Do Rio de Janeiro a Lima, e de volta ao Rio, a convite da Rexona Brasil

À medida que o saguão próximo ao portão de embarque se enchia no Galeão, o preto e vermelho dominavam a visão ao redor. A noite caía no Rio de Janeiro e mais 140 rubro-negros se preparavam à viagem rumo a Lima. Rumo ao sonho de conquistar a Libertadores. Rumo ao fim de uma espera que durava 38 anos. Rumo à maior alegria que poderiam sentir.

A jornada ao Peru dependeu, invariavelmente, de sacrifícios. Pelos custos da viagem e pelo parco tempo hábil para planejá-la, o sacrifício financeiro se tornou praticamente inescapável. Parte dos milhares de flamenguistas presentes no Estádio Monumental “U” não precisaram fazer grandes manobras em suas poupanças, claro. Mas, entre os privilegiados que puderam atravessar o continente, muitos precisaram torrar suas economias para viver aquela tarde de Libertadores. Era o esforço máximo por 90 minutos que representavam uma vida.

“A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela”

Casamentos ficaram em risco com essa viagem. Planos futuros acabaram freados para desembolsar o montante necessário para realizar a jornada. Automóveis foram vendidos. E o desprendimento a uma porção de zeros enfileirados significava, na verdade, o apego por algo longe de ser material – que é puro sentimento: o esforço para ver o Flamengo campeão. Naquele Boeing 737, esse era o pensamento que unia pessoas de diferentes origens e diferentes ideologias. Em comum, o desejo de vivenciar o duelo contra o River Plate em sua plenitude.

Que a condição financeira de pagar R$8 mil em uma viagem de dois dias fosse um privilégio gigantesco, muitos tinham a consciência de que a final única longe de casa alijava uma multidão de também experimentar a sensação no Maracanã. Por isso mesmo, era questão de honra aproveitar ao máximo a oportunidade, não só por eles, mas por quem frequenta o estádio todo santo jogo e não pôde se sacrificar. Era uma questão de coerência, por mais que acabe dentro do interesse econômico que prevalece à Conmebol.

“Fez um desembarque fascinante no maior show da terra”

E a viagem, afinal, compreendeu outros tipos de sacrifício. Ela exigiu uma força mental que muitos daqueles torcedores sequer imaginavam. Enquanto o embarque não acontecia, ainda na fila, o que eles mais faziam era cantar – “Dezembro de 1981”, sobretudo. O Galeão já era um pedaço do Estádio Monumental “U”, numa travessia que duraria boas horas – e mais do que as previstas inicialmente. Ali, no entanto, era o início de uma festa maior que se prometia nas arquibancadas. – e, quem sabe, se tornaria imensurável após o apito final.

Os rubro-negros do voo 9600 ocuparam os assentos do avião em pura euforia. Nem mesmo o atraso de quase duas horas na previsão inicial de decolagem foi capaz de estragar o clima. A ansiedade pelo jogo existia, claro. Mas logo ela começou a ganhar outros contornos, com o passar dos minutos no quente interior da aeronave. A “balinha da sorte” oferecida durante a entrada não daria tanta sorte assim. Primeiro, por documentos que não estavam regularizados e que ampliaram o atraso. Depois, pela descoberta de um problema mecânico no trem de pouso, que adiou mais a partida.

“Será que eu serei o dono dessa festa?

E o pouco, que seria de meia hora, se transformou em mais meia hora, e mais meia hora. As meias horas iam passando, até que a incerteza se o voo realmente partiria tomasse os rubro-negros. Estava claro que não era um problema simples, por mais que a tripulação tentasse acalmar os ânimos. Olhar na janela os mecânicos utilizarem enormes ferramentas ou pegarem um cilindro de ar ampliava a preocupação diante da desinformação.

De tanto esperar, uma hora a manada estourou. Um passageiro (lá para cobrir o evento, não para torcer) desistiu da viagem. Outros estipulavam um horário limite para continuar ali. Não era apenas uma questão de temor pela própria vida, diante de uma situação totalmente nebulosa. Era uma mistura de pensamentos entre a vontade de ver o Flamengo e tudo aquilo que se abria mão para tomar aquele voo. Eram os sacrifícios. O esforço de dias, meses e até anos poderia simplesmente não acontecer por uma falha na manutenção. Tudo era incerto.

Um rei no meio de uma gente tão modesta?

A aeronave, que deveria levantar voo às 18h, só ganhou o “sim” dos mecânicos já depois das 23h. O tempo para se aprontar rumo ao estádio seria curto. E não era aquela multidão apaixonada que abriria mão da viagem. Antes de torcer pelo Flamengo, eles precisaram torcer por um voo seguro. Pela palavra da companhia aérea e da tripulação. Ainda assim, o avião seguia cheio lotado. Seguia cantando forte. Seguia querendo viver um sábado em vermelho e preto. Bradar a paixão pelo Mengo era uma maneira de abrandar os medos e mostrar que todo mundo estava junto naquele mesmo barco.

O próprio voo, se não era exatamente um retrato da diversidade social ou de gênero que existe na torcida do Flamengo, também trazia uma mistura. A maioria era carioca, mas tinha gente que veio de outros estados até o Galeão, para reforçar o caráter nacional dos rubro-negros – como ficou ainda mais evidente em Lima. Reunia gente de diferentes opiniões políticas e, óbvio, de diferentes opiniões sobre o Fla. Tinha criança que veria uma história para contar para o resto da vida e idosos que resgatariam memórias de Dida, de Zico, de Petkovic. Tinha muita gente distinta, e igual, porque ali se formou quase que instantaneamente uma irmandade. A devoção era a simbiose.

“Eu vim descendo a serra cheio de euforia para desfilar”

Quando o voo partiu do Galeão, todo mundo precisou ter fé. Afinal, sabe-se lá o que poderia acontecer com uma aeronave recém reparada, sob a admissão de que houve um improviso no conserto. Por sorte, nada de mais grave ocorreu. E o voo, até a escala em Santa Cruz de la Sierra, reunia muito do que é o Flamengo: um ar de deboche nas brincadeiras, uma empolgação incontrolável na forma de se expressar, uma confraternização nas conversas, uma certeza de que algo melhor realmente poderia se consumar. Eram todos amigos de longa data, mesmo se conhecendo pouquíssimas horas antes.

E estariam todos de mãos dadas, ao menos simbolicamente, quando aconteceu a aterrissagem no aeroporto de Viru Viru, na Bolívia. Ninguém se importava com as tensões no país vizinho e nem mesmo imaginava o que seria do Flamengo depois. Só queriam que a porcaria do trem de pouso funcionasse. Funcionou. Com um tranco amplificado pelo receio, mas funcionou. O sorriso era de um alívio por estarmos a salvo, claro, mas também pela garantia que a Libertadores estava apenas algumas horas mais próxima, sem outros contratempos.

O mundo inteiro espera, hoje é dia do riso chorar

Seria assim na segunda metade da viagem, um pouco mais silenciosa e cansada, até Lima. O sábado amanhecia no final da madrugada, com os primeiros raios de sol despontando na janela do Boeing durante a nova aterrissagem. E o ânimo se revigorou com a ajuda do comissário de bordo, Ronald, gente boa demais. Não ser flamenguista não era um problema. Ter um puxador de samba-enredo da União da Ilha para comandar a cantoria dentro da aeronave foi fantástico.

De uniforme e o próprio microfone do sistema interno em mãos, Ronald relembrou o velho samba de 1982. Aquele que costuma ser cantarolado de cor por tanta gente, independentemente da escola do coração. Tudo parecia fazer um irônico e perfeito sentido naquela letra. Era aquele o dia, o dia da alegria, no qual a tristeza nem podia pensar em chegar.

“Levei o meu samba pra mãe de santo rezar, contra o mal olhado eu carrego meu patuá”

O cansaço e o estresse até se colocavam como desafios aos rubro-negros, mas era difícil encontrar alguém na “avenida” mais feliz que eles. Depois de uma jornada que durava mais de 12 horas a todos (e mais de 24 horas a alguns), ainda encararam a demora na chegada do ônibus que levaria para dentro do aeroporto e a fila na migração. Nada que custasse aquela energia intrínseca de ver o Fla campeão.

Alguns deles sequer puderam dormir, já no começo da manhã em Lima. Foram direto para os hotéis onde deixariam suas malas, antes de se encaminharem ao estádio, num trânsito maluco que serviria como mais um castigo ao corpo exausto. Porém, a mente lúcida se mantinha, mesmo em claro. Mais forte que o sono era o sonho acordado. E assim aconteceu com aqueles 140 passageiros do voo, com outros milhares rubro-negros que chegaram ao Peru em cima da hora. Importante era estar no Monumental. Era mergulhar na atmosfera. Era testemunhar.

“Acredito ser o mais valente nessa luta do rochedo com o mar – e com o ar!”

Os irmãos de jornada se dispersaram. Mas de certa forma seguiram juntos nas arquibancadas, num só pensamento, ao longo dos 90 minutos cheios de tensão contra o River Plate. Eles e o restante da multidão em vermelho e preto. Ninguém mais se lembrava dos perrengues da viagem, do medo com o trem de pouso, da correria até ficar de frente com o campo. E nem tinha sentido focar nisso, ainda mais depois que o River Plate abriu o placar, quando os velhos traumas na Libertadores voltavam à tona.

Confesso que, quando a desesperança batia pela reação rubro-negra que não acontecia, cheguei a pensar no que seria do voo de volta. Mas esse devaneio desapareceu à medida que Gabigol se impôs dentro de campo. O grito que vinha de dentro dissolveu qualquer ideia que não fosse ao que ocorria naquela final, ao maior momento de paixão a gerações de rubro-negros. Mais do que nunca, o desejo era vivenciar a conquista em sua plenitude. Ser absorvido por aquele ambiente. Por um sábado que nunca mais terminará. Três minutos que valem por toda uma existência como torcedor.

É hoje o dia da alegria, e a tristeza nem pode pensar em chegar

Uma das maiores provas de amor pelo Flamengo aconteceria após o apito final, no espetáculo comandado nas arquibancadas. Seguiria tomando a forma das ruas, à medida que a multidão deixava o estádio. E não cessaria nem mesmo com o cair da noite. Todo o desgaste da viagem era insuficiente para derrubar quem estava repleto de felicidade, que se recusava a perder esse momento. Era o dia da alegria. O dia do riso chorar.

No domingo, o reencontro com os demais passageiros no aeroporto de Lima mais parecia um evento de família. Os cumprimentos calorosos se transformavam em vibrantes abraços, em que a gargalhada escancarada e os olhos brilhantes eram naturais. Todos enfrentaram aquela viagem por algo maior. E, então, a provação da ida se tornava motivo de piada na caminhada até o topo da América. Valorizava toda a epopeia.

“Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu”

As vozes mal existiam. Quem não estava rouco parecia um herege que não havia vivido direito a final – e estes eram minoria da minoria. Todos se mostravam dispostos a compartilhar suas experiências, compartilhar a maneira como sentiram as horas anteriores, compartilhar um turbilhão dentro do peito que parecia impossível de conter. Novamente, como amigos de longa data, como irmãos. E a espera de mais outras horas foi encarada com leveza, após o atraso da aeronave por conta do tráfego dentro do aeroporto.

Naquelas horas, aliás, todos tiveram um motivo a mais para celebrar: o tropeço do Palmeiras contra o Grêmio também confirmava o título do Flamengo no Brasileirão. Ali, de frente ao portão de embarque, no saguão do aeroporto de Lima. Em cerca de 24 horas, o êxtase se duplicou. Rendeu mais abraços, mais cantoria, mais orgulho de ser rubro-negro. Aquelas 140 pessoas viveram, juntas, instantes que nunca mais esquecerão.

A comunhão coletiva enfrentaria mais de seis horas de voo, sem os mesmos temores quanto à segurança da aeronave. Os cânticos também não eram tão fortes, assim como o samba da União não ecoou. Mas não era isso que fazia daqueles 140 rubro-negros menos felizes. Naquele momento, o contentamento havia amainado por uma certeza de haver tatuado a história na memória. O desejo de todos era chegar em casa, não só para descansar. Era também para transmitir tudo o que se sentiu aos rubro-negros que não puderam estar em Lima. Uma sensação que não se limita, que se espalha também através da oralidade.

“Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu”

De volta ao Galeão, a despedida carregava consigo não só um adeus, mas uma saudação entre os passageiros. A chance de se reencontrar com um daqueles desconhecidos de novo passa, basicamente, pelas arquibancadas do Maracanã – e, mesmo assim, é bem possível que não aconteça outra vez. Ficava um agradecimento pela partilha do instante que nunca mais acabará a esses flamenguistas. Pelas lembranças felizes que resistirão para sempre a estes e a outros rubro-negros, presentes ou não no Monumental.

Testemunhar tudo aquilo foi um privilégio enorme. O dia da alegria, em que o fim nem pode pensar em chegar.

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*Esta crônica é dedicada aos demais amigos instantâneos de voo a Lima, cujas conversas e experiências inspiraram as linhas acima, bem como aos parceiros de cobertura patrocinada pela Rexona – os agora também amigos Felippe, Luana e Rafael. Imagino que estas 72 horas não terminarão para nenhum de nós.