocorrência foi registrado e traz um relato do episódio, conforme os depoimentos prestados à delegada de plantão no estádio. E, em um momento no qual o clube está inserido na polarização política, é importante o posicionamento oficial do Corinthians. A agremiação defende o direito à livre manifestação nas arquibancadas, algo garantido pela constituição, seja ela qual for.

“A Arena e o Sport Club Corinthians Paulista vêm a público repudiar o episódio que resultou na detenção do torcedor Rogério Lemes Coelho durante o jogo ocorrido no último domingo (04) contra o Palmeiras na Arena Corinthians, após sua manifestação contra o Presidente da República. O clube historicamente reitera seu compromisso com a democracia e a defesa do direito constitucional de livre manifestação, desde que observados os princípios da civilidade e da não violência. A agremiação lembra que diferentes autoridades, entre elas o presidente do clube, já foram alvo de manifestações da torcida durante os mais variados eventos esportivos realizados no local e o episódio caracteriza-se como um grave atentado às liberdades individuais no Estado Democrático de Direito”, escreveu o Corinthians, em sua nota oficial.

O episódio traz diferentes versões e diferentes pontos de vista. Rogério Lemes, o torcedor detido, relatou a agressão que sofreu ao Coletivo Democracia Corintiana. A Secretaria de Segurança Pública e o major Ricardo Xavier, responsável pelo policiamento durante o Dérbi, também deram os seus depoimentos. Há diferentes impressões e leituras do ocorrido, embora seja fato a intervenção dos policiais contra o torcedor. E, diante disso, é fundamental a maneira como o Corinthians se posicionou como instituição: em defesa das liberdades individuais no Estado Democrático de Direito.

Independentemente do teor político das manifestações, os clubes precisam compreender os seus estádios como espaços inseridos dentro de uma discussão ampla da sociedade. Ainda que não seja uma situação simples, toda e qualquer arbitrariedade precisa ser repudiada. Não há justificativas para uma agressão. Especialmente se a agressão tiver sido ocasionada por aquilo que é um direito. Que o Corinthians vá além de suas palavras e, se cabível, apoie o torcedor entre as medidas possíveis para evitar que novos episódios como este se repitam – não só dentro de seu estádio.