João Cabral de Mello Neto batizou como “Severino” o protagonista de sua principal obra, “Morte e Vida Severina”. Tão comum e enraizado no Nordeste, o nome representa a severidade da vida que se impõe sobre os moradores do sertão. Pois com o nome de Severino também foi batizado um dos maiores emblemas do futebol nordestino nestas últimas décadas. Severino dos Ramos Durval da Silva, o Durval, carregou a severidade com os atacantes em sua carreira como zagueiro e na própria fama de não sorrir sequer para comemorar um gol. Nesta semana, anunciou o fim de uma trajetória nos gramados que rendeu muitos títulos e conquistou o respeito de diversos torcedores ao redor do país.

Soa como uma poética coincidência que o Severino Durval nascido em Cruz do Espírito Santo, cidade paraibana de onde saiu Augusto dos Anjos, tenha construído a maior parte de sua idolatria no futebol do Recife – a terra de João Cabral de Mello Neto. Com a camisa do Sport, Durval pode ser incluído entre os maiores jogadores do futebol pernambucano em todos os tempos. Capitão e figura indispensável a muitos dos sucessos rubro-negros, a seriedade era só uma das virtudes do bom zagueiro.

O currículo de Durval pode ser igualado por pouquíssimos jogadores do Sport. O zagueiro totalizou 472 partidas pelos rubro-negros, terceira maior marca do clube. Conquistou seis estaduais, com direito a um tetracampeonato entre 2006 e 2009. Ajudou o Leão a se manter na Serie A durante a maior parte de suas duas passagens e disputou até Libertadores. Já o maior legado fica aos dois principais troféus erguidos pelo Xerife. A Copa do Brasil de 2008 é um orgulho imenso na Ilha do Retiro, levantada justamente pelo camisa 4, autor de um gol inesquecível contra o Internacional naquela caminhada. Ele também faria bonito no Nordestão de 2014, faturado logo em sua volta à equipe. Ao lado de Magrão (apesar da saída litigiosa do goleiro), o beque simboliza uma era na capital pernambucana.

Durval teria mais histórias gloriosas ao redor do Nordeste. Além de defender Confiança e Unibol-PE, o defensor conquistou o primeiro estadual de sua carreira pelo Botafogo, em sua Paraíba, no ano de 2003. A partir de então, iniciaria uma série de 12 títulos estaduais, 10 deles consecutivos. Em outras regiões, obteve sucesso primeiro no Brasiliense, campeão do DF e da Série B em 2004. Brilharia depois no Athletico Paranaense, não só por levar o Paranaense, mas também por alcançar sua primeira decisão da Libertadores em 2005. E após sua primeira passagem pelo Sport, de 2006 a 2009, o Xerife viveria o ápice na Vila Belmiro, com o Santos.

Durval quase foi parar na Europa antes disso. Jorge Jesus queria levá-lo ao Benfica, mas os encarnados não chegaram a um acordo com o jogador. O zagueiro preferia permanecer no Brasil e, quando foi apresentado pelo Santos, até declarou que “graças a Deus” não se transferiu a Portugal. Aos 29 anos, desejava seguir ao lado da família no país, com uma filhinha bebê de pouco mais de um ano. O bom momento pessoal se refletiu no sucesso do defensor também com a camisa do Peixe.

O tricampeonato do Paulistão serviu para sustentar a sequência impressionante de Durval, que faria mais ao integrar uma equipe fantástica do Santos. A Copa do Brasil em 2010 deslumbrou, antes que os alvinegros rompessem o jejum de quase cinco décadas sem conquistar a América, ao alcançarem o tricampeonato da Libertadores. Ao lado de Edu Dracena, Durval formou uma dupla muito sólida. A zaga segurava as pontas para Neymar e Ganso arrebentarem lá na frente. E o então camisa 6, apesar de um gol contra no segundo jogo decisivo contra o Peñarol, também merece ser lembrado pela partidaça que fez em Montevidéu. O Xerife foi fundamental para segurar a pressão carbonera no empate por 0 a 0.

O Santos deu a oportunidade para Durval disputar um Mundial de Clubes, ainda que a derrota para o Barcelona em Yokohama e a invencionice de Muricy Ramalho em sua zaga não reservem boas lembranças. E o Santos também serviu de trampolim para que Durval ao menos fizesse uma aparição pela seleção brasileira, em 2012, no Superclássico das Américas. Se a muitos jogadores o torneio amistoso parecia uma chance exagerada, ao zagueiro valeu como reconhecimento a tudo o que conseguiu em sua carreira. Aliás, ele somou outra taça.

A volta ao Sport em 2014 seria bastante comemorada. Em sua reapresentação, o zagueiro chegou ao gramado da Ilha do Retiro carregando o troféu da Copa do Brasil. Esta segunda passagem não seria tão vitoriosa, assim como não veria um nível tão alto do zagueiro. Independentemente disso, serviu para ampliar sua imagem como um dos grandes aos rubro-negros. Ficaria no clube até meados de 2019, quando completou 40 anos e o físico já não dava mais conta de uma carreira profissional. Nunca deixará de ser adorado em Recife.

Parte do carisma de Durval se dá por seu jeitão, de zagueiro sério e sem enfeites. Mas a importância do que construiu ao futebol do Nordeste vai além, também como um ótimo jogador. O defensor unia firmeza e segurança, bem como muita imposição no jogo aéreo. Não foi um beque perfeito. Todavia, se não se colocou exatamente como um convocável constante à Seleção, esteve entre os principais de sua posição no Brasil durante um bom tempo. Conquistou o maior título do continente, foi campeão em quase todos os clubes pelos quais passou, é venerado por uma torcida apaixonada. Sua história já vale a memória a muita gente.

O anúncio da aposentadoria não guardou muitas palavras de Durval. “Decidi parar”, resumiu ao Globo Esporte, sem dar entrevista, e fez uma postagem breve nas redes sociais. Muitos outros falaram por ele. Sport e Santos puxaram as homenagens, repercutidas pelas contas oficiais das principais competições que o beque conquistou. Já os torcedores reservaram o carinho por tudo aquilo que o camisa 4 representou. Dose de folclore à parte, que permitiu a Durval ser querido também por outras torcidas, prevalece a marca dos títulos e das boas atuações acumuladas pelo veterano. O Nordeste é grato a mais este Severino, que fez a vida de tantos torcedores menos severina.