Já imaginou um duelo entre o campeão da Copa América e o campeão da Eurocopa? Pois é o que o presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, comentou nesta semana. A ideia é que esse confronto exista, o que parece uma ideia bem interessante. Acaba sendo uma reação ao fim da Copa das Confederações (in memorian), que, convenhamos, não era lá grande coisa mesmo e não fará falta. O duelo entre os campeões da Uefa e Conmebol teria a importância de um amistoso de luxo, mas seria bastante atraente do ponto de vista esportivo e, claro, comercial também.

Ceferin falou sobre o assunto em uma entrevista ao jornal Times, do Reino Unido, na sede da Uefa, em Nyon, na Suíça. Na conversa, ele comentou sobre essa ideia de uma espécie de Supercopa entre os campeões de seleções da Europa e América do Sul, sobre ideias para a Champions League e foi duro contra a ideia de uma Superliga.

Um repórter questionou se consultariam a Fifa para a criação desse duelo entre campeões da Eurocopa e Copa América, já que a entidade parece se opor à ideia. “Por que vou ter permissão à Fifa? Eles não têm nada a ver com isso”, explicou Ceferin. Para o dirigente, a decisão não depende da entidade que dirige o futebol mundial, já que seria um jogo de dua confederações. “Somos sócios da Fifa, não subordinados”, disse ainda o esloveno.

Seria uma ideia muito interessante. Pensando que a Copa América ainda terá a edição 2020, faria sentido que o duelo envolvesse o campeão da próxima edição com o campeão da Eurocopa também de 2020. Poderia ser feito em uma data Fifa do segundo semestre, de alguma forma – teria que se encaixar no calendário de Eliminatórias da Copa do Mundo, que começaria logo e seguida.

Não se falou na disputa ser em jogo único ou em dois jogos, o que tornaria bem mais interessante. Digamos que dois jogos com ida e volta, cada um em sua casa, seria o melhor. Muito divertido para os torcedores dos dois países. E tornaria os duelos mais interessantes em termos de torcida e rivalidade.

Curiosamente, esse duelo já existiu. Era a Copa Artemio Franchi, jogada duas vezes, em 1985 e 1993. Uma espécia de Copa Intercontinental de seleções. Em 1985, a França, campeã europeia de 1984, enfrentou o Uruguai, campeão sul-americano em 1983, e venceu por 2 a 0 em Paris. Em 1993, a Argentina, campeã sul-americana daquele ano, enfrentou a Dinamarca, campeã europeia de 1992 e venceu nos pênaltis por 5 a 4, depois de empate por 1 a 1 em Mar del Plata.

Ideias para a Champions League – e nada de Superliga

O dirigente ainda falou sobre a Champions League e deu uma ideia que deve gerar bastante debate também: dar aos semifinalistas da Champions League uma vaga garantida na fase de grupos do ano seguinte. Isso, nas palavras de Aleksander Ceferin, seria para proteger os times que conseguem fazer boas campanhas. E usou o que aconteceu na temporada 2018/19 como exemplo.

“Nós gostaríamos de proteger times como o Ajax neste ano, ou Monaco e Leicester City antes. Ajax jogou a semifinal este ano e agora eles terão que vender todos seus jogadores porque eles não sabem se irão se classificar para a Champions League no ano seguinte”, afirmou Ceferin ao jornal Times.

“Eu não acho que nós deveríamos proteger muitos clubes, porque se não fica muito fechado, mas eu acho que nós temos que proteger alguns clubes. Uma ideia é que aqueles clubes que tiverem sucesso e forem até um certo estágio da competição possam competir no ano seguinte também. Mas é uma discussão apenas. Nós temos uma reunião no dia 11 de setembro para debater isso com as ligas e clubes”, continuou Ceferin.

O Monaco, que embora seja um principado independente está vinculado à liga francesa e por ela disputa as competições europeias, só tem vaga garantida em caso de ficar entre os três primeiros no seu país, pelo ranking atual (a França é, atualmente, a quinta no ranking da Uefa, atrás de Espanha, Inglaterra, Itália e Alemanha, nesta ordem).

Já o caso do Ajax é ainda pior, porque a Holanda é a 14ª no ranking, o que significa que mesmo sendo campeão holandês, entre apenas na terceira fase preliminar, precisando passar por duas eliminatórias para voltar à fase de grupos da competição. Os muitos anos de campanhas ruins dos clubes holandeses fizeram com que o país ficasse atrás de países como Rússia (6º), Portugal (7º), Ucrânia (8º), Bélgica (9º), Turquia (10º), Áustria (12º) e Tchéquia (13º). Apenas os campeões dos países até o 11º lugar no ranking entram direto na fase de grupos.

Os times que mais chegam às semifinais são os times que estão todo ano mesmo na Champions League e, por isso, em alguns anos essa medida fosse inócua. Se pensarmos que Real Madrid, Barcelona e Bayern, por exemplo, foram figuras carimbadas nessa fase da competição nos últimos 10 anos, essa medida pouco os afetaria. Mas mudaria muito para um time que conseguisse surpreender para que seguisse forte no ano seguinte. É de se pensar.

Há outras ideias na mesa sobre a Champions League, que parecem não contar com o mesmo entusiasmo do presidente. Segundo o Times, a Associação de Clubes Europeus (ECA, da sigla em inglês) propõe que a Champions League tenha quatro grupos de oito times, aumentando o número de datas, portanto. Outra proposta, segundo o jornal britânico, é aumentar o número de participantes na fase de grupos de 32 para 40 ou até 48, com grupos de cinco ou seis, em vez de grupos de quatro clubes. Estas ideias devem ter mais resistência da entidade, mas especialmente das ligas, que veriam seus calendários possivelmente perdendo dadas para torar isso possível.

O presidente da Uefa foi bastante enfático quando foi perguntado sobre a Superliga, uma ideia que é ventilada há anos de um clube fechado dos maiores clubes europeus formando uma liga própria – que poderia ser a própria Champions League adaptada a isso. Aleksander Ceferin disse palavras fortes contra essa ideia. “Uma Superliga nunca irá acontecer enquanto eu estiver aqui”, afirmou o presidente.

Ceferin defende final da Liga Europa em Baku

A final da Liga Europa foi realizada em Baku, no Azerbaijão, e isso causou um monte de reclamações de torcedores e dos próprios clubes envolvidos no jogo, Chelsea e Arsenal. Para o dirigente, porém, as críticas inglesas não foram tão bem recebidas em outros países da Europa.

“Nós somos o órgão governamental do futebol europeu e nós temos que nos desenvolver em todos os lugares, não apenas nos grandes países”, disse Aleksander Ceferin. “Nós não esperamos pelas últimas duas semanas para decidir onde será jogada a final quando vemos que há, por exemplo, dois times ingleses”, continuou.

“O Arsenal reclamou [mais]. Isso foi provavelmente por causa dos torcedores. Eles apenas reclamaram. Não há uma alternativa, mesmo que eles ofereçam alguma coisa. Em cada parte da Europa é longe para alguém. Você vai para a final da Liga Europa para outras partes da Europa para desenvolver o futebol”, defendeu o dirigente.

“Essas situações não são recebidas bem… É sempre bom ser produtivo e respeitoso. Mas a FA, eu devo dizer isso, eles agora têm uma liderança muito boa. Muito respeitosos, eles viajam, tentam ajudar os países menores”, contou ainda o dirigente da Uefa.

Nos últimos meses, Ceferin, reeleito presidente da Uefa em fevereiro, tem entrado em conflitos com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, sobre diversos assuntos. Um deles é a Copa do Mundo de Clubes, um torneio definido como quadrienal a partir de 2021, com muito mais datas e que tem todo o jeito e cara de uma mini Champions League – o que, evidentemente, desagrada a Uefa. Essa foi apenas uma das desavenças, já que Ceferin é crítico também de uma ideia de Liga Mundial de seleções, além de criticar a escolha da secretária-geral da Fifa, Fatma Samoura, para ser a interventora na Confederação Africana de Futebol (CAF), que está em crise.

Por tantos entreveros com a Fifa, o Times perguntou a Ceferin se ele pretendia ser presidente da Fifa um dia. “Não, Fifa não”, respondeu. “Na Uefa, eu não sei. Nós temos limites de mandatos de qualquer forma. Mas você nunca sabe, porque se você me dissesse há cinco anos que eu seria presidente da Uefa, eu teria rido. Você nunca sabe o que a vida irá trazer. Eu tenho até 2023 e eu tenho que decidir o que fazer. Neste momento, eu estou gostando, esta é uma organização de futebol, não uma organização política”.

Bom, sabemos que palavra de dirigente deve ser escrita no gelo, porque são raros os que mantém a palavra. De qualquer forma, vale ficar ligado no trabalho que Aleksander Ceferin tem feito na Uefa. Ele tem uma missão que é segurar a ideia da Superliga, impedindo que ela aconteça e a sua contundência ao ser perguntado sobre o assunto é um bom sinal.

Além disso, é preciso também proteger a Champions League e não deixar que ela se torne inchada, como aconteceu com a Copa do Mundo, graças a Gianni Infantino, passando de 32 seleções para 48 a partir de 2026. A Champions é a principal competição de clubes do mundo, precisa ser cuidada. Há muita pressão dos clubes mais pesados e ricos, mas é preciso pensar nos clubes menores também. Não há competição sem que os clubes menores possam ter sua participação e incentivo a aumentar o nível. Cabe à Uefa, como organizadora do futebol europeu, garantir que os países menores possam se desenvolver e aumentar o seu nível.