Dura vida de torcedor. Vida de Gado

“… Vocês que fazem parte dessa massa…”
por Erlandsson Oliveira*

Vergonha! Medo! Selvageria! Indecência! Desrespeito!

Assim defino o que vivenciei ontem nos portões de acesso ao Morumbi. A culpa, em sua maior parte, deve ser atribuída à péssima empresa Zetks e seus colaboradores. Essa empresa vendeu a imagem de moderna e organizada, mas o serviço que ela presta é medíocre e vergonhoso. Que saudade da antiga empresa!  Procurem as reclamações sobre a Zetks na internet e verão que não sou o único descontente.

Dias atrás, eu enviei um email e alertei sobre o péssimo serviço prestado. Procurei ser simpático e citei que rezaria para Nossa Senhora das Arquibancadas… Não tiveram nem a dignidade de me responder. Mas agora a coisa é séria: eu contratei o plano Fabuloso, que me garante acesso à todos os jogos do São Paulo FC, quando este for mandante. Tive problemas para entrar contra o Mogi-Mirim, Catanduvense e Santos. Como já disse, alertei-os. E ontem cheguei ao ápice: simplesmente não entrei no Morumbi. Antes de continuar minha reclamação, uma pegunta: eu serei ressarcido?

Queria ter entrado e visto o lindo gol da Ponte Preta, comemorado o gol do Casemiro, a virada com o Lucas, sofrido com a possibilidade da desclassificação, gritado fora Juvenal, vibrado com o gol do Luís Fabiano e depois delirar aliviado com a classificação. Mas não: minha noite acabou em um boteco, assistindo pela televisão, na companhia dos meus amigos.

Chegamos e fomos para a imensa fila. Faltavam aproximadamente 40 minutos para o jogo começar. No local onde nós chegamos, nós ficamos. Tumulto e desorganização impediam que o acesso às arquibancadas fosse possível. Mesmo com toda tecnologia existente no mercado, a high-tech Zetks controla o acesso dos torcedores através de uma planilha de papel. Um funcionário pega o cartão (que não tem uma mísera tarja magnética), vai até um outro funcionário que fica com a lista impressa nas mãos, procura o nome do “sócio-sofredor” e após encontrar o nome, um terceiro funcionário é acionado, para passar o cartão magnético que libera o acesso. Isso é feito para cada torcedor, de forma individual, quase artesanal. Parece burocracia de órgão público! O preço disso? R$ 1.920,00 no Plano Fabuloso, dividido por três amigos, ao custo de R$ 640,00 para cada um por ano.

O jogo já havia começado e eu estava do lado de fora. Quando vi policiais chegando com cavalos e escudos, optei por preservar a minha integridade física e moral. Sou um cidadão íntegro e honesto, não tenho motivos para entrar em confronto com policiais. Meu único “crime” foi ter contratado um péssimo serviço, prestado por uma péssima empresa. Saí da fila e fui embora com meus amigos. Ao chegarmos no carro, pagamos o nosso personal-flanelinha (sim, até isso temos!) e partimos em retirada.

Sou assíduo frequentador de estádio e, em 31 anos de vida, é a primeira vez que fico do lado de fora do espetáculo. Uma fila interminável, pessoas querendo entrar a qualquer custo, a polícia complicando da forma que podia. Cada um contribuindo da melhor maneira possível, para que o caos fosse maior.

Cheguei em casa e soube que o público foi de 26.438 pessoas. Eu já fui ao Morumbi com mais de 100 mil pessoas e nunca passei pelo sofrimento de ontem. Espero que resolvam esse problema o quanto antes. Na próxima quarta-feira tem jogo novamente. Por mim, trocaria a empresa imediatamente, para evitar novos aborrecimentos, afinal eles já comprovaram a incompetência.

Desorganização, desrespeito ao consumidor, tumulto e violência. Esse é o país que sediará a próxima Copa!

“… Êe, Oh! Oh! Vida de gado; povo marcado, povo feliz!”

* Erlandsson Oliveira tem 31 anos, é contador e ontem só queria assistir ao jogo das arquibancadas, como sempre fez. Enquanto escrevia esse texto, assistia aos gols pela televisão e ouvia “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho