Este texto faz parte da minissérie fictícia sobre a criação da URSA, a União das Repúblicas Socialistas dos Agrestes. Quer ver o episódio anterior? Clique aqui e leia o primeiro episódio.

(Nota do editor: o texto original foi publicado em 2014 e, por isso, algumas informações sobre jogadores estão desatualizadas. Mantivemos como no original, que é o que faz sentido na narrativa da época).

Por Arthur Chrispin*

Com a aceitação da URSA na Conmebol, o calendário precisou ser ajustado para que o time entrasse no cronograma das Eliminatórias, que agora teria onze seleções, invés de dez. O encaixe seria complexo. Os gênios da confederação, mestres das tabelas, quiseram colocar os dez primeiros jogos do novo membro fora de casa, esperando a anuência de todos os integrantes mais antigos.

Todos concordaram, exceto o Brasil, que queria demonstrar seu poder e desejava massacrar os nordestinos jogando em casa. Assim, dos dez últimos jogos da União das Repúblicas Socialistas dos Agrestes, nove seriam em seus domínios e o último jogo, contra o maior rival desde o berço, seria disputado em São Paulo, conforme a vontade do presidente da confederação brasileira.

Em âmbito interno, a URSA vivia um momento esplendoroso em seu futebol. Os estádios tiveram seus nomes trocados de antigos ditadores e personalidades brasileiras para referências nordestinas. A Lampions League era um sucesso, nos moldes de turno e returno em pontos corridos. Os estádios viviam lotados e mesmo jogos sem muito apelo tinham grandes públicos. Além da Lampions, havia a Copa das Confederações [do Equador], que juntava todos os times do novo país aos moldes da FA Cup inglesa, com sua final sendo disputada de forma rotativa. Nesta temporada, a decisão seria jogada em Natal, na Arena Gilliard, antiga Arena das Dunas.

Sobre as convocações, a imprensa especializada e os torcedores criticaram tudo. Desde a escolha de Cristóvão Borges como técnico – preferiam Oliveira Canindé – até a não naturalização de Magrão, que foi preterido por Dida. Nomes como Pimentinha, Obina, Raffael e muitos outros foram citados, mas Juninho Pernambucano deu todo respaldo ao treinador e contratou Ronaldo Angelim com coordenador de seleções, algo como um Parreira com carisma, manteiga de garrafa e sabedoria.

O começo das Eliminatórias não foi auspicioso. O time demorou a se encontrar e a sequência de jogos fora de casa foi cruel. No primeiro jogo em casa, um modorrento empate sem gols contra o Brasil. Assim, nos últimos dez jogos, a URSA precisaria vencer oito e empatar dois para se qualificar sem depender de ninguém. Seria difícil, mas a Confederação acreditava. Mesmo muito pressionado, Juninho manteve Cristóvão.

Na já citada Arena Gilliard, a URSA estreou no returno contra a Bolívia. Os bolivianos sem a altitude são iguais a amor sem beijinho e Buchecha sem Claudinho: sentem o golpe. O futebol malemolente dos nordestinos finalmente apareceu e os andinos dançaram ao ritmo do forró: 6 a 0, com dois gols de Hulk, um de Firmino, um de Talisca, driblando o goleiro, um de Gabriel e um de Daniel Alves. Contra a Venezuela, em São Luis, na Arena Alcione, mais um show: 3 a 0, com gols de Pepe, Talisca e Hulk, infernal. Torcida e imprensa começavam a dar uma trégua a Cristóvão Borges.

Contra o Peru, no Estádio Ariano Suassuna, em João Pessoa – estádio, não Arena, porque o velho Ariano não era dado a estrangeirismos e seria capaz de retornar do mundo dos mortos para arengar com o termo – a URSA sofreu um gol de Guerrero logo no começo do jogo, mas Hulk empatou e dançou forró e Wallace, o zagueiro, professor, escolástico, filósofo, modelo, manequim e apresentador, virou o jogo. No segundo tempo, Hernanes, de falta, fechou a fatura.

No próximo jogo, a vítima foi o Paraguai, na Arena Torquato Neto, em Teresina. Recepcionados com a faixa “bem-vindos ao inferno” e um agradável calor de 47 graus, os paraguaios tomaram dois gols antes dos cinco minutos de jogo, ambos de Rômulo, cria da casa. A partir dali, os nordestinos só tocaram a bola e cozinharam o galo – e só não foi literalmente porque não havia galo no gramado.

O Chile foi encarado em Aracaju, na Arena Tobias Barreto, em um jogo duríssimo. Gabriel e Hulk fizeram pela URSA, Medel e Alexis Sanchez fizeram pelos chilenos. Quando tudo se encaminhava para um empate, Talisca driblou o time chileno inteiro e só não entrou com bola e tudo porque teve humildade e, mais do que isso, juízo. Um 3 a 2 chorado e sofrido.

O Equador foi o próximo adversário, sendo recebido no Estádio Graciliano Ramos, antigo Rei Pelé. Sem a altitude de Quito, foi presa fácil. Uma goleada por 4 a 0, com gols de Hulk e Talisca, dois de cada. No fim do jogo, Cristóvão colocou Flávio Caça-Rato em campo. O jogador era criticado pela imprensa, taxado de invenção e folclore por parte do treinador.

Com o jogo ganho, houve uma penalidade para a URSA e a torcida gritou o nome de CR7 em peso. Ele partiu para a bola, deu uma cavadinha e colocou a pelota caprichosamente… nas mãos do goleiro. Cabisbaixo, foi amparado por Hulk, que o mandou levantar a cabeça e disse, olhando nos olhos do pupilo: “você ainda vai decidir pra gente”.

Contra a Colômbia, na Arena Rachel de Queiroz, em Fortaleza, um jogo duríssimo. Falcão Garcia abriu o placar com um chutaço de fora de área e James Rodriguez infernizou Daniel Alves até deixar o seu gol. Com 2 a 0 contra no placar, Cristóvão alterou o time. Hulk diminuiu no início do segundo tempo e Falcão logo respondeu: 3 a 1 . Hernanes, de fora da área, diminuiu mais uma vez e Diego Costa, que havia entrado no decorrer do segundo tempo, finalmente tirou sua urucubaca e fez o giol de empate, fazendo explodir o antigo Castelão e deixando a torcida em chamas.

A URSA enfrentaria o Uruguai em Salvador, a Argentina em Recife e o Brasil fora de casa, em São Paulo. Precisava de duas vitórias e um empate para se classificar para o Mundial de 2018. Conseguiu? É o que veremos no último capítulo dessa trilogia.

*Arthur Chrispin é gerente de logística, carioca com título de cidadão honorário da URSA, pai da Bubby e do Gabo, flamenguista e futuro escritor, com o primeiro livro a ser lançado em 2015. Escreve crônicas do dia-a-dia no Cotidiano e outras drogas.

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