O Dynamo Dresden entrou em campo, nesta terça-feira, para enfrentar o Arminia Bielefeld, pela segunda rodada da Copa da Alemanha. Foi derrotado por 1 a 0, mas o significado da partida transcendeu o que aconteceu em campo. Foi a chance de a torcida e o clube da segunda divisão, um dos grandes do lado oriental da Alemanha na época em que o país era dividido, despedirem-se de um dos seus maiores ídolos: o meia Reinhard Häfner, que morreu na noite da última segunda-feira, aos 64, vítima de um câncer de próstata.

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Häfner jogou no Dynamo Dresden entre 1971 e 1988. Com 519 partidas oficiais, é o segundo jogador que mais atuou com a camisa do clube da Saxônia. Meia muito técnico e inteligente, terminou essa história com 69 gols marcados. Conquistou quatro vezes a principal liga da Alemanha Oriental e quatro Copas nacionais. “A minha geração garantiu que o Dynamo Dresden aparecesse no mapa do futebol da Europa”, disse, certa vez, ao DNN.

Nessa trajetória, quase impediu que o Bayern de Munique, da outra Alemanha, conquistasse seu primeiro título europeu: na segunda rodada da Copa dos Campeões da Europa de 1973/74, o Dynamo Dresden de Häfner chegou a estar vencendo os bávaros por 3 a 2, em Munique, até a metade do segundo tempo. O Bayern conseguiu a virada e venceu por 4 a 3. O jogo de volta foi tão emocionante quanto: empate por 3 a 3, com direito a um gol de Häfner.

Também brilhou pela seleção. Defendeu a Alemanha Oriental 58 vezes e conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976. Na final contra a Polônia, anotou o último gol do torneio de futebol na vitória por 3 a 1.

Quando encerrou a carreira, virou técnico do Dresden e venceu a última DDR-Oberliga antes da reunificação da Alemanha. Foi também responsável por quebrar uma sequência de dez títulos nacionais seguidos do Dynamo Berlim – clube favorito do chefe da Stasi, a polícia da Alemanha Oriental. “Todos os times da liga sentiam que as coisas não estavam certas. Mas não podemos esquecer que o BFC Dynamo também era um time muito bom. Acho que eles teriam ganhado sete títulos sob condições normais, mas três deles (dos dez) foram graças aos árbitros”, disse, em janeiro deste ano, ao Prager Zeitung.

Na temporada seguinte, foi vice-campeão e classificou a equipe para a Bundesliga de 1991/92. O ex-jogador foi demitido do Dynamo Dresden em 1993 e assumiu cargos de diretor. Em seguida, tentou a sorte no Chemnitzer, que estava na segunda divisão. Ainda passou por equipes de menor expressão, sem grande sucesso como treinador. Sofreu com alcoolismo e depressão, que o fizeram buscar ajuda profissional, em 2007. “Isso pode ter salvado minha vida”, disse, ao site do Dresden. Ganhou mais nove anos, mas os remédios que precisou tomar contra a depressão fizeram com que tivesse problemas renais, em outubro de 2013. No ano seguinte, foi diagnosticado com câncer dois meses antes de seu clube do coração cair para a terceira divisão. Trabalhou com fisioterapia em uma clínica de recuperação em Dresden até morrer.

Ele afirma ter sido demitido três vezes pelo Dynamo Dresden: como treinador, diretor e diretor das categorias de base. Nada que o fizesse ter menos amor pelo time que lhe deu tanta coisa. “Eu poderia ter rompido relações com o clube, mas as decisões foram tomadas pelas pessoas que estavam no poder naquela época, não pelo clube”, disse. “É o meu clube. Cheguei aqui em 1971, como um jogador jovem. Depois, trabalhei como auxiliar técnico, treinador, diretor, olheiro”. Estava otimista com o futuro do Dresden, que conseguiu retornar à segunda divisão nesta temporada e briga para subir à Bundesliga. A fidelidade valeu a pena: foi nomeado capitão honorário no aniversário de 60 anos do clube, em 2013.

“Um dos maiores jogadores da história do nosso clube nos deixou”, disse o atual presidente do Dynamo Dresden, Andreas Ritter. “Perdemos uma pessoa muito querida nos nossos corações”. E, por isso, o dia foi de homenagem para Räfner no Stadion Dresden. Os jogadores atuaram com uma faixa preta e foi respeitado um minuto de silêncio. A torcida, por sua vez, soltou a voz: “Você é um herói para todos. Descanse em paz, Reinhard”.


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